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As notícias sobre o fim da Família são manifestamente exageradas¹

Out 16, 2018

O que se segue depois da família? Muito simplesmente a família! Apenas diferente, mais e melhor: a família negociada, a família alternativa, família múltipla, novos arranjos depois do divórcio, recasamento, novo divórcio, novas combinações dos teus,meus ou nossos filhos, das nossas famílias passadas e presentes

Elizabeth Beck Gernsheim

Contrariando as teses sobre o fim da família, Anália Torres tem demonstrado nos seus estudos que os processos de transformação da família se constituem como importantes lugares de debate entre o público e o privado e se mantém bastante actuais. Como mostram os dados do Inquérito Social Europeu, entre diversos aspectos da vida em sociedade, a família é mesmo o mais valorizado na vida dos europeus, tanto por homens, como por mulheres:

Importância da Família, Amigos, Tempos livres, Política, Trabalho, Religião e Voluntariado, na vida dos europeus, por sexo (médias)

 

Escala: 0=nada importante; 10=extremamente importante
Mostrando a importância e a prevalência que as pessoas dão à família, estes resultados, que não surpreendem os sociólogos desta área, podem constituir alguma surpresa para um público mais vasto. Ecos persistentes da ideia de crise da família parecem, ao menos superficialmente, contradizer esta hierarquia de valores, que permanece ao longo das últimas duas décadas extremamente consistente, como vários inquéritos têm mostrado. Já a escolha dos amigos e do lazer para segundo e terceiro lugar é possível que constituam alguma novidade, pois relativiza e “desimportantiza” a religião, o trabalho voluntário e a política.
No conjunto dos sete aspectos considerados, verifica-se que são mais as semelhanças do que as diferenças entre homens e mulheres. Com efeito, a ordem de importância de cada um deles é a mesma até à quarta posição, surgindo a falta de consenso na religião, último lugar neles e quinto nelas, e na política, onde se verifica o inverso. Eis um resultado que também tende a contrariar o senso comum. Com efeito, é voz corrente que as mulheres valorizam muito mais do que os homens a família e que apostam muito menos do que eles no trabalho, e que em contrapartida os homens hierarquizariam estes aspectos da vida exactamente da maneira oposta: trabalho primeiro, família depois. Ora o que se passa é que a hierarquia é exactamente a mesma para os dois sexos.
Ainda de acordo com os dados do Inquérito Social Europeu, outro indicador da importância da família para os europeus, neste caso da família mais próxima, confirma estes resultados, com 85,7% dos inquiridos a concordarem que a família mais próxima deve ser a prioridade principal na vida das pessoas. Portugal (81,9%) regista valores inferiores à percentagem média. Saliente-se, ainda, que na sua esmagadora maioria, os europeus consideram que o tempo passado em família é agradável e pouco stressante, mais para elas do que para eles.
Ainda de acordo com os dados do Inquérito Social Europeu, outro indicador da importância da família para os europeus, neste caso da família mais próxima, confirma estes resultados, com 85,7% dos inquiridos a concordarem que a família mais próxima deve ser a prioridade principal na vida das pessoas. Portugal (81,9%) regista valores inferiores à percentagem média. Saliente-se, ainda, que na sua esmagadora maioria, os europeus consideram que o tempo passado em família é agradável e pouco stressante, mais para elas do que para eles.
No entanto, quando saímos do plano dos valores e nos centramos nas práticas, a realidade é bem diferente. Tanto na Europa como em Portugal, são as mulheres que gastam mais tempo em tarefas domésticas no dia-a-dia. Entre os que dizem que não gastam “nenhum tempo ou quase nenhum” com tarefas domésticas, os homens são cerca do dobro das mulheres na Europa e o triplo em Portugal. Ou seja, se no capítulo das tarefas domésticas as mulheres na Europa estão claramente sobrecarregadas em relação aos homens, em Portugal estão ainda mais. Dados do Eurobarómetro mostram que as mulheres gastam em média por semana cerca de 24 horas nas tarefas domésticas e a cuidar das crianças e da família, enquanto os homens gastam apenas cerca de 13 horas. O gap entre homens e mulheres é comum a todos os países e desfavorável às mulheres, significando, por conseguinte, que elas trabalham, em média, mais do que os homens em tarefas domésticas e cuidados familiares. A diferença média no conjunto dos países é de 10,7 horas. Portugal está entre os países com o gap mais elevado (13,5 horas). Como nota Anália Torres: “A discriminação e a sobrecarga feminina nos cuidados com os filhos e com a casa não é novidade, num país que remunerou sempre mais a função produtiva do que a reprodutiva”. Não surpreende assim que em todos os países europeus, sejam os homens que mais dizem estarem satisfeitos com a divisão das tarefas domésticas, 87,9% contra 71% de mulheres. É conhecida a célebre proclamação de Mao Tsé-Tung, de que “as mulheres sustentam a metade do céu”, interpretada como um grito pela igualdade de mulheres e homens, não obstante, no que se refere aos papéis familiares, especialmente na Europa do Sul, mais católica e conservadora, as mulheres “sustentam mais de metade do céu”. A desigualdade de papéis familiares é, aliás, produzida e reproduzida no seio da família. Às meninas oferecem-se brinquedos relacionados com os cuidados do lar – cozinhas, bonecas, etc. – e aos rapazes oferecem-se carrinhos bolas.

Rui Brites 2

¹Mais informação em Brites, R., Valores e felicidade no Século XXI: umretrato sociológico dos portugueses em comparação europeia, disponível em https://repositorio.iscte-iul.pt/handle/10071/2948, p.p. 161-171.
² Sociólogo e professor universitário (rui.brites@outlook.com)

Publicado na Revista [Sem]Equívocos, nº7, Verão 2018


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Lista de Candidatos ao Curso de Pós-Graduação

Out 2, 2018

Lista de Candidatos ao Curso de Pós-Graduação

Foram seleccionados os 22 candidatos à frequência da Pós Graduação em Gestão de Equipamentos e serviços destinados a pessoas idosas 2018/2019.

Este é um grupo de pessoas que muito se distingue na área do envelhecimento em Portugal, disponibilizando tempo e dinheiro para aumentarem a sua formação no sentido de conhecerem e aprofundarem melhores práticas para intervir no envelhecimento e nos seus diversos serviços e cuidados.

Ao longo de 21 sábados vão ter oportunidade de ouvir uma selecção de docentes que irá partilhar os seus conhecimentos com uma componente prática muito elevada, falando daquilo que sabem e da realidade nacional e internacional, especialmente na área do envelhecimento institucionalizado.

Também durante esse período irão desenvolver trabalhos em grupo e individuais no sentido de poderem orientar ou reorientarem a sua carreira e os seus objectivos profissionais.

A Associação muito tem aprendido com esta Pós Graduação, sendo hoje a sua principal formação e levando-nos a acreditar que conseguimos contribuir um bocadinho para melhorar os serviços e os cuidados prestados e oferecidos a pessoas idosas.

Na sessão de abertura iremos ter os presidentes e vice-presidentes da Escola Superior de Saude da Cruz Vermelha e da Associação Amigos da Grande Idade e ainda o Professor Doutor Rui Brites, a voz mais conhecida no país sobre questões da felicidade. E porque a felicidade no envelhecimento nos preocupa, teremos uma pequena palestra sobre se é possível ser feliz no envelhecimento.

Para mais informações e para uma possível candidatura no próximo ano sugerimos a consulta a https://associacaoamigosdagrandeidade.com/curso/

Este ano os discentes terão acesso a site com toda a documentação e apresentações utilizadas na Pós Graduação, bem como documentação considerada importante e pertinente para o aumento dos seus conhecimentos, apoio on-line, disponibilizado uma vez por semana e apoio presencial sempre que o desejarem por marcação com cada um dos docentes e com o coordenador geral para o desenvolvimento de potenciais projectos individuais e/ou colectivos.

Estamos também a ultimar a realização de algumas sessões à distância facilitando o acompanhamento de todos os participantes e de outros possíveis interessados em temas de sessões pontuais.

Durante a Pós Graduação será também realizado um seminário que juntará uma quantidade significativa de convidados que representam o maior conhecimento sobre envelhecimento existente em Portugal.

A listagem dos candidatos admitidos é a seguinte:

1. Alberto João Leal dos Santos
2. Ana Catarina Correia Lourenço
3. Ana Maria Ramos de Faro Gamboa Alves
4. Ana Paula Marques Gaspar
5. Carla Freitas Pereira
6. Catarina Viana Costa Damásio
7. Cristina Lara de Sousa Gameiro
8. Domingos Jorge Rua Araújo
9. Helena Isabel Carvalho Andrade
10. Hugo Tomás Guerra Palhas
11. Ina Obykhod
12. Isabel Maria Figueiredo Neves
13. Isabel Maria Rodrigues Mateus Fernandes
14. Mafalda Isabel Martins Frazão
15. Manoel Vicente Penha de Lima
16. Maria de Lurdes dos Santos Gonçalves
17. Maria Henriqueta de Oliveira Semedo da Cruz Precatado
18. Maria Madalena Ferreira Marques
19. Marília Fernandes da Silva
20. Matilde Louro Bugalhão
21. Patrícia Raquel e Lozano de Almeida
22. Sara Daniela dos Santos Venceslau
23. Sofia da Conceição Costa Santos
24. Soraia Andreia Duarte Santos Ruivo
25. Susana do Rosário Marques Prates

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Os portugueses gostam da “Geringonça”¹

Jul 17, 2018

Pessoalmente nunca gostei do termo “geringonça” com que a solução governativa foi cunhada de forma infeliz numa crónica de Vasco Pulido Valente. De acordo com o dicionário Priberam³, significa:
“Coisa ou construção improvisada ou com pouca solidez. = CARANGUEJOLA. Aparelho ou mecanismo de construção complexa. = ENGENHOCA. Confundir uma solução governativa legítima contemplada no quadro
constitucional com uma engenhoca,é má fé ou enviesamento ideológico.
Mas os portugueses gostaram manifestamente da solução, como mostram os dados disponibilizados pelo Inquérito Social Europeu⁴. A percepção dos portugueses sobre a sua felicidade, a satisfação com a vida e a satisfação com a forma como o Governo está a governar, atingiu em 2017 valores médios nunca antes registados.
Na satisfação com o Governo, Portugal foi o país europeu onde se registou o maior aumento entre 2014 e 2017, 3,01 e 5,02, respectivamente. Este aumento não tem paralelo com o que se passou entre 2002 e 2014, reflectindo estes valores, sem dúvida, a expectativa positiva com a mudança do governo, pois embora este survey tenha a data de 2016, em Portugal a recolha dos dados ocorreu entre o fim de 2016 e 2017. Ou seja, a opinião dos portugueses sobre a governação está consolidada.
Relativamente à satisfação com a vida e à felicidade, regista-se também um aumento estatisticamente significativo. A posição relativa de Portugal relativamente a estas duas dimensões do bem-estar subjectivo mantém-se relativamente estável desde 2002. Não admira, pois, a percepção do bem-estar subjectivo tem características estruturais e varia pouco ao longo do tempo. No entanto, é de sublinhar o aumento verificado. Note-se ainda que as respostas a questões deste género são muito influenciadas pela idiossincrasia do país. Por norma, os portugueses não respondem nas “pontas da escala”, são moderados nas respostas. Nem se sentem muito mal, nem muito bem, antes assim-assim.
Já a satisfação com o governo é uma dimensão conjuntural, que pode registar um aumento significativo em face de uma situação considerada extraordinária, como é o caso e nada garante que se mantenha se os portugueses se sentirem defraudados nas expectativas que depositaram na mudança de ciclo. Como se sabe, a oposição não ganha eleições, o governo é que as perde. Estes resultados, ao mesmo tempo que traduzem a aprovação da actual solução governativa, traduzem também, uma insatisfação profunda com a situação anterior.
Os quadros seguintes* evidenciam estes resultados:

Rui Brites²

¹Publicado no Diário As Beiras em 13/07/2018. http://www.asbeiras.pt/2018/07/os-portugueses-gostam-da-geringonca/
² Sociólogo e professor universitário (rui.brites@outlook.com)
³https://www.priberam.pt/dlpo/geringon%C3%A7a
http://www.europeansocialsurvey.org .Os dados respeitantes ao round 2016 foram recolhidos em Portugal entre o fim de 2016 e meados 2017.

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Os portugueses e a política

Jun 29, 2018

A mesa resplandecia; e as tapeçarias, representando massas de arvoredos, punham em redor como a sombra escura de um retiro silvestre onde, por um capricho, se
tivessem acendido candelabros de prata. Os vinhos saíam da frasqueira preciosa do Ramalhete. De todas as coisas da Terra e do Céu se grulhava com fantasia – menos de «política portuguesa», considerada conversa indecorosa entre pessoas de gosto

Eça de Queiroz (Os Maias)

O interesse pela política é um indicador que funciona como barómetro da preocupação dos cidadãos pela “coisa pública”. Os dados do Inquérito Social Europeu (ESS) 2002-2014, mostram que os portugueses são os europeus que mais dizem que não se interessam por política (38,4%), verificando-se no Algarve o desinteresse mais acentuado (67,6%). Mas, se o desinteresse pela política é um sintoma preocupante, as dificuldades em perceber a política, certamente, não o são menos, pois em concreto pode traduzir-se em tomadas decisão pouco informadas, de que é exemplo o acto de votar. As campanhas eleitorais têm como principal finalidade, como se sabe, convencer os indecisos. O anátema de que os candidatos mentem todos e, quando estão no poder não cumprem as promessas que fizeram, decorre da “impossibilidade” de o fazerem. Mente-se mais quando o público-alvo quer que lhe mintam. Ou seja, um candidato que diga a “verdade” não tem hipóteses de ser eleito, como bem tem demonstrado a ciência política. Advém daí a importância do marketing político que, a exemplo do marketing comercial, pretende “vender” um candidato, exaltando, para o efeito as suas pretensas qualidades, mas escamoteando os seus defeitos. Também neste caso, na Europa é em Portugal que se regista a percentagem mais elevada de inquiridos que dizem que a política lhes parece tão complicada que não percebem verdadeiramente, o que se está a passar (42,8%).
Outro indicador importante para perceber a relação dos cidadãos com a política é a resposta à questão: “De uma forma geral, qual o grau de dificuldade que sente em tomar uma posição acerca de questões políticas?”. Mais uma vez, Portugal regista a percentagem mais elevada dos que dizem que têm dificuldade em tomar uma posição política (52,3%).

É claro que esta relação dos portugueses com a política não pode deixar de produzir efeito na simpatia partidária e no voto. Como notou José Manuel Viegas, ao analisar a abstenção nas eleições legislativas de 2002, a simpatia partidária é um preditor importante e as variáveis com maior peso no acto de votar são: o “interesse pela política”, a “idade”, e a “simpatia partidária”. Os resultados do ESS confirmam aqueles resultados, pois entre os que têm simpatia por um partido apenas 10,7% dizem que não votaram nas últimas eleições nacionais, enquanto nos que não têm, aquele valor ascende a 31,8%.

É assim patente o distanciamento da política por parte dos portugueses. Este distanciamento, como se sabe, condiciona o exercício pleno da cidadania. Alguns autores têm chamado a atenção para o facto de constituir uma ideia adquirida de que a política está em crise, manifestando-se o desinteresse por esta de tal forma, que era possível falar numa tendência para a despolitização, cuja causa mais frequentemente avançada seria o “comportamento dos próprios actores políticos”, nomeadamente, os numerosos escândalos políticos que puseram em causa a sua credibilidade. É o que se pode inferir dos seguintes indicadores de confiança política que, em Portugal, registam os valores médios mais baixos:

Confiança política na Europa*

 

Em suma, os portugueses não se interessam por política, têm dificuldade em descodificar o discurso político e em tomarem decisões políticas. E votam! Como votam? É o que veremos em próximo artigo.

Fonte: European Social Survey 2002-2014 ( www.europeansocialsurvey.org)

Rui Brites 1

Publicado na Revista [Sem]Equívocos, nº6, Primavera 2018


1 Sociólogo e professor universitário (rui.brites@outlook.com)

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Seminário da Maia

Jun 26, 2018

MAIA 2018 FOI PALCO PARA A REFLEXÃO SOBRE SINDROME CONFUSIONAL DO IDOSO E FUNCIONALIDADE

Decorreu na cidade da Maia no dia 2 de Junho. O seminário subordinado ao tema “Envelhecer: o esperado e o inesperado” que foi organizado pela Associação em conjunto com a Escola Superior de saúde da Cruz Vermelha Portuguesa, contando ainda com o apoio da delegação da Maia daquela entidade.

Esta iniciativa integra-se num projecto mais vasto que é a implementação de condições para o desenvolvimento de formação sobre envelhecimento e longevidade no norte do País, parecendo á Associação que existe uma necessidade significativa e que pode ser uma mais valia para melhorar os cuidados e os serviços destinados a pessoas idosas. O seminário da Maia seguiu-se a acções já realizadas em Braga e no Porto e antecede uma grande iniciativa que vai ter lugar em Outubro em Guimarães.

Este seminário teve a participação de alguns destacados oradores que trataram de dois temas muito importantes para a associação e para o envelhecimento: o síndrome Confusional da pessoa idosa e a funcionalidade e sua manutenção. O primeiro tema foi discutido por um painel de extraordinários conhecedores e investigadores nacionais: professores Doutores Carlos sequeira, António Leuschner, Zaida Azeredo e Lia Fernandes, moderados por Joana Ferreira. A manhã foi ainda ocupada com a cerimónia de abertura que contou com a presença do vice-presidente da AAGI, do presidente da Escola Superior de saúde da Cruz Vermelha Portuguesa, pelo Presidente da Delegação da maia da Cruz Vermelha Portuguesa e pela autarca e deputada Dr.ª Maria de Fátima Moreira dos Santos , na qualidade de vereadora da camara da maia com o pelouro da saúde.

Antes do almoço houve oportunidade de ouvir uma das vozes mais importantes no panorama da psicologia e psicanálise em Portugal, muito pouco reconhecido pelos meios de comunicação e infelizmente só seguido pelos conhecedores e os que desejam aumentar a sua capacidade intelectual: Professor Coimbra de Matos que desertou sobre envelhecimento e amadurecimento.

À tarde teve lugar o debate sobre funcionalidade com Professor Doutor António Ilhicas, Professor Doutor Alberto Barata, Doutora Cláudia Moura e forte participação da plateia. Muito conhecimento e evidência científica caracterizou a intervenção do Professor Alberto barata e muita paixão e realidade prática descrevem a intervenção de António Ilhicas.

A cerimónia de encerramento foi assegurada pela vice-presidente da Escola Superior de saúde da Cruz Vermelha Portuguesa, pelo presidente da AAGI e pela Autarca da Camara Municipal da Maia com o pelouro da solidariedade e área social, Dr.ª Ana Miguel Ferreira de Carvalho.

Este foi mais um evento que fica na história já longa da Associação e que marca a nossa presença, mais uma vez, no Norte do país.

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Professor Doutor António Coimbra de Matos

Jun 26, 2018

“O Idoso amadurecido vive com entusiasmo mas não com grandiosidade, desafiando o futuro mas não tendo uma ideia utópica sobre esse mesmo futuro” António Coimbra de Matos (seminário Maia 2018)

O Professor Doutor António Coimbra de Matos deu uma lição sobre envelhecimento, longevidade e, especialmente sobre a forma como devemos encarar esse processo.

Iniciando a sua conferência por um tema que lhe é muito querido; a competição versus a cooperação, fez-nos facilmente concluir que só relações de cooperação (“relação de par”) é que são criadoras e que fazem as sociedades progredir.

Também nos explicou que é na posição objectável e não numa posição narcisística que a pessoa evolui e se torna ou mantem produtiva. Não devemos continuar a acumular conhecimento para nós mas a partilhá-lo nunca deixando do adquirir e só assim é que atingimos posições que podem servir para produzir, mostrando-nos aos outros.

Com frases como “o verdeiro mestre é aquele que está sempre a apreender, o professor Coimbra de Matos fala daquilo eu sabemos, sentimos, percebemos mas dificilmente conseguimos explicar.

O processo de mais anos de vida deve passar por amadurecer e não envelhecer. Amadurecer é ganhar mais vida porque se sabe viver melhor, é ganhar mais saúde porque se sabe escolher melhor e ganhar mais participação porque se pode optar. É pois um processo positivo e nunca negativo. Só se torna negativo se as pessoas assim o desejar ou alguém obrigar a que seja.

Desconstrói algumas ideias preconcebidas: os idosos são manipuladores, os idosos auto-excluem-se propositadamente, os idosos disfarçam-se. Os idosos preferem encontrar alguém que lhes trate das novas tecnologias do que aprender a trabalhar com elas, tornam-se mais exigentes e mais selectivos

Perceber de envelhecimento é permitir-lhes estas especificidades, permite o requinte, a escolha, a decisão.

Finalmente o Professor Coimbra de Matos abriu-nos a janela da sua felicidade: escolhe a luz para pensar melhor, tem a grande vantagem de mais idade mais experiência e utiliza-a, passou de funções executivas a funções consultivas, tornou-se selectivo e requintado.

Sabe bem que a vida tem um prazo mas não vive angustiado porque a mortalidade simbólica permite encarar a mortalidade com menos angústia e a actividade distinta espanta a morte “E aqueles, que por obras valerosas/ Se vão da lei da morte libertando”

Participar nos eventos da associação Amigos da Grande Idade ultrapassa actualmente muito a simples discussão do envelhecimento, do bom, do mau, das indecisões e das unanimidades que nunca se concretizam

 

 

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Mensagem do Presidente da AAGI

Jun 26, 2018

 

A Associação Amigos da Grande Idade completou agora dez anos de existência. É muito jovem comparada com as grandes corporações que tratam de assuntos do envelhecimento.
Desde cedo compreendemos que esta dedicação a uma área com tão pouco mediatismo e até incomodativa para a grande maioria das pessoas não teria grandes compensações e não seria fácil de manter. Uma convicção forte e uma gratidão por parte das pessoas idosas que fomos encontrando compensaram até hoje essa dificuldade.
Estamos numa altura crucial para o futuro do envelhecimento em Portugal e até na Europa e no Mundo. Temos rapidamente de definir prioridades e conceitos e deixar de esconder incapacidades por detrás de confusões que teimam propositadamente em manter-se.
A grande decisão é percebermos de que envelhecimento queremos tratar, cuidar, reflectir nos próximos anos. Porque há mais que um envelhecimento e isso faz toda a diferença.
Há o envelhecimento que muitos gostam e decidiram investir as suas capacidades, o seu trabalho, empenhando-se em projectos extraordinários e criativos e o envelhecimento das pessoas idosas reais, escondido dentro de casas sem ninguém, em lares não fiscalizados e nunca avaliados, mesmo sendo legais. São dois envelhecimentos distintos e que requerem honestidade quando tratados.
A Associação nasceu e cresceu nos anos do envelhecimento activo, nos anos das cidades amigas das pessoas idosas, nos anos dos velhos saudáveis e das grandes iniciativas nacionais e internacionais. Assistiu desde esses anos até hoje a um processo em que cada vez se baixa mais a idade do envelhecimento, chegando-se hoje a ter projectos destinados a pessoas idosas a partir com 55 anos!
Mas a Associação, porque também teve ai a sua origem, nunca deixou de reflectir sobre o envelhecimento institucionalizado, o verdadeiro envelhecimento que é preocupante para as sociedades e que muito diz do desenvolvimento, dignidade, respeito por parte da sociedade, que pode medir qualidade de vida de um País.
O envelhecimento só é fenómeno político, social e económico quando se traduz em alterações nessas áreas com implicações para toda a sociedade. Ora as pessoas com 55 anos o mais que podem ser é desempregados não jovens e criam de facto um problema para a sociedade mas que não deve ser confundido com o fenómeno do envelhecimento. Que culpa tem o envelhecimento das sociedades (determinado muito pela diminuição dos nascimentos) em que o mercado de trabalho não goste de pessoas que passam a adolescência?
Não, o envelhecimento traz na verdade dificuldades para a sociedade e o seu equilíbrio mas é porque se aumentaram os anos de vida sem qualidade desses anos e aumentando anos de doença. Em Portugal.
O que muito diferencia o norte do sul da europa são os anos de vida saudável depois dos 65 anos. Em Portugal são menos de metade do que em países do norte da Europa e são esses anos que custam a suportar à sociedade. Nenhum velho gasta mais dinheiro à sociedade só por ser velho. Gasta porque em Portugal ser velho é ser doente e dependente.
Estamos assim perante o maior desafio dos sistemas de suade e sociai. Um desafio com muitas semelhanças com o desafio com que nos deparámos nos anos seguintes ao 25 de Abril com a área das crianças e da mortalidade infantil.
Nessa altura foi feito um programa nacional que indicava apenas um compromisso e uma intervenção: a prevenção.
Ganhámos esse desafio e custa a crer que ainda não se tenha concluído que para o desafio do envelhecimento também seja essa a solução: a prevenção.
É este o desafio que deixo a todos, por agora, para reflectirem.

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