Aa25rp

Simpatia partidária e Autoposicionamento político

Abr 9, 2018

“Um eleitor que declara o seu voto já não é um simples eleitor, começa a tornar-se um simpatizante… a sua confissão traz já em si um elemento de propaganda; ela aproxima-o igualmente dos outros simpatizantes e cria os primeiros laços duma comunidade”

Maurice Duverger

Os valores sociopolíticos, nomeadamente os que se referem ao interesse pela política, autoposicionamento político e participação política, assumem um papel central na esfera da cidadania activa. Inglehart, que propôs uma taxonomia dos valores sociopolíticos distinguindo dois grupos: “materialistas” e “pós-materialistas”. Associa os primeiros à satisfação das necessidades básicas, ao bem-estar económico e à coesão social e os segundos a preocupações sociais e individuais: estéticas, intelectuais, qualidade de vida e envolvimento nos processos de tomada de decisão no trabalho, nas relações de vizinhança e no sistema político. Salientava o facto de as sociedades ocidentais darem uma prevalência cada vez maior aos valores pós-materialistas, notando que quanto maior for o desenvolvimento sociocultural maior será a saliência deste tipo de valores. A socialização política assume, assim, um papel primordial na formação das crenças e valores promotores de uma cidadania activa e participativa. Se a política é a arte do possível, convém que o “possível” seja exigente. Só o será se os cidadãos tomarem consciência do seu papel de agentes transformadores da sociedade, recusando os “determinismos sociais” patentes nos modelos de sociedade com que amiúde são confrontados. As mudanças sociais e de sociedade registadas ao longo do processo histórico da humanidade são bem o exemplo de que o “que tinha que ser assim e não podia ser de outra maneira”, afinal… “podia ser de outra maneira”..

De acordo com os dados disponibilizados pelo Inquérito Social Europeu entre 2002-2012, cerca de metade dos portugueses com capacidade eleitoral declara que tem simpatia por um partido político. Destes, 44,4% dizem que simpatizam com o PSD,37,7% com o PS, 5,2% com o BE, 3,5% com o CDS e 2,3% com o PC.

Como escreveu algures Eduardo Prado Coelho, e cito de memória: quando alguém diz que já não há razão para distinguir a esquerda da direita, é porque é… de direita. Vem isto a propósito da dicotomia esquerda direita no discurso político, por um lado, e do significado que isso pode ter para o cidadão comum, por outro. Com efeito, quando analisamos a resposta à seguinte questão constante do Inquérito Social Europeu: “Em política é costume falar-se de esquerda e direita. Como é que se posiciona nesta escala, em que 0 representa a posição mais à esquerda e 10 a posição mais à direita?”, os resultados parecem algo desconcertantes. Em termos médios, os portugueses que simpatizam com um partido político autoposicionam-se ao centro (4,7). Os simpatizantes do Partido comunista e do Bloco posicionam-se claramente à esquerda (2,4), os do CDS à direita (7,3), os do PSD ao centro (5) e os do PS ao centro-direita (5,8).

O quadro seguinte mostra bem a vocação de “catch all party” do PS e do PSD. Por seu lado, o CDS assume-se como o partido da direita, dando razão ao que disse a sua líder no último congresso. O PCP e o Bloco disputam os simpatizantes que se posicionam claramente à esquerda.

 

 

 

 

 

 

 

Note-se que estes dados se referem a uma série longa – seis edições do Inquérito Social Europeu, 2002, 2004, 2006, 2008, 2010 e 2012 – com várias eleições legislativas e autárquicas pelo meio, o que permite minimizar os efeitos de conjuntura. No próximo artigo veremos as implicações que a simpatia partidária e o autoposicionamento político têm no voto.

Publicado no Diário As Beiras, 29/03/2018, pág 25.

Rui Brites 1


1 Sociólogo e professor universitário (rui.brites@outlook.com)

 

Ler mais

Percepções sobre a Justiça

Mar 21, 2018

“A base da sociedade é a justiça; o julgamento constitui a ordem da sociedade: ora o julgamento é a aplicação da justiça”

Aristóteles

A confiança, como têm sublinhado diversos autores, está intimamente ligada ao “capital social” e tem implicações no dia-a-dia das pessoas, reflectindo-se nas atitudes sobre o pagamento de impostos, o envolvimento comunitário, a participação eleitora, etc. Já a falta de confiança produz anomia social, teorizada por Durkheim como ausência de normas sociais e morais que sirvam de “guia” para a sociedade. Quanto menos os cidadãos confiarem nos seus governantes e nas instituições políticas, menos eficiente se tornará o governo e maior será a probabilidade de os cidadãos verem pouca credibilidade no seu sistema político. Para Giddens, a confiança pode definir-se como a segurança na credibilidade de uma pessoa ou na fiabilidade de um sistema. As sociedades mais confiantes são também as mais tolerantes e solidárias. A falta de confiança, também designada na linguagem comum por desconfiança, torna-se assim um elemento constrangedor da cidadania e, por consequência, do desenvolvimento económico e social. Como notou Maquiavel: “os homens são tão simples e tão obedientes às necessidades do momento, que quem engana encontra sempre quem se deixe enganar”.

Entre as instituições democráticas, o Sistema Judicial e o funcionamento da justiça é um dos pilares fundamentais da democracia. É por isso que os dados disponibilizados pelo Inquérito Social Europeu não nos devem deixar descansados, pois os portugueses contam-se entre os europeus que menos confiança têm na justiça. Certamente que estes resultados serão, em grande parte, influenciados pela mediatização da justiça e pela percepção que os portugueses têm de que a justiça é fraca com os fortes e forte com os fracos. Um exemplo: Portugal está classificado no 29º lugar no Índice de Percepção da Corrupção, no entanto, contam-se pelos dedos das mãos os “corruptos” presos.

As penas controversas aplicadas pelos tribunais, que contribuem para a percepção de que a justiça é injusta, também podem explicar a pouca confiança na Justiça. Os casos de violência doméstica que
foram amplamente mediatizadas, também contribuem para isso. Este excerto do famoso acórdão do Tribunal da Relação do Porto: «o adultério da mulher é uma conduta que a sociedade sempre condenou (são as mulheres honestas as primeiras a estigmatizar as adúlteras), e por isso [a sociedade] vê com alguma compreensão a violência exercida pelo homem traído, vexado e humilhado pela mulher». Não surpreende assim que o Presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público tenha afirmado recentemente numa entrevista que “o Ministério Público não está preparado para lidar com a violência doméstica. Lê-se e custa a acreditar.

Os recentes casos de fogo posto, como esta notícia da TVI do passado mês de Julho: «Pena suspensa para incendiário que ateou nove fogos. Arguido estava com pulseira eletrónica e confessou os
factos em tribunal. Justificou-se dizendo que “andava descontrolado” com a separação da mulher. Juízes decidiram dar-lhe “um voto de confiança”», são incompreensíveis para a opinião pública.

Não surpreende assim que cerca de 80% dos portugueses concordem que «Geralmente, os tribunais protegem mais os interesses dos ricos e poderosos e menos os das pessoas comuns» e que «As decisões e acções dos tribunais são indevidamente influenciadas por pressões de partidos e figuras políticas»2. A figura seguinte deve preocupar-nos a todos, salientando-se o facto de que os países que mais confiam na justiça são, também, os que estão melhor posicionados no Índice de corrupção3.

Fonte: European Social Survey 2002-2014 ( www.europeansocialsurvey.org)

Rui Brites 1

Publicado na Revista [Sem]Equívocos, nº5, Inverno 2018: 8 e 9


1 Sociólogo e professor universitário (rui.brites@outlook.com)

2 Dados do European Social Survey, 2010.
3https://www.transparency.org/news/feature/corruption_perceptions_index_2016#table

Ler mais

BOAS FESTAS, FELIZ ANO NOVO E MENOS INFELICIDADE PARA OS MAIS VELHOS

Dez 12, 2017

 

2018: O ANO ZERO PARA UMA MUDANÇA DO PARADIGMA DA INTERVENÇÃO NO ENVELHECIMENTO

 

A Associação Amigos da Grande Idade declara-se como uma entidade que pugna pelo envelhecimento menos infeliz em Portugal.
Todo o seu trabalho foi e é desenvolvido nesse sentido. Através de reflexão e divulgação (congressos, eventos diversos, publicação de manuscritos e site), investigação (revista cientifica, apoio a teses, desenvolvimento de projectos), intervenção (audiências com entidades, políticos, decisores, gestores), formação (realização de acções e cursos de formação, agora com o crédito da DGERT).
É um trabalho discreto, voluntário e exaustivo realizado por pouco mais de uma dúzia de pessoas mas que envolveu, nos últimos dez anos, milhares de outras pessoas, algumas delas que nunca tinham pensado no envelhecimento.

Largámos há muito a ideia da felicidade porque vivemos num país pobre e triste apesar de sermos campeões europeus de futebol e termos ganho o festival da eurovisão, continuamos a discriminar, a olhar de lado e a não reconhecer um problema grave que temos: um terço da população é velha, viveu e trabalhou toda uma vida e não tem quem se preocupe com ela a não ser os peditórios, os cuidados aos coitadinhos e a indiferença politica. Um modelo de intervenção estafado e indigno.

Concluímos que em vez da felicidade seria melhor falarmos na funcionalidade, sabendo que através dela conseguimos manter alguma dignidade, alguns direitos e respeito.
Mas em 2018 elegemos a atenuação da infelicidade e vamos trabalhar sob esse objectivo. Denunciando as más práticas e os maus exemplos sem nos escondermos no anonimato, procurando soluções adequadas às dificuldades politico-socias-económicas, incomodando as autoridades que mantêm a ignorância institucional e continuando a formar, sempre a formar, porque é a imagem e a prática dos líderes que se reflecte nos serviços, nos cuidados e nas ofertas. Líderes que podem ser todos, cada um liderando na sua área profissional. Não queremos líderes polivalentes, de grande dimensão porque sabemos que o país não os tolera uma vez que se desenvolve debaixo de um manto de invejas e interesses particulares e privados.

Em 2018 a Associação pretende colocar todos os seus conhecimentos na prevenção do envelhecimento, utilizando os meios já existentes e mal geridos por falta de estratégia e planeamento. Vamos, surpreendentemente, ou não, conseguir mudar o paradigma do envelhecimento apostando na prevenção e deixando a luta perdida na intervenção aquando da institucionalização.

Desejamos a todos e todas boas festas e um feliz ano novo. Às pessoas idosas, menos infelicidade no seu processo natural de envelhecimento que é a única forma de viverem mais tempo, que deveria ser mais tempo feliz.

Ler mais

NOVAS PROPOSTAS DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL 2018

Dez 12, 2017

 

NOVAS PROPOSTAS DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL CREDITADA PARA 2018

 

Está já anunciado o calendário de formação para o primeiro trimestre de 2018. A Associação aposta fortemente nesta área desde o início do ano, tendo a certeza que uma das maiores lacunas que existem nos cuidados e serviços para pessoas idosas tem a ver com a formação dos profissionais.

As estruturas residenciais para pessoas idosas, os centros de dia, os cuidados domiciliários e outras soluções inovadoras são a imagem dos líderes e gestores e estes tem que definitivamente aceitar que precisam de estar formados especificamente para determinadas tarefas.

Até hoje a Associação ministrou formação a mais de duas mil pessoas, muitas delas que se encontram hoje na liderança de serviços. A formação da AAGI é uma marca reconhecida pela sua competência, alinhamento com as necessidades e ajustada à realidade do trabalho de terreno.

O “Curso de Gestão Organizacional de lares e casas de repouso” foi restruturado passando agora a designar-se “Curso de Executivos para a gestão de unidades e serviços destinados a pessoas idosas”. Passa a ter 32 horas e baixa de preço, apresentando 4 dos melhores formadores nacionais para esta área: Rui Fontes, Carla Ribeirinho, António Ilhicas e Dina Vasa.

Também o workshop “Desafios na Gestão de Lares” vai ter novos conteúdos em 8 horas de formação com Rui Fontes, a realizar em Lisboa, Braga e Coimbra e surge um novo workshop com o nome “O papel do psicólogo no envelhecimento”, ministrado pelo provedor dos estágios da ordem dos Psicólogos e Vice-Presidente da Associação, António Ilhicas.

Relançamos novamente o workshop da Professora Carla Ribeirinho “Supervisão de equipas de auxiliares em lares, cuidados domiciliários e centros de dia”, com oferta em Lisboa e Coimbra.

Lançamos pela primeira vez o workshop “Higiene e Segurança no Trabalho”, em Lisboa e uma das maiores novidades numa formação de 12 horas: “Liderança” que demonstra que todos podem ser líderes conscientes e capazes de produzir a mudança.

É uma oferta vasta mas com garantia da qualidade da Associação cuja avaliação por parte de todos os participantes é extraordinariamente elevada e que tem contribuído para a mudança de vidas profissionais de pessoas, mas acima de tudo para melhores cuidados e melhores serviços a pessoas idosas.

Ler mais

AVALIAÇÃO 65+

Dez 12, 2017

 

PROJECTO DA AAGI COM O ACES DE ALMADA E SEIXAL
O PRIMEIRO PASSO PARA A MUDANÇA DO PARADIGMA DO ENVELHECIMENTO EM PORTUGAL

 

Já está em marcha o maior projecto em que a Associação se envolveu até hoje. Um projecto que nos traz a esperança de podermos influenciar o envelhecimento em Portugal e poder contribuir para a sua extensão a outros países da Europa.

Em 2008 demonstrámos que a introdução de equipas de 24 horas de enfermagem em Lares de idosos melhorava extraordinariamente a vida das pessoas idosas residentes nessas estruturas e trazia uma poupança de milhares de euros ao serviço nacional de saúde directamente e de milhões de euros à sociedade indirectamente. Utilizámos um sistema de saúde fechado de pequena dimensão e publicámos o trabalho no Banco Europeu de Inovação em Saúde. Mas o País e algumas das suas corporações não estão preparados para estas mudanças, mantendo um modelo de intervenção caritativo e assistencialista.

Agora temos a esperança de podermos formalizar e institucionalizar um projecto que há muito desejamos colocar no terreno. É consequência de uma reflexão de duas dezenas de investigadores e profissionais de diversas áreas. Trata-se da avaliação da condição de saúde das pessoas quando fazem 65 anos, orientando todo o seu projecto de vida no sentido de manter a vida activa e saudável. Um sonho que queremos tornar realidade.

Temos para isto a parceria e liderança do projecto do Agrupamento de Centros de saúde de Almada e Seixal e estamos a iniciar a preparação da equipa que se vai envolver no projecto.
Iniciamos em Janeiro a fase da apresentação aos parceiros, sendo nossa intenção envolver todas as entidades da área que desenvolvam actividade de saúde e social. Vamos também fazer a apresentação pública do projecto.

Esta ideia está transcrita, sem especificidade alguma, na estratégia para o envelhecimento activo e saudável para 2025 e agora poderá passar á prática.

Em breve teremos portal próprio onde poderá acompanhar o desenvolvimento do projecto.

Ler mais

AGEING CONGRESS 2018

Dez 12, 2017

 

FORTE PARTICIPAÇÃO DA ASSOCIAÇÃO NO AGEING CONGRESS 2018

 

Coimbra vai ser palco de um dos maiores eventos sobre envelhecimento realizado até hoje em Portugal, nos dias 27 e 28 de Maio de 2018.

Decorre já a preparação do evento que motiva a participação de todos os profissionais que desenvolvam actividade na área do envelhecimento por toda a Europa e mesmo por todo o Mundo, já que contará com a participação de dezenas de investigadores internacionais.

O evento é constituído por 7 painéis, sendo um dos painéis da responsabilidade exclusiva da Associação Amigos da Grande Idade, por convite directo do Professor Dr. Ricardo Pocinho.
Neste painel discutir-se-á o estado da arte dos Equipamentos e Serviços Destinados a Pessoas Idosas/A Institucionalização.

A recepção de trabalhos decorrerá até 15 de Abril e podem consultar-se outras informações em https://ageingcongress.com/home/, estando ainda em construção o portal.
Poderão ser solicitadas informações à Associação Amigos da Grande Idade através do mail associacaoamigosdagrandeidade@gmail.com

A página destinada ao nosso painel encontra-se também em construção e poderá ser consultada em https://ageingcongress.com/tracks/equipment-for-the-elderly/
O Chair deste painel será o Presidente da Associação Amigos da Grande Idade, Dr. Rui Fontes e os co-chairs, O Professor Doutor António Ilhicas e a Professora Doutora Carla Ribeirinho.

Este é mais um reconhecimento público da importância da Associação que muito nos honra, pretendendo que o nosso painel seja o mais concorrido de todo o evento. Para isso contamos com a sua participação e apresentação dos seus trabalhos, encontrando aqui uma oportunidade única para transmitir e partilhar o seu conhecimento e a sua experiencia.

Ler mais