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Felicidade Interna Bruta

Ago 18, 2015

“Entre os méritos do homem e da mulher, considerados no seu justo valor, não
há diferenças, ou pelo menos não apresentam as diferenças que a tradição nos
ensinou. Para a mulher, como para o homem, o gosto de viver é o segredo da
felicidade e do bem-estar”

Bertrand Russel

A Felicidade Interna Bruta (FIB), por analogia com o Produto Interno Bruto (PIB) tem ocupado largo espaço nos media, especialmente depois de Sarkozy, em Fevereiro de 2008, ter criado uma comissão para estudar o conceito.

Essa comissão, presidida por dois prémios Nobel de grande prestígio: Joseph Stiglitz, da Universidade de Columbia, ex-director do Banco Mundial e Amartya Sen, da Universidade de Harvard, e por JeanPaul Fitoussi, director de pesquisa do OFCE e professor emérito do IEP em Paris, terem apresentado o seu relatório com doze recomendações. Como referem no seu relatório (disponível em http://stiglitz-sen-fitoussi.fr/en/index.htm) os autores notam que os nossos sistemas de medida focam-se muito mais na produção económica do que no bem-estar das pessoas. A mudança de ênfase do PIB para o bem-estar não significa, contudo, que se abandone o primeiro, pois a informação em que se baseia continua a ser importante, nomeadamente no que se refere à monitorização da economia. No entanto, essa informação é insuficiente, tornando-se necessário recolher informação complementar centrada no bem-estar sustentado das pessoas. “Há várias dimensões do bem-estar, mas um bom começo é a medição do bem-estar material ou padrões de vida. Tal sistema não deve apenas medir os níveis médios de bem estar dentro de uma dada comunidade, e como mudam ao longo do tempo, mas também documentar a diversidade de experiências dos povos e as ligações entre as várias dimensões da vida das pessoas”. Nas suas recomendações propõem que a avaliação do bem-estar material se centre no rendimento e no consumo em vez da produção, devendo contemplar medidas que permitam melhorar a saúde, a educação e o meio ambiente, através de indicadores robustos e confiáveis capazes de medir as conexões sociais, a participação política e a insegurança e avaliar desigualdades de uma forma global.

Nesta perspectiva, a distribuição do rendimento torna-se mais importante do que o rendimento médio per capita. Em vez de nos focarmos no PIB, devemos focar-nos na FIB (Felicidade Interna Bruta), considerada como um indicador de bem-estar social, que exprime, num dado país, o “stock” de felicidade das pessoas, cuja busca, como está inscrito na Constituição Americana, deve nortear os objectivos da governação. Consideram que a felicidade é uma expressão do bem-estar subjectivo, conceito multidimensional, assente nas seguintes dimensões-chave, que devem ser consideradas em simultâneo: i) Padrões materiais de vida (rendimento, consumo, e riqueza), ii) Saúde, iii) Educação, iv) Actividades pessoais, incluindo o trabalho, v) Voz política e governação, vi) Conexões e relações sociais, vii). Ambiente (condições actuais e futuras) e viii) Segurança de natureza económica e física.

O Índice de Felicidade Interna Bruta , construído com base nestas dimensões2, apresenta a seguinte distribuição na Europa:

Felicidade Interna Bruta na Europa

opiniao-ruibrites-fib-1

Fonte: European Social Survey, 2008

Numa escala estandardizada em que o valor 0 significa a média do conjunto, os países Escandinavos e a Europa do Centro, com excepção da França registam valores médios superiores à média, enquanto os países Pós-comunistas e Portugal registam valores médios inferiores. Saliente-se ainda que, a exemplo do que acontece com a distribuição do PIB, os países “mais felizes” são também os que registam as menores desigualdades na distribuição da FIB:

Felicidade Interna Bruta na Europa
(média e desvio-padrão)

opiniao-ruibrites-fib-2

Fonte: European Social Survey, 2008

Portugal situa-se no quadrante dos países “menos felizes” e maior desigualdade na distribuição da FIB. Note-se que a nossa vizinha Espanha, com quem gostamos de nos comparar, se situa no quadrante oposto: “mais felizes” e “menos desiguais”. Aproveitem este período de férias e sejam felizes, busquem a vossa felicidade.

Publicada em 04-07-2015 | Diário as beiras – Opinião, pág. 15 (http://www.asbeiras.pt/Edicao_Diaria/diario.php?Link=4025bcff909b25651b6095f15f8c7150%2624567%26CLT0%26TMP10000909%2620150815)

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RESOLUÇÃO DO CONSELHO DE MINISTROS NA DESPEDIDA DA LEGISLATURA SERÁ DESTA?

Ago 18, 2015

Desde que foi criada a Associação Amigos da Grande Idade elegeu como principal objetivo a defesa dos direitos e da representação jurídica das pessoas idosas, como a principal questão do envelhecimento. Sempre entendemos que esta era uma profunda alteração estrutural necessária, na medida em que todos os cuidados, todos os serviços, todas as ofertas teriam que se readaptar, cumprindo maiores exigências e alterando o seu posicionamento em relação às pessoas idosas que necessitam de institucionalização. Andamos há anos a dizer que se fosse levada a sério, a representação jurídica das pessoas idosas, as respostas sociais existentes e os modelos de oferta que desenvolvem, estariam “às moscas”.

É o espezinhamento, o desprezo e a impunidade que marca grande parte das ofertas a pessoas idosas porque o estigma criado é que para pessoas idosas incapacitadas de decisão ou de funcionalidade, tudo serve e todas as atitudes, comportamentos e modelos de intervenção são tolerados.
Quem está neste momento em lares de idosos por vontade própria? Quem assinou algum documento, consciente e no exercício da sua autoridade, para estar num lar de idosos? Quantos?
Mas há mais atropelos: a famigerada lei do direito à herança que continua a permitir que um filho agressor se mantenha como herdeiro.

Também na avaliação dos graus de incapacidade existe um tremendo pantanal. Não estão definidas escalas com rigor científico, os processos levados a cabo são difíceis de perceber, os “internamentos compulsivos” em lares de idosos são permanentes e não sujeitos a qualquer crítica social ou moral.
Bom, este governo, o mesmo que retirou a palavra “legal”, determinando que o contrato com um lar pode ser assinado pelo “representante” e apenas “representante”, veio agora aprovar uma resolução em conselho de ministro que pode alterar tudo. Mas é apenas uma resolução e só na próxima legislatura é que será discutido e aprovado. Boa intenção, mesmo assim…

Uma resolução que prevê finalmente a obrigatoriedade de representação jurídica legalmente tratada para todas as pessoas incapacitadas de decidir por si próprias e de assegurar a decisão sobre a sua vida, seja essa incapacidade mental ou física. Prevemos que seja tido em conta os diversos graus de incapacidade e os limites de decisão do representante legalmente constituído. Se não for assim poderemos ficar na mesma ou ainda pior, que será ter uma lei que aparentemente defende a pessoa idosa e afinal só servirá para justificar a “vigarice legal” em que às vezes somos peritos.

São finalmente criminalizados os atos contra as pessoas idosas, sejam eles de abuso físico, psicológico, económico e social. Criminalizados. Não apenas condenáveis moralmente ou sujeitos a penalizações pouco significativas.
Fala-se mesmo na defesa das pessoas idosas em relação às instituições que trocam bens por cuidados, num negócio obscuro que todos conhecem mas que ninguém enfrenta. Instituições que afinal enriqueceram e sobreviveram não pelos elevados atos sociais que praticaram durante a sua existência mas pelos bens com que foram ficando, património de pessoas que “acolhem”.

Estas alterações envolvem vários ministérios e várias regulamentações, sendo necessário mexer no código civil e no código penal.

A associação Amigos da Grande Idade não mais deixará de seguir este processo. Vamos verificar para quando o agendamento da sua discussão e votação na Assembleia da Republica. Vamos imediatamente pedir posicionamentos aos diversos partidos que se apresentam às eleições de Outubro mas ai contamos com uma disponibilidade total, uma unanimidade completa. Sabemos contudo que tudo isso se esfuma, mal são conhecidos os resultados das eleições mas não iremos deixar de lembrar quem tem a responsabilidade de finalmente dar a primeira pedrada no charco do envelhecimento em Portugal.

Mas como não somos hipócritas nem receamos represálias temos que dizer com frontalidade que a legislatura que agora termina iniciou uma brutal revolução. Silenciosa, é certo, ainda pouco eficaz, mas as sementes estão lançadas e nunca mais esta área será como era há quatro anos atrás: a lei da economia social, as alterações legislativas nos diplomas que determinam a implementação e o funcionamento dos serviços destinados a pessoas idosas (nesta área as alterações foram muito ténues e ficaram muito além do desejável) e agora esta resolução que abre uma porta de esperança para o futuro, mudaram radicalmente o panorama. É agora fundamental aprofundar estas alterações, levá-las a sério e fazer cumprir a legislação. Falta ainda mexer no posicionamento da segurança social e abrir a área a outros modelos de intervenção que tenham em conta que a funcionalidade com vista à felicidade é um dos grandes objetivos dos próximos tempos.

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REVOLUÇÃO! ENORME PASSO PARA A DEFESA DE UM ENVELHECIMENTO MAIS DIGNO EM PORTUGAL!

Ago 18, 2015

A Estratégia Para o Idoso, que prevê a repressão de todas as formas de violência, abuso, exploração ou discriminação e a criminalização do abandono de idosos, foi hoje aprovada em Conselho de Ministros.

Na resolução estão previstas medidas de proteção jurídica às pessoas idosas e em situação de incapacidade, não permitindo que terceiros se aproveitem desta condição.

Entre essas medidas estão o alargamento da indignidade sucessória, não permitindo que nos casos em que o herdeiro pratique algum crime de violência doméstica ou maus tratos, venha a receber a herança do idoso que maltratou.

A estratégia prevê ainda a criminalização de negócios jurídicos feitos em nome do idoso sem o seu pleno conhecimento, indica o Ministério da Justiça em comunicado.

Também devem ser criminalizados os “comportamentos que atentem contra os direitos fundamentais dos idosos”, como negar o acolhimento ou a permanência destes em instituições públicas por recusarem assinar uma procuração para “fins de administração ou disposição dos seus bens ou em efetuar disposição patrimonial a favor da instituição”.

Abandonar idosos em hospitais ou outros estabelecimentos de prestação de cuidados de saúde e impedir ou dificultar o seu acesso à aquisição de bens ou à prestação de serviços devido à idade são outros comportamentos que devem ser criminalizados.

A resolução prevê também a repressão de todas as formas de violência, abuso, exploração ou discriminação, tanto do ponto de vista físico como psicológico.

Defende ainda a constituição como circunstância agravante os crimes de injúria e difamação e do crime de burla que forem dirigidos aos idosos.

O documento observa o crescimento substancial da população idosa em Portugal, que passou de 708.569 idosos em 1960 para 2.010.064 em 2011, e o aumento da esperança de vida aos 65 ou mais anos que era de 13,5 anos em 1970, tendo evoluído para 19,1 anos em 2013.

“A idade avançada tem especificidades, designadamente no plano dos cuidados de saúde, do apoio social e do enquadramento familiar, bem como da tutela jurídica, que devem ser devidamente regulados, em ordem a garantir em todas as fases da vida o respeito pela dignidade da pessoa humana”, defende o Governo.

“Na verdade, os cidadãos idosos estão amiúde expostos a práticas que atentam contra os seus direitos mais elementares, cuja defesa importa assegurar”, sustenta.

A Resolução do Conselho de Ministros defende que a saúde física e mental dos idosos deve ser “objeto de atenção cuidada”, considerando essencial assegurar a manutenção da qualidade de vida dos idosos, especialmente na preservação da sua autonomia.

“Em paralelo, deve garantir-se adequada e proporcional proteção jurídica dos idosos, nos casos em que estes se encontrem em situação de incapacidade, em resultado de limitações congénitas ou adquiridas, e independentemente da sua causa”, acrescenta.

Na Resolução são traçadas as linhas gerais da revisão do Código Civil em matéria de incapacidades, bem como do Código Penal, com vista ao reforço da proteção dos direitos dos idosos.

Estratégia só pode ser aprovada na próxima legislatura

O ministro da Presidência disse hoje que a Estratégia de Proteção ao Idoso só poderá ser aprovada na próxima legislatura, uma vez que exige alterações ao Código Penal, matéria da responsabilidade da Assembleia da República.

“As alterações ao Código Penal são matérias da responsabilidade da Assembleia da República, portanto, a estratégia hoje aprovada elenca todas as medidas trabalhadas com os parceiros deste setor, mas que, agora, terá de ser concretizada, mas na nova AR, após eleições”, disse aos jornalistas Luís Marques Guedes, na conferência de imprensa realizada no final do Conselho de Ministros.

A Estratégia de Proteção Idoso, que prevê a repressão de todas as formas de violência, abuso, exploração ou discriminação e a criminalização do abandono de idosos, foi hoje aprovada em Conselho de Ministros.

O ministro da Presidência, Marques Guedes, adiantou que o Governo decidiu aprovar, sob a forma de resolução, o documento para que o trabalho feito pelo Ministério da Justiça com várias entidades “não ficasse perdido”.

“Toda a documentação está pronta e o novo parlamento, assim que iniciar funções, desde que haja vontade política da maioria que sair das eleições, estará em condições de imediatamente discutir e, querendo, aprovar esta legislação”, sublinhou.

O ministro justificou ainda a não aprovação da legislação com o facto de o parlamento já ter encerrado os seus trabalhos.
“Se o parlamento está fechado, já não há hipótese de a aprovar. O trabalho está concluído para [a estratégia] ser tomada, assim o novo Governo que saia das eleições tenha exatamente as mesmas intenções de criminalizar este tipo de comportamento”, sustentou.

(14/08/2015)NOTICIA PUBLICADA EM http://economico.sapo.pt/noticias/aprovada-criminalizacao-do-abandono-ou-exploracao-de-idosos_226233.html

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Religião e Felicidade

Jul 22, 2015

“Quando pratico o bem, sinto-me bem; quando pratico o mal, sinto-me mal. Eis a minha religião.”

Abraham Lincoln

Para o sofista Protágoras, “dos deuses não posso saber nem se são e nem se não são. Muitos obstáculos se apresentam, a obscuridade do assunto e a brevidade da vida”. Apesar disso, a religião está presente na humanidade desde o princípio dos tempos. “Ópio do povo” para uns – devido ao seu efeito “narcotizante” – crença redentora e fé inquestionável para outros, é invocada constantemente para dar consistência a actos e comportamentos muita vezes “pouco religiosos”. Daí que Sartre tenha afirmado que se Deus criou o homem, ao dotá-lo de livre arbítrio eximiu-se à culpa dos seus actos. Ou seja, o que o homem faz ou não faz é fruto do seu livre arbítrio. Deus não tem culpa do que ele faz em seu nome. Nesta acepção, será que a religiosidade tem implicações na felicidade?

Na confiança parece ter, pois a religiosidade elevada em Portugal, como nos outros países do sul e em alguns pós-comunistas, como a Polónia, países também de baixos níveis de confiança social, não se encontra positivamente correlacionada com os níveis de confiança e de capital social. Fukuyama sustenta mesmo que, a haver alguma relação entre religião e confiança, ela deverá ser negativa e não positiva, tal como se conclui também a partir dos resultados do Inquérito Social Europeu em que nos baseamos para estas crónicas. Segundo o autor: “a religião tem aparentemente efeitos contraditórios na confiança; os fundamentalistas e as pessoas que vão à igreja tendem a ser mais desconfiados do que a média geral”(2) .

As religiões sabe-se, especialmente depois de Durkheim ter escrito “As Formas Elementares da Vida Religiosa”, sempre constituíram um poderoso cimento social. Como mostram muitos estudos, muitas vezes baseados em amostras nacionais, a religião tem uma correlação positiva, embora fraca, com o bem-estar subjectivo. É importante saber, no entanto, o que se entende por religião, nesses estudos. Uns centram-se na crença religiosa, outros na prática, outros ainda, no apoio social concedido por confissões religiosas, seitas, etc., com níveis de correlação diversos, sugerindo-se que os benefícios da religião são principalmente cognitivos, ao proporcionarem um quadro interpretativo pelo qual se pode dar sentido às experiências de vida dos indivíduos. Mas é um facto comprovado em diversos estudos, que a religiosidade se correlaciona mais com o bem-estar subjectivo em sociedades religiosas, o que aponta para o efeito de “cimento social”. No entanto, também se tem encontrado evidência empírica na observação de efeitos negativos da religião no bem-estar subjectivo, devido ao sentimento de “culpa” que é apanágio de algumas religiões. No caso da religião católica, a expiação do “pecado original” é disso exemplo.

Com base nos dados disponibilizados pelo Inquérito Social Europeu, é possível construir um “índice de religiosidade” com base nos seguintes indicadores: “pertença a uma religião”, “sentimento religioso” “participação no culto” e “frequência de oração/meditação”. A figura seguinte mostra a relação entre este índice e a felicidade:

8religiaoefelicidade

Os resultados são, no mínimo, curiosos: os países mais felizes são, na maior parte, os menos religiosos. Portugal situa-se no quadrante dos mais religiosos e menos felizes, acompanhado da Itália, Grécia e maior parte dos países pós-comunistas. Portugal não gosta de se comparar com a Espanha e não com a Grécia mas, no que se refer à Felicidade e Religiosidade, os dados não mentem. Os nossos vizinhos incluem-se no quadrante dos mais felizes e menos religiosos. Sejam felizes, busquem a vossa felicidade.

Publicada em 04-07-2015 | Diário as beiras – Opinião, pág 24

http://www.asbeiras.pt/Edicao_Diaria/diario.php?Link=de5226da4d16185ef618de5c40ef3dfa%2624567%26CLT0%26TMP1000090 9%2620150704

Autor: Rui Brites – Sociólogo e professor universitário (rui.brites@outlook.com)

(2) Fukuyama, cit. por Teixeira Fernandes.

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A HISTÓRIA

Jun 23, 2015

Em 2009, reunindo um grupo de pessoas diretamente ligadas ao trabalho que estava a ser desenvolvido num Lar de Idosos, foi constituída a Associação Amigos da Grande Idade – Inovação e Desenvolvimento.

Estávamos, quase todos, num período de deslumbramento, tal era o êxito que algumas iniciativas desenvolvidas no interior de um lar de idosos tinham atingido, projetando-nos para um nível de inovação e qualidade que na altura era completamente desconhecido e mesmo estranho. Todas as iniciativas tinham um pilar principal: determinar indicadores para avaliação do trabalho que se realizava.

Avaliaram-se o número de quedas, o número de ulceras de pressão, o número de recursos à urgência hospitalar, o número de dias de internamento em Hospitais e os custos e as receitas do Lar de idosos. Compararam-se esses números que eram o resultado da intervenção em dois anos feita num Lar com os resultados que existiam dos últimos dez anos de atividade desse Lar.

Concluiu-se de imediato que os resultados eram completamente surpreendentes.

Diminuíram-se em mais de 70% o número de ulceras de pressão, em cerca de 50% o número de quedas, em praticamente 90% o número de recursos às urgências hospitalares e dos dias de internamento em Hospital. Mais que isso: aumentaram as receitas com introdução de novas ofertas e diminuíram significativamente os custos, mesmo sem autonomia funcional nas decisões mais importantes, no planeamento e na estratégia da organização.

Todo o processo está devidamente documentado e talvez neste local de opinião possa vir a ser descrito mas será, como se entende, muito demorado pelo pormenor que encerra cada uma das intervenções em cada um dos indicadores. Mas, no fundo, o Curso de Gestão Organizacional de Lares de Idosos e Casas de Repouso, que a Associação passou a desenvolver, descreve, na maior parte dos casos, os processos introduzidos.

O resultado desta intervenção projetou-nos, primeiro para os fóruns destinados à saúde, na medida em que inicialmente atribuímos este êxito à gestão feita num lar centrada no Enfermeiro. Isso fez-nos vencer vários concursos de pósteres em vários congressos nacionais. Em segundo projetou-nos para a investigação, tendo sido apadrinhados pela Escola Nacional de Saúde Publica e pelo ISCTE de uma forma informal, é certo, mas com toda a relevância que foi atribuída a esse acontecimento. Em terceiro abriu-nos a porta do envelhecimento, demonstrando que é possível transformar os lares de idosos, envelhecer melhor e conseguir oferecer o cuidado mais essencial e o serviço mais fundamental: contribuir para a felicidade das pessoas idosas.

Rapidamente todo este trabalho teve repercussões e replicou-se em vários projetos: numa tese de mestrado que, pela primeira vez em Portugal, determinava os indicadores para avaliar a qualidade do desempenho do enfermeiro em lares de idosos, num projeto aprovado e publicado no Banco Europeu de Inovação em Saúde, na constituição da Associação Amigos da Grande Idade e na promoção do Curso de Gestão Organizacional de Lares de Casas de Repouso que ainda hoje se desenvolve e já formou mais de 1000 pessoas.

A Associação Amigos da Grande Idade veio a ultrapassar todas as expectativas. Quando nasceu teve dois princípios fundamentais: não ser IPSS por não aceitar as obrigações decorrentes desse enquadramento que obrigam a estatutos feitos por corporações com interesses duvidosos e que pretendem apenas viver á custa dos dinheiros públicos e do financiamento descontrolado e muitas vezes escandaloso e desconstruir o discurso dos pobrezinhos, dos carenciados, fugindo à batalha que é a caça aos mais necessitados. A Associação impôs-se como uma entidade com um discurso diferente, revolucionário, visionário e provocador, colocando tudo em questão mesmo que isso colocasse a própria Associação em dificuldades de desenvolvimento.

Partimos do princípio que viver mais anos é uma conquista da humanidade e não deve ser causa de indignidade e razão para justificar distribuidores de peixe que se recusam a fornecer canas de pesca.

Com este discurso e com a convicção de quem pode mudar tudo ou pelo menos contribuir para a mudança conseguimos marcar presença relevante na construção de um envelhecimento mais realizado, mais funcional e mais feliz. Tivemos a oportunidade de atingir alguns fóruns de discussão das questões referentes ao envelhecimento. Chegámos às principais personalidades que discutem estas questões encontrando muita motivação mas também muita resignação e muita confusão. Percebemos cedo que tudo estava para discutir e que tudo necessitava de ser colocado em causa.

Construímos sozinhos, sem qualquer apoio formal ou institucional um dos principais portais de divulgação de opinião, de influência, de estudo e conhecimento. Lançamos uma revista científica sem paranoias próprias do conhecimento superior e inquestionável dando oportunidade a todos, mesmo aos textos mais humildes e simples de chegarem à luz do dia. Uma revista hoje consultada por cerca de 400 pessoas diariamente. Mantivemos uma intensa atividade de formação com o grande êxito do Curso de Gestão Organizacional de Lares de Idosos falando numa linguagem prática assente no conhecimento e na evidencia cientifica mas relacionada sempre com aquilo que necessitam que façamos no terreno, no trabalho diário dentro e fora das instituições. Promovemos formação superior através de Pós Graduações que coordenamos operacionalmente e cientificamente em parceria com entidades de ensino superior. Organizámos dois dos maiores congressos feitos em Portugal sobre envelhecimento com personalidades de todos os quadrantes científicos, políticos, económicos colocando a refletir muitas das vozes nacionais mais conhecidas sobre aquilo que é hoje considerada a maior revolução demográfica da história. Pelo meio participamos em centenas de eventos levando e defendendo sempre a nossa independente opinião, promovemos dezenas de outros eventos no modelo de workshops, jornadas científicas, seminários e reuniões de trabalho. Visitámos periodicamente a Assembleia da Republica encontrando interlocutores em todas as forças politicas ali representadas, editámos muitas centenas de textos, dois livros e participámos noutros tantos de outros autores. Chegámos à Assembleia da República, apresentando formalmente as Recomendações para a Longevidade com a participação da Comissão Social, da Presidência da Assembleia e de todas as forças politicas ali representadas.

Sem querer o trabalho que se iniciou em 2003 num Lar de Idosos lançou esta associação que agora abre também esta oportunidade de todos darem a sua opinião e a verem publicada num portal com mais de 600 visitas diárias em Portugal e no Estrangeiro.

Mas acima de tudo e algo que nunca esquecemos e nunca deixámos de colocar em primeiro lugar, estamos orgulhosos de todo este trabalho que se iniciou com a intervenção num Lar de idosos que hoje marca a diferença e se distingue no país, contribuiu de forma exemplar para que os residentes, trabalhadores e colaboradores desse lar sejam mais felizes, mais realizados e mais convictos de que podemos viver mais anos e melhor durante esses anos. Porque para além de todo o trabalho que possamos realizar em entidades, instituições, academias, institutos, universidades e noutros locais devemos sempre desejar que isso se reflita na qualidade de vida das pessoas idosas que são a nossa base de reflexão e a justificação para os serviços, ofertas e cuidados que promovemos.

Este texto inaugura o meu humilde espaço de opinião no portal da Associação Amigos da Grande Idade.

 

Rui Fontes (rmsfontes@sapo.pt)

Coordenador de Lar de Idosos

Presidente da Associação Amigos da Grande Idade

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Felicidade e Cidadania

Jun 11, 2015

“Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa – salvar a humanidade”

Almada Negreiros

O conceito de cidadania, que remonta à polis grega, remete tanto para a normatividade como para a participação política e social. Associado aos debates sobre a emergência acentuada do individualismo nas sociedades democráticas, assume particular importância perceber quais os valores de cidadania a que os cidadãos dão predominância. Nos dados recolhidos pelo Inquérito Social Europeu2 , sobre o que é que os europeus consideram ser importante para se ser um bom cidadão, os portugueses consideraram muito importante, por esta ordem:

1º “Ter opinião própria independentemente da opinião dos outros” (85,2%);
2º “Ajudar os que estão em pior situação” (85,1%)
3º “Obedecer a todas as leis e regulamentos” (70,9%);
4º “Votar sempre nas eleições” (64,5%);
5º “Trabalhar em organizações de voluntariado“ (53,2%);
6º “Ser uma pessoa politicamente activa” (38,1%).

O padrão de resposta aos seis indicadores é idêntico em todos os países e o Índice sintético de cidadania, que agrega a resposta conjunta aos seis indicadores, coloca Portugal entre os países europeus com pontuações mais elevadas, registando a Espanha, a Bélgica e a República Checa, as mais baixas.

Entre nós, é na região Centro que se regista o valor mais elevado e no Algarve, o mais baixo. Os mais velhos, homens e mulheres, com mais de 50 anos são, também, os que apresentam valores mais elevados do índice de cidadania.

Portugal está entre os países europeus que mais concordam que os “cidadãos deviam ocupar pelo menos algum do seu tempo livre a ajudar os outros” (86,4%)3 . Não obstante, os portugueses são os que mais dizem que “não ajudaram ninguém nos últimos seis meses” (61,5%)4 . Ou seja, invocando o célebre aforismo: “bem prega Frei Tomás: faz o que eu digo, não faças o que eu faço!”. É em Lisboa e Vale do Tejo que a colaboração com organizações de voluntariado e de caridade é mais elevada, no entanto, quando se trata de ajudar activamente alguém, são os algarvios que mais dizem que o fazem regularmente (31,7%).

É interessante verificar a relação entre a importância atribuída aos valores de cidadania e a felicidade:

Importância dada à Cidadania e Felicidade na Europa

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Como evidencia a figura, Portugal situa-se no quadrante “+Cidadania e – Felicidade”, acompanhado pela Itália, Grécia e Polónia. No quadrante dos países “mais felizes” e que dão mais “importância à cidadania”, encontram-se os países escandinavos e o Luxemburgo. Como vimos nas crónicas anteriores, os países escandinavos, para além de registarem os valores mais elevados de felicidade, são também mais confiantes e mais optimistas. Sejam felizes, busquem a vossa felicidade.

Publicada em 01-06-2015 | Diário as beiras – Opinião, pág 25

http://www.asbeiras.pt/2015/06/opiniao-felicidade-e-cidadania/

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Direção da Associação Amigos da Grande Idade reúne com partido Comunista Português

Jun 11, 2015

Direção da Associação Amigos da Grande Idade reúne com partido Comunista Português para discutir propostas políticas para área social, na habitual ronda pelos partidos políticos representados na Assembleia da Republica.

A Direção da associação Amigos da Grande Idade, representada pelo Presidente e Vice-Presidente, iniciaram a ronda de reuniões pelos diversos partidos políticos que se vão apresentar às próximas eleições, tentando perceber as propostas políticas de cada um deles para a área social. Há 6 anos fizemos este trabalho, apresentando um relatório sobre a nossa perceção em relação às propostas políticas dos principais partidos políticos para as áreas da saúde e social. Esse relatório serviu de base de trabalho para alguns cursos de licenciatura, mestrado e doutoramento em algumas entidades académicas nacionais, o que muito nos orgulha.

Agora vamos fazer esta ronda de reuniões, sujeitando-nos à simpatia e disponibilidade das Direções nacionais dos Partidos que nem sempre facilitam este acesso.

Começamos pelo partido Comunista tendo sido gentilmente recebidos na sua sede nacional e tivemos a oportunidade de perceber as preocupações deste partido em relação á área social, centralizando-se essencialmente na incapacidade do Estado responmd4r ás necessidades dos mais necessitados e às condições de pobreza das pessoas mais velhas.

O Partido Comunista Português entende que os cuidados e serviços às pessoas idosas são uma obrigação exclusivamente do Estado que deve dar prioridade às questões sociais em detrimento de preocupações ou objetivos financeiros impostos por terceiros.

Ficou claro a posição do partido Comunista Português que exige um maior investimento na área social e que refere que as maiores dificuldades das pessoas idosas tem a ver com a sua incapacidade financeira por falta de investimento nestas pessoas e nesta área.

O partido comunista mostra-se preocupado também com a falta de estrutura representativa das pessoas idosas que não existe como parceiro social e apresenta-se contra a delegação das funções do Estado noutras entidades, sendo apenas um financiador sem garantir mecanismos de fiscalização.

O Partido Comunista Português fez-se representar por Fernanda Cardoso Mateus e Jorge Figueiredo Silva.

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