“Quando pratico o bem, sinto-me bem; quando pratico o mal, sinto-me mal. Eis a minha religião.”

Abraham Lincoln

Para o sofista Protágoras, “dos deuses não posso saber nem se são e nem se não são. Muitos obstáculos se apresentam, a obscuridade do assunto e a brevidade da vida”. Apesar disso, a religião está presente na humanidade desde o princípio dos tempos. “Ópio do povo” para uns – devido ao seu efeito “narcotizante” – crença redentora e fé inquestionável para outros, é invocada constantemente para dar consistência a actos e comportamentos muita vezes “pouco religiosos”. Daí que Sartre tenha afirmado que se Deus criou o homem, ao dotá-lo de livre arbítrio eximiu-se à culpa dos seus actos. Ou seja, o que o homem faz ou não faz é fruto do seu livre arbítrio. Deus não tem culpa do que ele faz em seu nome. Nesta acepção, será que a religiosidade tem implicações na felicidade?

Na confiança parece ter, pois a religiosidade elevada em Portugal, como nos outros países do sul e em alguns pós-comunistas, como a Polónia, países também de baixos níveis de confiança social, não se encontra positivamente correlacionada com os níveis de confiança e de capital social. Fukuyama sustenta mesmo que, a haver alguma relação entre religião e confiança, ela deverá ser negativa e não positiva, tal como se conclui também a partir dos resultados do Inquérito Social Europeu em que nos baseamos para estas crónicas. Segundo o autor: “a religião tem aparentemente efeitos contraditórios na confiança; os fundamentalistas e as pessoas que vão à igreja tendem a ser mais desconfiados do que a média geral”(2) .

As religiões sabe-se, especialmente depois de Durkheim ter escrito “As Formas Elementares da Vida Religiosa”, sempre constituíram um poderoso cimento social. Como mostram muitos estudos, muitas vezes baseados em amostras nacionais, a religião tem uma correlação positiva, embora fraca, com o bem-estar subjectivo. É importante saber, no entanto, o que se entende por religião, nesses estudos. Uns centram-se na crença religiosa, outros na prática, outros ainda, no apoio social concedido por confissões religiosas, seitas, etc., com níveis de correlação diversos, sugerindo-se que os benefícios da religião são principalmente cognitivos, ao proporcionarem um quadro interpretativo pelo qual se pode dar sentido às experiências de vida dos indivíduos. Mas é um facto comprovado em diversos estudos, que a religiosidade se correlaciona mais com o bem-estar subjectivo em sociedades religiosas, o que aponta para o efeito de “cimento social”. No entanto, também se tem encontrado evidência empírica na observação de efeitos negativos da religião no bem-estar subjectivo, devido ao sentimento de “culpa” que é apanágio de algumas religiões. No caso da religião católica, a expiação do “pecado original” é disso exemplo.

Com base nos dados disponibilizados pelo Inquérito Social Europeu, é possível construir um “índice de religiosidade” com base nos seguintes indicadores: “pertença a uma religião”, “sentimento religioso” “participação no culto” e “frequência de oração/meditação”. A figura seguinte mostra a relação entre este índice e a felicidade:

8religiaoefelicidade

Os resultados são, no mínimo, curiosos: os países mais felizes são, na maior parte, os menos religiosos. Portugal situa-se no quadrante dos mais religiosos e menos felizes, acompanhado da Itália, Grécia e maior parte dos países pós-comunistas. Portugal não gosta de se comparar com a Espanha e não com a Grécia mas, no que se refer à Felicidade e Religiosidade, os dados não mentem. Os nossos vizinhos incluem-se no quadrante dos mais felizes e menos religiosos. Sejam felizes, busquem a vossa felicidade.

Publicada em 04-07-2015 | Diário as beiras – Opinião, pág 24

http://www.asbeiras.pt/Edicao_Diaria/diario.php?Link=de5226da4d16185ef618de5c40ef3dfa%2624567%26CLT0%26TMP1000090 9%2620150704

Autor: Rui Brites – Sociólogo e professor universitário (rui.brites@outlook.com)

(2) Fukuyama, cit. por Teixeira Fernandes.