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Felicidade e Cidadania

Jun 11, 2015

“Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa – salvar a humanidade”

Almada Negreiros

O conceito de cidadania, que remonta à polis grega, remete tanto para a normatividade como para a participação política e social. Associado aos debates sobre a emergência acentuada do individualismo nas sociedades democráticas, assume particular importância perceber quais os valores de cidadania a que os cidadãos dão predominância. Nos dados recolhidos pelo Inquérito Social Europeu2 , sobre o que é que os europeus consideram ser importante para se ser um bom cidadão, os portugueses consideraram muito importante, por esta ordem:

1º “Ter opinião própria independentemente da opinião dos outros” (85,2%);
2º “Ajudar os que estão em pior situação” (85,1%)
3º “Obedecer a todas as leis e regulamentos” (70,9%);
4º “Votar sempre nas eleições” (64,5%);
5º “Trabalhar em organizações de voluntariado“ (53,2%);
6º “Ser uma pessoa politicamente activa” (38,1%).

O padrão de resposta aos seis indicadores é idêntico em todos os países e o Índice sintético de cidadania, que agrega a resposta conjunta aos seis indicadores, coloca Portugal entre os países europeus com pontuações mais elevadas, registando a Espanha, a Bélgica e a República Checa, as mais baixas.

Entre nós, é na região Centro que se regista o valor mais elevado e no Algarve, o mais baixo. Os mais velhos, homens e mulheres, com mais de 50 anos são, também, os que apresentam valores mais elevados do índice de cidadania.

Portugal está entre os países europeus que mais concordam que os “cidadãos deviam ocupar pelo menos algum do seu tempo livre a ajudar os outros” (86,4%)3 . Não obstante, os portugueses são os que mais dizem que “não ajudaram ninguém nos últimos seis meses” (61,5%)4 . Ou seja, invocando o célebre aforismo: “bem prega Frei Tomás: faz o que eu digo, não faças o que eu faço!”. É em Lisboa e Vale do Tejo que a colaboração com organizações de voluntariado e de caridade é mais elevada, no entanto, quando se trata de ajudar activamente alguém, são os algarvios que mais dizem que o fazem regularmente (31,7%).

É interessante verificar a relação entre a importância atribuída aos valores de cidadania e a felicidade:

Importância dada à Cidadania e Felicidade na Europa

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Como evidencia a figura, Portugal situa-se no quadrante “+Cidadania e – Felicidade”, acompanhado pela Itália, Grécia e Polónia. No quadrante dos países “mais felizes” e que dão mais “importância à cidadania”, encontram-se os países escandinavos e o Luxemburgo. Como vimos nas crónicas anteriores, os países escandinavos, para além de registarem os valores mais elevados de felicidade, são também mais confiantes e mais optimistas. Sejam felizes, busquem a vossa felicidade.

Publicada em 01-06-2015 | Diário as beiras – Opinião, pág 25

http://www.asbeiras.pt/2015/06/opiniao-felicidade-e-cidadania/

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Direção da Associação Amigos da Grande Idade reúne com partido Comunista Português

Jun 11, 2015

Direção da Associação Amigos da Grande Idade reúne com partido Comunista Português para discutir propostas políticas para área social, na habitual ronda pelos partidos políticos representados na Assembleia da Republica.

A Direção da associação Amigos da Grande Idade, representada pelo Presidente e Vice-Presidente, iniciaram a ronda de reuniões pelos diversos partidos políticos que se vão apresentar às próximas eleições, tentando perceber as propostas políticas de cada um deles para a área social. Há 6 anos fizemos este trabalho, apresentando um relatório sobre a nossa perceção em relação às propostas políticas dos principais partidos políticos para as áreas da saúde e social. Esse relatório serviu de base de trabalho para alguns cursos de licenciatura, mestrado e doutoramento em algumas entidades académicas nacionais, o que muito nos orgulha.

Agora vamos fazer esta ronda de reuniões, sujeitando-nos à simpatia e disponibilidade das Direções nacionais dos Partidos que nem sempre facilitam este acesso.

Começamos pelo partido Comunista tendo sido gentilmente recebidos na sua sede nacional e tivemos a oportunidade de perceber as preocupações deste partido em relação á área social, centralizando-se essencialmente na incapacidade do Estado responmd4r ás necessidades dos mais necessitados e às condições de pobreza das pessoas mais velhas.

O Partido Comunista Português entende que os cuidados e serviços às pessoas idosas são uma obrigação exclusivamente do Estado que deve dar prioridade às questões sociais em detrimento de preocupações ou objetivos financeiros impostos por terceiros.

Ficou claro a posição do partido Comunista Português que exige um maior investimento na área social e que refere que as maiores dificuldades das pessoas idosas tem a ver com a sua incapacidade financeira por falta de investimento nestas pessoas e nesta área.

O partido comunista mostra-se preocupado também com a falta de estrutura representativa das pessoas idosas que não existe como parceiro social e apresenta-se contra a delegação das funções do Estado noutras entidades, sendo apenas um financiador sem garantir mecanismos de fiscalização.

O Partido Comunista Português fez-se representar por Fernanda Cardoso Mateus e Jorge Figueiredo Silva.

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A Opinião dos Portugueses

Mai 18, 2015
  • 2002 – 2012: Base de dados acumulada que regista os dados recolhidos nas edições de 2002, 2004, 2006, 2008, 2010 e 2012*
  • 2006: Flourishing Across Europe**
    • optimismo na Europa e em Portugal, sem sombra da crise económica que se avizinhava
    • Taxa de desemprego= 7,7%; desemprego médio de 2002 a 2010=7,7%
    • Taxa de crescimento=1,27; crescimento médio de 2002 a 2010=0,33%
    • 1º governo de Sócrates, com maioria absoluta (2005) na sequência da dissolução da AR
  • 2012: Crise económica profunda
    • Taxa de desemprego em 2012=15,7%; desemprego médio de 2009 a 2012= 12,1%
    • Taxa de crescimento em 2002=-2,84; crescimento médio de 2009 a 2012= -1,27
    • Portugal sob tutela da Troika
    • Governo de Passos Coelho/Paulo Portas (desde 2011)

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A mesa resplandecia; e as tapeçarias, representando massas de arvoredos, punham em redor como a sombra escura de um retiro silvestre onde, por um capricho, se tivessem acendido candelabros de prata. Os vinhos saíam da frasqueira preciosa da Ramalhete. De todas as coisas da Terra e do Céu se grulhava com fantasia – menos de «política portuguesa», considerada conversa indecorosa entre pessoas de gosto”

Eça de Queiroz (Os Maias)

O interesse pela política é um indicados que funciona como barómetro da preocupação dos cidadãos pela “coisa pública”. À resposta “De um modo geral, qual o seu interesse pela política?”, colocada pelo European Social Survey, os reuropeus responderam da seguinte forma:

img15Como se pode observar, entre os 30 países analisados, os portugueses são os que mais afirmam que não se interessam pela política (39%) contra os 19% do total. O ditado popular “a minha política é o trabalho”, parece ter uma ancoragem forte em Portugal, onde aliás, uma expressão equivalente, ganhou um inusitado mediatismo quando o Primeiro-ministro na altura – Cavaco Silva –, solicitado a pronunciar-se sobre a Política nacional, então relativamente “turbulenta”, terá respondido: “deixem-me trabalhar”, entendido pela opinião pública “publicada” como querendo dizer, precisamente, que a sua política era o trabalho. A posição relativa de Portugal no contexto europeu deve ser um motivo de preocupação e de chamada de atenção para o poder político, pois se juntarmos a estes resultados a confiança nas instituições políticas, vemos que Portugal também se destaca por ser um dos países com as taxas mais elevadas de desconfiança. Confiam apenas moderadamente na Polícia (5,2) e desconfiam da Assembleia da República (3,4) e da Justiça (3,8). Os Políticos (2,2) e os Partidos políticos (2,1) merecem níveis de desconfiança bastante elevados. Estes valores contrastam, claramente, com os níveis de confiança institucional dos cidadãos dos países escandinavos, mais confiantes mas também, como vimos na figura anterior, mais interessados pela política:

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Ou seja, a confiança institucional é tributária do interesse pela política e vice-versa, como podemos ver melhor na figura seguinte que cruza o índice de confiança nas instituições políticas, que agrega a resposta conjunta às cinco instituições com o interesse pela política:

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Em conclusão, os portugueses não se interessam pela política mas, quando abrem a janela e as “políticas” lhe entram pela casa adentro, queixam-se dos políticos que elegeram mas em que não confiam. Outra coisa não seria de esperar de um povo que sabe muito mais de futebol do que dos seus direitos, manifestando-se mais perante um “erro do árbitro” do que do atropelo de direitos cívico-políticos. Como muito bem observou Eça de Queiroz há mais de 100 anos.

Fonte: European Social Survey http://www.europeansocialsurvey.org/

* Os dados de 2014 deverão estar disponíveis até ao fim de 2015.

** Flourishing Across Europe: Application of a New Conceptual Framework for Defining Well-Being: http://www.researchgate.net/publication/234162178_Flourishing_Across_Europe_Application_of_a_New_Conceptual_Framework_for_Defining_Well-Being

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Felicidade e Optimismo

Mai 18, 2015

“[cada um vive] para a satisfação imediata, mas, ao mesmo tempo, vive para uma sociedade hedonista pura. As pessoas querem essa satisfação, mas, ao mesmo tempo, vivem extremamente inquietas quanto ao futuro, com medo do desemprego. Porque a globalização fomenta estes medos. As pessoas estão preocupadas com as suas reformas”.

Giles Lipovetsky2

Num estudo muito citado publicado no Psychological Bulletin em 1967, Warner Wilson concluíu que as pessoas mais optimistas, entendendo-se o optimismo como tendência generalizada para esperar resultados favoráveis, são as que mais facilmente estabelecem metas que actuam como normas ou aspirações, cujo grau de consecução influencia o bem-estar subjectivo. Como disse Churchill: “o pessimista vê dificuldade em cada oportunidade; o optimista vê oportunidade em cada dificuldade”.

A busca da felicidade é um objectivo optimista que coloca nos ombros dos indivíduos a responsabilidade de serem felizes. O papel da “divina providência” nesse empreendimento, invocado pelos crentes, parece ser diminuto, pois a religião, tem um impacto diminuto nesse desígnio, dando razão a Sartre quando afirmava, e cito de memória, que Deus criou o homem mas, ao dotá-lo de livre-arbítrio, eximiu-se à responsabilidade pelo seu destino. A busca da felicidade é um projecto de vida e a vida, como disse John Lennon, “é aquilo que acontece enquanto fazemos planos para o futuro”.

Nesta perspectiva, será que há relação entre a felicidade e o optimismo? Serão os países com níveis de felicidade mais elevados também mais optimistas ou vice-versa? Na figura seguinte, que mostra essa relação, podemos observar que a correlação é positiva – quanto mais optimista, mais feliz – e que Portugal se situa no quadrante dos menos felizes e menos optimistas. Note-se o caso particular da Ucrânia que regista níveis de felicidade inferiores à média e de optimismo superiores. Os desenvolvimentos posteriores a 2012, certamente, já terão alterado esta relação.

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A tendência é para que os países “mais felizes”, com a Escandinávia em destaque, sejam, também, mais optimistas relativamente ao futuro. Tal como na confiança, que vimos em crónica anterior, Portugal regista valores de que não nos podemos orgulhar. Será um atavismo dos portugueses ou é uma situação meramente conjuntural? O “mal” parece antigo, a fazer fé neste excerto de Pátria, escrito por Guerra Junqueiro há mais de 100 anos (1896): “um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo […] um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai […] Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter”.

Apesar disso, sejamos optimistas pois, como disse Fernando Pessoa através de Bernardo Soares, “Agir, eis a inteligência verdadeira. Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for”. É urgente “torcer o destino”, como canta Sérgio Godinho. Sejam felizes, busquem a vossa felicidade.

Publicada em 08-05-2015 | Diário as beiras – Opinião, pág 16

http://www.asbeiras.pt/Edicao_Diaria/diario.php?Link=9608bc9db0aa1ccf316a82194ab4b504%2624567%26CLT0%26TMP10000909%2620150508

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Felicidade e Escolaridade: estudar compensa

Abr 21, 2015

“Se a educação sozinha não pode transformar a sociedade, tampouco sem ela a sociedade muda.”

Paulo Freire

Embora a escolaridade não seja sinónimo de educação, uma e outra estão estreitamente ligadas, como se sabe. Mais escolaridade pressupõe mais informação e, por conseguinte, mais exigência, quer nos objectivos pessoais, quer na vida em sociedade. Dito de outra forma, as pessoas mais informadas têm maior consciência dos seus limites, sabem mais que nada sabem, parafraseando a frase célebre atribuída a Sócrates, para quem a ignorância era a fronteira do saber e, por conseguinte, quanto maior o saber, maior a ignorância. Nesta perspectiva, a correlação entre a felicidade e a escolaridade deveria apresentar-se como negativa. Mas não é isso que acontece, como mostra a figura seguinte, que correlaciona a felicidade e a escolaridade:

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A correlação é positiva e, embora seja estatisticamente significativa, é baixa. Tal devese, como revelam os dados que falam por si, ao facto de nem todos os países com média elevada de escolaridade, registarem níveis elevados de felicidade. No entanto, os países “mais felizes” registam, também níveis médios de escolaridade mais elevados.

Como motivo de apreensão dos portugueses, atente-se na posição “isolada” de Portugal. Estando entre os países com um nível de felicidade declarada mais baixa, tendo atrás de si apenas a Grécia, a Hungria, a Ucrânia e a Bulgária, é o país com a média mais baixa de anos de escolaridade concluídos, sendo mesmo o único, entre os 30, com média inferior a 10 anos, quando o valor médio do conjunto é de cerca de 12 anos. Apesar da “paixão pela educação” que caracterizou o consulado de Guterres, o desnível é ainda muito acentuado e a baixa escolaridade não será, certamente, alheia a uma “certa maneira de ser português”, de que a frase “salazarenta” “pobretes mas alegretes” é um exemplo.

Embora, como alguém disse, a estatística seja a forma mais credível de mentir, ajudanos a compreender melhor a realidade, a colocar interrogações e a procurar respostas. É o caso. A baixa correlação entre Felicidade e Escolaridade revela que entre uma e outra há “mediadores” que convém ter presentes. Não nos sendo possível desenvolver aqui pormenorizadamente a sua análise, que será tema das próximas crónicas, saliento apenas que as classes sociais com mais recursos qualificacionais (profissionais e académicos) são as que registam níveis médios de felicidade declarada mais elevados. Também acontece o mesmo com as pessoas cujo rendimento disponível lhes permite viverem confortavelmente, 8,8 (felicidade elevada) contra os 5,3 (felicidade moderada) dos que vivem com dificuldades A média de anos de escolaridade das primeiras, é superior a 13 anos, sendo apenas de cerca de 10 anos entre as últimas. O subtítulo desta crónica – estudar compensa – está assim justificado.

Sejam felizes, busquem a felicidade.

Publicada em 01-04-2015 | Diário as beiras – Opinião, pág 23
http://www.asbeiras.pt/Edicao_Diaria/diario.php?Link=6587c3aa14bf96bab58b53baba0783f7%2624567%26CLT0%26TMP10000909%2620150401

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Felicidade e Confiança: uma relação virtuosa

Abr 21, 2015

“La confiance que l’on a en soi fait naître la plus grande partie de celle que l’on a aux autres”

La Rochefoucauld

Parafraseando La Rochefoucauld, a falta de confiança no próprio conduz à falta de confiança nos outros. Enquanto “cimento social”, a confiança está na base das sociedades mais prósperas e desenvolvidas. Como têm sublinhado diversos autores, quanto mais as pessoas confiarem, mais colaboram e cooperam entre si e mais fortes são as instituições sociais da sociedade civil. Ao invés, quanto menos os cidadãos confiarem no seu Governo e nas instituições políticas governamentais, menos eficiente será o desempenho do país, com os consequentes reflexos na qualidade de democracia.

A falta de confiança, como se sabe, reflecte-se no reforço de medidas de autoprotecção que, quando têm como alvo os outros, especialmente quando são estrangeiros, conduz ao exacerbamento da xenofobia que neste início do século XXI, com o agravar da crise económica, tem recrudescido na Europa, com alguns países a quererem repor os controlos fronteiriço de pessoas, contrariando o acordo de Schengen. As sociedades mais confiantes são também as mais tolerantes e solidárias e são também aquelas que, na acepção de Putnam, dispõem de mais “capital social”, que é uma consequência de um processo cultural de longo prazo. Em contrapartida, como enfatiza Fukuyama, “se as pessoas não confiam umas nas outras, acabam por só cooperar quando submetidas a um sistema formal de regras e regulamentos, o qual tem de ser negociado, acordado, discutido judicialmente e algumas vezes aplicado por meios coercivos. Ao mesmo tempo, A falta de confiança, também designada na linguagem comum por desconfiança, torna-se um elemento constrangedor da cidadania e, por consequência, do desenvolvimento económico e social. Como bem notou Francis Bacon nos seus Ensaios: “as suspeitas impelem os reis à tirania, os maridos ao ciúme, os sábios à irresolução e à melancolia. São fraquezas não do coração, mas do cérebro” […] O que leva o homem a suspeitar muito é o saber pouco; por isso os homens deveriam dar remédio às suspeitas procurando saber mais, em vez de se
deixarem sufocar por elas”

A desconfiança torna, por conseguinte, as relações sociais mais conflituosas e as pessoas menos felizes, como se observa na figura seguinte:

opfig3

 

Portugal encontra-se entre os países que se sentem menos felizes e menos confiantes.

Publicada em 26-02-2015 | Diário as beiras – Opinião, pág 17
http://www.asbeiras.pt/Edicao_Diaria/diario.php?Link=0017b5a056ea1a3c691412e6fe8989ca%2624567
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A felicidade tem idade?

Abr 21, 2015

Não importa se a estação do ano muda, se o século vira e se o milénio é outro, se a
idade aumenta; conserve a vontade de viver, não se chega a parte alguma sem ela

Fernando Pessoa, “O mais é nada”

A busca ancestral da “fonte da eterna juventude” teve sempre subjacente a ideia de contrariar o tempo vivido e tornar a juventude eterna. Mas como nunca passou disso – uma busca – uma vez não podemos contrariar o envelhecimento, evitemos ser velhos, pois envelhecer é um privilégio e a alternativa não é algo que se recomende.

Mas será que a idade afecta a nossa percepção de felicidade? E se afecta, como é que afecta?

Um estudo para a Samsung realizado no Reino Unido, em que foram inquiridos 2000 britânicos, mostrou que é aos 35 anos que as pessoas são menos felizes, devido ao stress provocado pelo equilíbrio entre a vida familiar e profissional, nomeadamente no que se refere à criação dos filhos e à progressão na carreira. Ao invés, mostrou também e que é aos 58 anos que as pessoas estão mais satisfeitas com a vida. Embora a “credibilidade científica” destes estudos ofereça muitas reservas, os resultados não surpreendem, pois nesta idade, ao mesmo tempo que diminui a preocupação com a carreira e os cuidados a prestar aos filhos, sobra, mais tempo para o lazer e os amigos. Como notou Bertrand Russel, “o gosto de viver é o segredo da felicidade e do bem-estar”.

Mas a relação entre idade e a felicidade não é a mesma entre os chamados “países ricos” e em Portugal pois, como tem sido demonstrado em muitos estudos neste domínio: “a satisfação das necessidades causa felicidade, enquanto a persistência da sua insatisfação causa infelicidade”. Os portugueses têm mais dificuldade em satisfazer as suas necessidades, como se sabe.

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Fonte: Inquérito Social Europeu (ESS), 2002 a 2010

Como se observa, a idade parece não ter qualquer impacto na percepção da felicidade na Escandinávia – os países mais felizes da Europa – mas o mesmo não se pode dizer em Portugal onde, sendo menor em todas as fases da vida, decresce com a idade e mais acentuadamente, a partir do fim da chamada vida activa. A esse facto não é alheio que o impacto mais negativo na felicidade seja o sentimento de insegurança económica (medo de não ter dinheiro suficiente para, no futuro, fazer face às necessidades) e mais positivos o nível/qualidade de vida e a saúde. O seguinte quadro, que mostra os contrastes neste domínio, em Portugal e a Escandinávia, permite perceber melhor porque é que os portugueses se avaliam como menos felizes e os mais velhos, ainda menos:

opfig2

Em conclusão, podemos dizer que a felicidade continua a dar sentido à vida humana,
como disse Platão, e isso acontece em todas as idades. Não obstante, como observou
Amartya Sen: “o rabugento homem rico poderá muito bem ser menos feliz do que o
resignado camponês, mas a verdade é que tem um padrão de vida mais elevado do
que ele”. Como diz o povo: é melhor ser rico e ter saúde do que ser pobre e doente.
Comparados com os escandinavos, parece que os portugueses se sentem menos
felizes porque, ao contrário do que é dito pelo governo e ampliado pela comunicação
social, vivem… abaixo das suas necessidades.
Sejam felizes.

Publicada em 26-02-2015 | Diário as beiras: http://www.asbeiras.pt/Edicao_Diaria/diario.php?Link=a9f9f78f4b528e6a2f9cfbdd8451cccc%2624567%2
6CLT0%26TMP10000909%2620150226

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