DRAMATIZAR REGUENGOS OU A FORMA DE ESCONDER O GATO DEIXANDO O RABO DE FORA ?

Ago 9, 2020

Os lares de idosos em Portugal são vistos pela generalidade da população como o outro lado da vida onde ninguém deseja estar.

Carregados de estigma e preconceito, tornaram-se autênticos locais de espera da morte em condições indignas.

Esta é a opinião e a ideia da maioria da população portuguesa e, retirando uns poucos que fazem da sua vida profissional a luta diária contra essa opinião, não existe qualquer ação que altere a situação.
Podíamos analisar mais profundamente as razões desta situação, mas isso demoraria certamente muito tempo, para além de existirem poderes instituídos de grandes corporações que prefere manter a situação atual do que discuti-la e transformá-la.

A comunicação social que por vezes tenta colocar na primeira linha esta discussão, não vai também muito longe, deparando com uma cortina assente num modelo caritativo e assistencialista que custa a contrariar e que até é mal visto quando se põe em causa.

Reguengos de Monsaraz saltou para as primeiras páginas ao ter registado um numero significativo de pessoas idosas infetadas com COVID 19 e com um grau de letalidade, ainda longe da evidencia cientifica mas que tenderá a aumentar com o tempo e a atingir esse numero.

Mas Reguengos de Monsaraz só serve para mais uma vez escondermos o essencial.

Para além de encerrar um problema de luta política pessoal está a fazer crer que os problemas surgidos são específicos daquela situação, escondendo a realidade nacional que é bem pior e colocando de lado questões essências que a todos deviam preocupar.

A mediatização do caso de Reguengos parece ter a ver exclusivamente pelo envolvimento de médicos.

Médicos?

Lares de Idosos e médicos são incompatíveis. Nunca na legislação portuguesa houve uma referência à existência de médicos, sua presença e funções, sua responsabilidade e envolvimento, em lares de idosos. Confrontada com a situação pela Associação Amigos da Grande Idade, a Ordem dos Médicos respondeu-nos há alguns anos que esta ausência da presença de médico em lares de idosos era bem vista pela classe, pelo menos não os envolvia no pântano que são os cuidados a pessoas idosas em lares de idosos.

Mas Reguengos começa por aí, distraindo as pessoas: o ministério publico, profundo desconhecedor e de costas sempre voltadas para as denuncias sobre lares de idosos, manda a ordem dos médicos fazer um inquérito. Estamos com certeza a brincar. A brincar com coisas sérias e com a vida das pessoas.

Quantos médicos existem em Portugal conhecedores da realidade interna de um lar de Idosos? Quantos médicos tem autoridade para auditarem lares de idosos se só lá entraram quando algum dos seus familiares esteve institucionalizado?

É certo que os médicos vão aos lares de idosos. Mas quem lá trabalha sabe como esse trabalho é feito: uma vez por semana ou uma vez por mês, prescrição às cegas de medicação. Inexistência de quaisquer registos clínicos, certidões de óbito passadas à distância por internet e nenhuma ligação a outros serviços de saúde quando de internamentos hospitalares, consultas de rotina ou outros incidentes críticos.

Mas também sabemos que a ética médica nesta área vai mais longe. Não se coíbe de fazer umas horas a prescrever medicação nos lares ilegais, que sabem que são ilegais. É esta essencialmente a ação dos médicos nos lares de idosos no modelo que desenvolvemos.

Na situação concreta de Reguengos de Monsaraz a decisão dos superiores regionais foi enviar médicos para o lar… os resultados estão hoje à vista e ainda não fizemos as contas finais.

Desidratação e doenças crónicas descompensadas, tem sido o habitual durante anos e até ao presente, configurando as “normais” práticas criminosas de maus tratos que tem sido noticiadas frequentemente e denunciadas por entidades, associações e familiares dos idosos.

No relatório é citado que faltava tudo, desde gente para cuidar e de alguém responsável que informasse os médicos das doenças que tinham e que medicações tomavam.

Na maioria dos lares, quem administra a medicação sempre foram as auxiliares e é frequente serem as mesmas ou as responsáveis dos lares, juntamente com as diretoras técnicas da área do social que preparam a medicação, não havendo nenhum controlo na administração de psicotrópicos durante o período da noite, sendo administrado pelas mesmas, não sendo possível um adequado ajuste terapêutico visto não terem qualquer tipo de conhecimento dos efeitos secundários.

Quanto ao não haver registo clínico é outra das situações comuns em instituições desta natureza, pois sendo visto erradamente, como fazendo parte do social, as questões de saúde são frequentemente negligenciadas. O que a segurança social, erradamente exige, é a anotação pelas auxiliares no “livro de ocorrências”. Processo arcaico e completamente fora de contexto para a realidade dos lares. Sendo “suficiente” para a entidade fiscalizadora, visto os incumbidos pela segurança social que normalmente efetuam as “fiscalizações”, não são dotadas dos conhecimentos necessários para a identificação das situações que colocam em risco a vida dos idosos.

Referem também que na auditoria detetaram a falta de médicos e enfermeiros. Também não detetamos nenhuma anormalidade em relação a um grande número de instituições, sendo uma das atitudes economicistas das mesmas e um enorme desconhecimento sobre envelhecimento, podendo ser evitadas com uma fiscalização competente pelas entidades fiscalizadoras.

As entidades fiscalizadoras têm perfeitamente conhecimento de que existem instituições de todo o País que não tem enfermeiro permanente, sendo também uma das lacunas da lei arcaica, em que define os rácios dos colaboradores.

Também temos conhecimento de médicos contratados por outras instituições em situações muito mais graves do que aquela que é referida, em que recusaram visitar os residentes após terem conhecimento de estarem infetados. Há casos de direções de instituições que nunca compareceram, nem participaram nos planos de contingência nem em qualquer outro tipo de apoio aos residentes e colaboradores durante a pandemia. Simplesmente não apareceram nem contribuíram para melhorar as condições e corrigir a falta de condições. Incorrendo seguindo a lei num possível crime de abandono. Tendo a diretora da segurança social tido conhecimento atempado da situação.

É abordado que segundo a lei e após conhecimento da autoridade de saúde pública local do surgimento de um surto de covid-19, deve obrigatoriamente ser visitado pelos mesmos. O que de facto também não aconteceu por outros lados. Não se registando a presença de qualquer técnico da segurança social ou entidade local para verificar pessoalmente quais as condições e se as medidas estavam a ser cumpridas.

O que depreendemos desta auditoria, é que só a palavra de um médico, após a visita ao lar de Reguengos, é tida em consideração e detrimento de enfermeiros e demais técnicos, não valorizando queixas de familiares, que ao longo dos anos tem participado uma panóplia de casos por todo o território nacional no antes e durante a pandemia. Falta também uma tomada de posição em relação aos lares ilegais que abundam, sem registo do número de idosos e das condições em que são “albergados”.

De referir que situações desta natureza, tem sido alvo de variadíssimas denúncias de familiares e da nossa associação, sendo transmitidas pelos variadíssimos órgãos de comunicação social e em que recentemente foram apresentadas imagens de vídeo que demonstram as agressões barbaras que os idosos sofrem nas instituições e que originaram a morte dos mesmos. Não se verificou até a data nenhuma auditoria digna desse nome para determinar uma situação desta gravidade e tão frequente em várias instituições. 

O que lamentamos profundamente é que esta situação não sirva para colocar em causa o modelo de intervenção e toda a organização nacional dos cuidados e serviços destinados a pessoas idosas.

Concluímos que, após centenas de mortes evitáveis, tudo ficará na mesma justificado por um ou outro caso mediatizado em que a culpa é de todos e não é de ninguém.

Devíamos ser mais sérios: todos nós.

Os jornalistas colocando em causa a forma como institucionalizamos pessoas idosas, a legislação e os poderes de corporações que só respondem perante elas.

A segurança social que deveria refletir sobre a sua ação e que em nada tem contribuído para melhores cuidados e maior dignidade no envelhecimento.

O estado porque deveria finalmente legislar melhor copiando melhores exemplos de outros países e regularizando o que se faz nesta área sem compromissos com o sector social e preconceitos com o sector privado.

As ordens especialmente dos enfermeiros e dos médicos exigindo maior ética aos profissionais que representa não permitindo a sua ação desajustada e irresponsável nos lares de idosos e dando especial penalização a quem exerce a profissão em locais ilegais e sombrios.

As famílias que não devem continuar a temer represálias e tem a obrigação de denunciar as situações.

O ministério publico que deve levar mais a sério as denuncias que recebe de maus tratos e más práticas.

As provedorias de justiça e de defesa de idosos cujo papel é apenas fazer correr uma notícia anual nos órgãos de comunicação para nos lembrarmos que existem.

Os auditores que não se lembram de colocar como primeira justificação a incidentes do género de Reguengos de Monsaraz o não cumprimento da legislação que obriga a formação continua dos profissionais e que se perdem em problemas que estão a meio da pirâmide de maslow e não na sua base.

A Associação Amigos da Grande Idade advoga uma reflexão nacional e um programa de emergência (não mais um programa de emergência, mas um novo e renovado e inovador programa de emergência) para o envelhecimento em Portugal que inclua a analise profunda de:

1. Rede nacional de apoio ao envelhecimento que inclua cuidados de saúde primários, serviços de várias tipologias de permanência ou não para as pessoas idosas (centros de dia, cuidados domiciliários, cuidados continuados de longa duração, saúde mental, unidades de funcionalidade, lares de idosos e cuidados paliativos) e serviços hospitalares integrados, com liderança nacional e única.

2. Alteração do modelo de financiamento tornando equitativo e racional sem protecionismo a corporações e sem motivação para a disfuncionalidade.

3. Programa nacional de formação especifica para auxiliares, técnicos de diversas áreas, gestores, líderes de organizações.

4. Liderança regional e constituição de equipas regionais multidisciplinares.

5. Programa nacional de combate à ilegalidade e à exploração não licenciada de serviços.

As soluções existem, devendo apenas ser refletidas e discutidas. Mas há quem não queira sequer ouvir falar nelas, continuando com o discurso miserabilista da caridade e do assistencialismo.

A Associação Amigos da Grande Idade já sabe que poucos darão importância a esta comunicação o que nos prova que poucos se importam com o envelhecimento das pessoas mais queridas da família e com o seu próprio envelhecimento. É pena e lamentável, mas cada um fica com a sua consciência que continua a pactuar com a autênticas casas de morte que temos espalhadas por este país todo. O COVID 19 é só um alerta. O pior virá, com certeza.

Lisboa, 9 de Agosto de 2020
Direção da Associação Amigos da Grande Idade
Núcleo da AAGI Valpaços

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Protocolo entre a ELCOS e a AAGI

Fev 24, 2020

A Associação Amigos da Grande Idade anuncia, com honra, a assinatura de protocolo com a ELCOS. Sociedade Portuguesa de Feridas. Trata-se de uma entidade especializada nas feridas e ulceras de pressão em pessoas idosas.

Este Protocolo vai ser assinado formalmente durante a realização do 11º Fórum Internacional de Ulceras e Feridas que se realiza em Aveiro a 13 e 14 de Março no Centro Cultural e de Congressos.

Este protocolo dará de imediato origem a um importante projecto nacional que iremos designar por “STOP às Feridas e Ulceras em Lares de Idosos”.

O Projecto envolve Formação específica nesta área, disponível para técnicos e colaboradores de lares de Idosos e ainda cuidadores informais e terá a intervenção dos inúmeros técnicos especializados em feridas e ulceras da ELCOS.

Será também editado Guia para o combate a feridas e ulceras e lançada uma creditação para lares e outros serviços que não tenham ou combatam com rigor e competência esta situação em Pessoas idosas.

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Audiências com os Grupos Parlamentares

Fev 19, 2020

A Associação reune com deputado José Soeiro (BE) iniciando as audiências com os grupos parlamentares

No decurso do processo de maus tratos a pessoas idosas que a Associação pretende desenvolver a Associação Amigos da Grande Idade reuniu com o deputado José Soeiro, coordenador do Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda e elemento da Comissão do Trabalho e Segurança Social.

Esta reunião teve como causa o processo de maus tratos a Pessoas Idosas institucionalizadas que tiveram como ponto de partia a situação de Valpaços com os pais do nosso colaborador Jorge Araújo. Estes acontecimentos largamente divulgados pela comunicação social, levantaram finalmente o véu, muito transparente daquilo que passa com as pessoas idosas institucionalizadas. Finalmente chegaram ao publico imagens impossíveis de negar e que violam todas as consciências e impõem forte acção por parte de todos nós.

Tratar mal pessoas idosas é já um procedimento que não admira a sociedade que, em geral, condena esses acontecimentos mas raramente os denúncia ou actua sobre eles. Também as entidades mantêm uma venda nos olhos sobre estas situações, por demais conhecidas e que são assunto diário de conversas e de intervenções em congressos, seminários e outras reuniões científicas.
O Deputado José Soeiro mostrou-se seriamente preocupado com a situação e comunicou a sua determinação em não deixar que este caso de Valpaços e esta situação em geral caia no esquecimento, levando-a mesmo a discussão à Assembleia da Republica.

A Associação e o seu colaborador, líder deste processo, Jorge Araújo, fica grata a este compromisso e tudo vai fazer para poder apresentar dados e fornecer informação que possa servir de reflexão aos mais elevados decisores do País mas que acima de tudo imponha acções profundas nesta área das Pessoas idosas e do envelhecimento institucionalizado
Acreditamos que este possa ser um primeiro passo e abra as portas a uma discussão de homens e mulheres livres, destituídos de qualquer interesse privado ou corporativo,
As Pessoas idosas do nosso País que se encontram institucionalizadas em instituições e/ou institucionalizadas nos seus domicílios por incapacidade e dependência, merecem o empenho de todos nós. Este é um assunto de interesse público e nacional e nenhum de nós deve ser alheio a estas situações.

A Associação apresentou ao Deputado José Soeiro um pequeno caderno de encargos para discussão: os maus tratos em geral na Institucionalização e a falta de formação profissional especifica nesta área; as insuficiências da fiscalização, orientação e acompanhamento por parte da segurança social e de outras entidades reguladoras; a legislação ultrapassada e deprimente que se mantem sem alterações há dezenas de anos; o modelo de comparticipação existente e o drama pantanoso e escondido dos lares ilegais.

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2020: POR UM NOVO ANO DE MENOR INFELICIDADE

Dez 30, 2019

A Associação Amigos da Grande Idade – Inovação e Desenvolvimento, congratula-se pela chegada de mais um ano e deseja a todos que possam concretizar os seus desejos.

 

Desejávamos também para 2020 um ano de mudança. Mudança na Ética e no exercício de Cidadania de forma a alterar a forma de olhar para o envelhecimento.

A moderna sociedade, eco, atlética, saudável e libertadora, com profundas preocupações com o ambiente, só conhece o envelhecimento activo e saudável. O envelhecimento bom, de velhos bonitos, desportistas, mesmo quando em toda a sua vida nunca tenham dado uma corrida, artistas, viajantes, felizes e contentes a ocuparem os seus tempos livres, dançarinos e festivos, justificando milhares de euros que se distribuem anualmente por milhares de organizações humanitárias e caritativas para o desenvolvimento de projectinhos com peso e interesse para aparecerem na televisão. Projectos para pessoas idosas novas que ainda não tiveram qualquer acontecimento critico nem nenhum acidente de saúde.

Estas são as pessoas idosas da sociedade moderna em evolução em que a competitividade e o consumo é que definem o desenvolvimento social, medido exclusivamente pelo orçamento geral do estado.

Para estas pessoas idosas a sociedade tem investido todos os seus recursos e toda a sua criatividade e energia. São as universidades seniores, os projectos intergeracionais, os passes mais baratos, os descontos em múltiplas ofertas, a multiópticas que se arrisca a pagar para dar óculos dado o aumento da esperança de vida, os subsídios para actividades de ocupação e lazer, os prémios nacionais e anuais e até o apoio ao empreendedorismo sénior.

Ler as páginas dos sites das câmaras municipais e juntas de freguesia faz-nos acreditar num Portugal em que as pessoas idosas são extraordinariamente felizes, tal a quantidade de ofertas que são publicitadas.

O problema actual para a Associação é que tudo isto não tem nada a ver com o verdadeiro envelhecimento, com o preocupante envelhecimento que aumenta dia a dia.

Podem continuar a dizer que todas aquelas actividades e projectos destinados às pessoas que completam 65 anos e dedicadas aos anos mais próximos que se seguem a essa data são fundamentais para prevenir causas maiores de incapacidade e infelicidade. Mas não.

O aumento significativo das ofertas para pessoas idosas “novas” nada preveniu, nada diminuiu a incapacidade e a dependência das verdadeiras pessoas idosas que aumentaram significativamente nos últimos anos.

A moderna sociedade determinou que ser velho é ter 65 anos e que vai até poder participar nas tais ofertas de vida activa e saudável. As pessoas que tem acontecimentos críticos como quedas, enfartes, AVC’s, demência, Alzheimer não estão nas preocupações dos decisores nem tão pouco dos voluntários imensos que por esse país fora desenvolvem projectos ditos destinados às pessoas idosas. Não. Esses cheiram mal e, ou ficam em casa, abandonados à sua sorte com a visita do filho ou da filha no final do dia ou dia sim dia não, ou são colocados nos Lares de idosos.
Essas pessoas idosas, os nossos pais muitas vezes, só são notícia quando são gravemente agredidos numa instituição ou quando são encontrados mortos após vários dias em casa.
As pessoas idosas que têm rendimentos acima da pensão mínima continuam a não ser abrangidos por qualquer apoio social, tendo que se valer dos seus 500,00 € e de algum dinheiro que possa sobrar a um ou outro filho. Milhares dos que têm pensões mínimas não têm vaga nas grandes instituições sociais que, coitadas, se vêem aflitas para cuidarem dos que lá tem e já fazem um grande favor à sociedade. Os funcionários públicos com reformas que até julgamos serem confortáveis e com rendimentos de 1000 euros não têm um apoio que seja no seu envelhecimento com doença e incapacitação. Onde estão? As pessoas idosas com um AVC, com uma fractura de uma perna, com o aparecimento de uma demência andam por ai, de casa em casa, de lar em lar ou simplesmente apodrecem num hospital que não descansa enquanto não lhes dá alta.

Essas pessoas não usufruem das excursões da junta de freguesia, nem das festas, nem dos projectos intergeracionais, nem das universidades seniores. Essas pessoas não se conseguem pentear, não conseguem lavar-se, não conseguem vestir-se.

Não seria inconveniente que essas pessoas estivessem em casa ou em lares mas é aqui que a Associação apresenta as maiores preocupações.

Ficar em casa requeria apoio domiciliário. Mas se tivermos mais de 400 euros de rendimento já não teremos direito a esse apoio e mesmo que se encontre uma instituição que o poderia fazer não é possível porque as listas de espera são enormes. Requerer apoio de entidade privada é difícil dados os custos e como se trata de entidade privada não há apoio financeiro social, reservado exclusivamente a IPSS e misericórdias.

Seria bom ficar em casa mas isso implicava uma mudança estrutural e concepcional nos modelos de cuidado e acompanhamento.

Fala-se agora nos cuidadores informais e a Associação tem vindo a conter-se sobre este projecto. A conter-se porque o julga completamente desajustado e desadequado, porque o julga falso e demagógico.

O Estado vive de costas voltadas para os cuidadores formais. Não fiscaliza instituições nem exige formação a cuidadores dessas instituições, não apoia qualquer actividade de desenvolvimento profissional, não apoia o sector privado através de incentivos fiscais que pudessem ser utilizados na formação e no recrutamento, deixa tudo isto à sorte e depois vem dizer-nos que tem dinheiro para apoiar cuidadores informais. Inacreditável, sabendo que esses cuidadores requerem processo de formação que não feitos aos formais, que requerem dinheiro que se negam ás empresas e instituições e até particulares, que requerem fiscalização, avaliação e coordenação que não se faz em nenhuma parte do pais. Mas, milagre dos milagres tirados da cartola de meia dúzia de políticos iluminados: para os cuidadores informais vai ser tudo bom. O que está para trás não interessa nada, o facto de existirem maus tratos diariamente nos domicílios, nas instituições sociais e privadas não interessa nada. Com os cuidadores informais vamos resolver tudo.

Humildemente pensamos que resolvemos tudo da mesma maneira que resolvemos os problemas de internamento, acompanhamento e recuperação hospitalar com os cuidados continuados! Demagogia.

O fundo do poço está em termos todos a consciência que as pessoas idosas, realmente necessitadas de cuidados e apoios estão em grande parte nos lares ilegais deste país. Longe de qualquer avaliação ou fiscalização, sofrendo com a incompetência de serviços públicos criados para os defender e encharcados de burocracia e lista de conformidades só utilizadas nas ofertas privadas legalizadas. Serviços de segurança social incapazes e demasiado comprometidos com as estratégias politicas e as instituições seculares que só continuam a estar impunes por esses compromissos.
As pessoas idosas em lares de idosos ilegais estão à sua sorte. Os filhos por mais vontade que tenham, têm familias. Por mais bondade, amor, gratidão que possam ter, têm que a dividir com as dificuldades de criarem os seus próprios filhos. Aqui as pessoas idosas são uma chatice, um fardo. Exigem dinheiro mas acima de tudo disponibilidade, acompanhamento.

A única solução que encontram é o Lar. E a única solução que encontram e que se enquadra nas suas capacidades financeiras é o Lar ilegal.

Lar ilegal onde se bate, se amarra, se repreende, se utilizam processos de represália. Lares onde em quartos de duas pessoas, dormem cinco ou seis. Lar com duas casas de banho domésticas para trinta pessoas. Lares que nascem como cogumelos tal a impunidade e a frieza da segurança social justificando-se que não pode intervir porque perante a lei não existem!

Lares onde trabalham médicos e enfermeiros e assistentes sociais inscritos nas respectivas ordens profissionais. Como é possível trabalhar num serviço ilegal? Será que os que se dedicam a tráfico de armas e de pessoas também têm enfermeiro e médico? Que ética é esta que permite situações tão cruéis como estas?

Há quem diga que há lares ilegais melhores do que lares legais. É falso, é esconder o sol com uma peneira.

É verdade que grande parte dos filhos vai uma vez por semana ao lar e mesmo que vá todos os dias é incapaz de reconhecer as diferenças de um lar legal para um lar ilegal. Porque as diferenças para aquilo que ele vê não são significativas: Vê pessoas a cuidarem dos pais mas não consegue perceber que duas pessoas não conseguem cuidar de trinta pessoas idosas. Não consegue perceber que a mesma pessoa que ele vê quando vai ao lar a dar comer ao pai é também a que fez a comer, a que lhe fez a higiene e a que limpou o lar e a sanita, que não muda de luvas de pessoa para pessoa, que não tem e não sabe prevenir uma ferida e que, no fundo é só ela e outra naquele lar.

Que diferença faz estar num lar legal que tem que ter prevenção de incêndios, tratamento de lixos infectados, medicina do trabalho, cumprir a legislação laboral, normas rigorosas para tratamento e manuseamento de alimentação, quadro de pessoal de acordo com as cargas de trabalho, processos de registo individual dos residentes, registos de enfermagem e médicos que possam ser consultados e avaliados, tratamento de óleos alimentares, registo de limpezas por sectores, regras para acondicionamento de produtos químicos e alimentares, planos de formação para os seus colaboradores, etc.?

Quando vai ao lar apenas que ver o pai ou a mãe sem chorar…, sem marcas visíveis de agressão. Não consegue avaliar como é que uma auxiliar consegue deitar trinta pessoas, posicioná-las durante a noite, mudar-lhes fraldas, acorrer a uma queda ou a outra situação. Não consegue perceber porque não quer pensar nisso.

A Associação Amigos da Grande Idade quer que este ano de 2020 seja um ano em que não se deixem esquecidas as pessoas idosas que necessitam de cuidados, que dependem de nós, os mais capazes.

É intenção da Associação Amigos da Grande Idade lançar durante o ano, uma petição para a discussão na Assembleia da Republica deste flagelo da ilegalidade, do crime e da indignidade nos “cuidados” a pessoas idosas em Portugal.

Bom ano 2020
Presidente da Direcção
Rui Fontes

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BOAS FESTAS, FELIZ ANO NOVO E MENOS INFELICIDADE PARA OS MAIS VELHOS

Dez 12, 2017

 

2018: O ANO ZERO PARA UMA MUDANÇA DO PARADIGMA DA INTERVENÇÃO NO ENVELHECIMENTO

 

A Associação Amigos da Grande Idade declara-se como uma entidade que pugna pelo envelhecimento menos infeliz em Portugal.
Todo o seu trabalho foi e é desenvolvido nesse sentido. Através de reflexão e divulgação (congressos, eventos diversos, publicação de manuscritos e site), investigação (revista cientifica, apoio a teses, desenvolvimento de projectos), intervenção (audiências com entidades, políticos, decisores, gestores), formação (realização de acções e cursos de formação, agora com o crédito da DGERT).
É um trabalho discreto, voluntário e exaustivo realizado por pouco mais de uma dúzia de pessoas mas que envolveu, nos últimos dez anos, milhares de outras pessoas, algumas delas que nunca tinham pensado no envelhecimento.

Largámos há muito a ideia da felicidade porque vivemos num país pobre e triste apesar de sermos campeões europeus de futebol e termos ganho o festival da eurovisão, continuamos a discriminar, a olhar de lado e a não reconhecer um problema grave que temos: um terço da população é velha, viveu e trabalhou toda uma vida e não tem quem se preocupe com ela a não ser os peditórios, os cuidados aos coitadinhos e a indiferença politica. Um modelo de intervenção estafado e indigno.

Concluímos que em vez da felicidade seria melhor falarmos na funcionalidade, sabendo que através dela conseguimos manter alguma dignidade, alguns direitos e respeito.
Mas em 2018 elegemos a atenuação da infelicidade e vamos trabalhar sob esse objectivo. Denunciando as más práticas e os maus exemplos sem nos escondermos no anonimato, procurando soluções adequadas às dificuldades politico-socias-económicas, incomodando as autoridades que mantêm a ignorância institucional e continuando a formar, sempre a formar, porque é a imagem e a prática dos líderes que se reflecte nos serviços, nos cuidados e nas ofertas. Líderes que podem ser todos, cada um liderando na sua área profissional. Não queremos líderes polivalentes, de grande dimensão porque sabemos que o país não os tolera uma vez que se desenvolve debaixo de um manto de invejas e interesses particulares e privados.

Em 2018 a Associação pretende colocar todos os seus conhecimentos na prevenção do envelhecimento, utilizando os meios já existentes e mal geridos por falta de estratégia e planeamento. Vamos, surpreendentemente, ou não, conseguir mudar o paradigma do envelhecimento apostando na prevenção e deixando a luta perdida na intervenção aquando da institucionalização.

Desejamos a todos e todas boas festas e um feliz ano novo. Às pessoas idosas, menos infelicidade no seu processo natural de envelhecimento que é a única forma de viverem mais tempo, que deveria ser mais tempo feliz.

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AVALIAÇÃO 65+

Dez 12, 2017

 

PROJECTO DA AAGI COM O ACES DE ALMADA E SEIXAL
O PRIMEIRO PASSO PARA A MUDANÇA DO PARADIGMA DO ENVELHECIMENTO EM PORTUGAL

 

Já está em marcha o maior projecto em que a Associação se envolveu até hoje. Um projecto que nos traz a esperança de podermos influenciar o envelhecimento em Portugal e poder contribuir para a sua extensão a outros países da Europa.

Em 2008 demonstrámos que a introdução de equipas de 24 horas de enfermagem em Lares de idosos melhorava extraordinariamente a vida das pessoas idosas residentes nessas estruturas e trazia uma poupança de milhares de euros ao serviço nacional de saúde directamente e de milhões de euros à sociedade indirectamente. Utilizámos um sistema de saúde fechado de pequena dimensão e publicámos o trabalho no Banco Europeu de Inovação em Saúde. Mas o País e algumas das suas corporações não estão preparados para estas mudanças, mantendo um modelo de intervenção caritativo e assistencialista.

Agora temos a esperança de podermos formalizar e institucionalizar um projecto que há muito desejamos colocar no terreno. É consequência de uma reflexão de duas dezenas de investigadores e profissionais de diversas áreas. Trata-se da avaliação da condição de saúde das pessoas quando fazem 65 anos, orientando todo o seu projecto de vida no sentido de manter a vida activa e saudável. Um sonho que queremos tornar realidade.

Temos para isto a parceria e liderança do projecto do Agrupamento de Centros de saúde de Almada e Seixal e estamos a iniciar a preparação da equipa que se vai envolver no projecto.
Iniciamos em Janeiro a fase da apresentação aos parceiros, sendo nossa intenção envolver todas as entidades da área que desenvolvam actividade de saúde e social. Vamos também fazer a apresentação pública do projecto.

Esta ideia está transcrita, sem especificidade alguma, na estratégia para o envelhecimento activo e saudável para 2025 e agora poderá passar á prática.

Em breve teremos portal próprio onde poderá acompanhar o desenvolvimento do projecto.

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AAGI e Hospital de Vila Franca de Xira

Jun 9, 2014

A Direcção da Associação Amigos da Grande Idade reuniu com a Administração do Hospital de Vila Franca de Xira, no sentido de apresentar a sua actividade e de discutir as suas preocupações com a saúde das pessoas idosas e procura de novas respostas

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