A Felicidade depois dos 60 anos

Fev 2, 2016

“[…] I could be handy, mending a fuse/When your lights have gone/You can
knit a sweater by the fireside/Sunday mornings go for a ride/Doing the
garden, digging the weeds/Who could ask for more?/Will you still need me,
will you still feed me/When I’m sixty-four?”2

The Beatles (When I’m sixty-four?)

Sempre gostei muito desta canção dos Beatles e, quando a ouvi pela primeira vez, teria os meus 15 anos, pensei que seria muito velho quando tivesse 64 anos. Felizmente estava enganado, pois vou fazer 64 anos este ano e não me sinto nada velho. As coisas mudaram muito nos últimos 40 anos e os 64 de então não são os 64 de agora. Creio que se os Beatles escrevessem a canção agora, mudariam os 64 para 84 e quando eu fizer 84, direi que mudariam para os 94. Envelhecer sem ficar velho é um grande privilégio, só acessível aos que buscam a sua felicidade, independentemente da idade. Ser velho, é na sua essência, deixar de desejar e quem busca a felicidade, deseja sempre ser mais feliz.

Vem isto a propósito da minha última crónica, publicada em Dezembro, sobre “as curvas da felicidade”3, onde mostrava que o pico mínimo da felicidade ocorria entre os 51 e os 60 anos. Mas enquanto nos países escandinavos – mais felizes – e na Europa do norte e do centro, a felicidade aumentava até aos 70 anos, superando mesmo os valores dos mais novos, em Portugal mantinha-se praticamente estável até aos 60 anos e a partir daí descia abruptamente. Muita gente me contactou, então, para saber o que é que devia fazer depois dos 60 anos, para ser feliz. Como não gosto de emitir opiniões baseadas no que é que eu acho – como é apanágio de tantos comentadores da nossa praça – fui “perguntar” ao Inquérito Social Europeu como eram os portugueses mais felizes, com mais de 60 anos.

A primeira constatação é interessante e permite ser optimista. Com efeito, os dados mostram que a percepção da felicidade decresce com a idade, mas depois dos 60 anos, 44% dos portugueses ainda se consideram muito felizes4 e são estes, apenas estes, que me interessa conhecer melhor.

Felicidade em Portugal, por escalão etário.

FelicidadeEmPortugal

 Fonte: European Social Survey, – Portugal 2002-2012 (N=12 463)


Retrato sociológico dos portugueses mais felizes, com mais de 60 anos

A maioria é do sexo feminino (54,4%); vive na Região Norte (40,2%); é casada (76,7%); tem baixa escolaridade (73,2% têm apenas até 4 anos de escolaridade concluídos); está reformada (72,6%); e considera que o rendimento do agregado familiar “dá para viver” (53,7%).

Relativamente à religião, a maioria diz que é católico (96,9%), participa em serviços religiosos pelo menos pelo menos uma vez por semana (36%) e reza todos os dias (48,2%).

Em termos políticos, a maioria auto posiciona-se politicamente ao centro-direita/direita (42,6%), não se interessa por política (36,8%), vota (85,5%) e simpatiza com um partido político (64,3%). O PSD (46,8%) e o PS (41,1%) são os partidos com que mais simpatizam. Não confiam na Assembleia da República (57,1%), na Justiça (56,6%), nos Políticos (80%) e nos Partidos políticos (80,1%), mas confiam na Polícia (76%). Estão insatisfeitos com o Governo (766,3%) e com o estado da Economia (79,6%), mas estão satisfeitos com o funcionamento da Democracia (52,2%). Avaliam como mau o estado da Educação (50,3%) e dos Serviços de saúde (51,2%).

Consideram que o seu estado de saúde é razoável (50,7%) e 32,2% dizem que é bom. Estão satisfeitos com a sua vida (74,6%) e são optimistas relativamente ao futuro (62%).

Cabe agora ao leitor a comparação de si próprio com este “retrato” e tirar as devidas ilações. Eu já o fiz e, sinceramente, não me revejo minimamente nos traços dominantes aqui apresentados, embora sejam muito mais “simpáticos” do que os dos infelizes, de que tratarei em próxima crónica. Mas considero-me muito feliz. Ou seja, como diz o povo: não há regra sem excepção. Serei uma excepção e essa percepção contribui para a minha auto-estima e a minha felicidade.

Sejam felizes, busquem a vossa felicidade e não deixem de desejar.

Rui Brites 1

 

Publicada em 29-01-2016 | Diário as beiras – Opinião, pág 17

http://www.asbeiras.pt/Edicao_Diaria/diario.php?Link=5e790ba9f43160f14a6c8bb335a38995%2627409%26CLT0%26TMP10000909%2620160129


1 Sociólogo e professor universitário (rui.brites@outlook.com)

2 https://www.youtube.com/watch?v=vAzaOZfgf0M

http://www.asbeiras.pt/Edicao_Diaria/diario.php?Link=728c9d165930656105aeda48401eedb6%2624567%26CLT0%26TMP10000909%2620151228

4 Saliente-se que são cerca de 87% na Escandinávia e 80% na Europa do norte e do centro.

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VIVA O PAPA… E A FAMILIA

Set 30, 2015

O Papa Francisco, como parece gostar de ser tratado, surpreendeu mais uma vez na intervenção de despedida da visita aos Estados Unidos da América com algumas declarações engraçadas a propósito da família. Encantou os presentes e o mundo referindo-se a Jesus que nunca foi casado, às sogras e aos problemas domésticos próprios das famílias.

Tudo isto para reforçar a importância da família na sociedade e no mundo.

Nunca falei com o Papa Francisco, nem nenhum elemento que conheça da Associação Amigos da Grande Idade, mas há dois anos defendemos, como hoje, que um dos principais fatores para o desenvolvimento social assenta na reconstrução da família tradicional, voltando a aprofundar as suas mais profundas solidariedades e os seus mais valiosos valores. Ficámos até surpreendidos numa declaração do mesmo Papa Francisco que pouco cautelosamente referiu que era no seio da família que existiam mais maus tratos e mais problemas com as pessoas idosas e as crianças. Declaração pouco cautelosa porque serve os interesses daqueles que dizendo que defendem a família vivem à custa da sua desintegração e da sua incapacidade de responder às necessidades de pessoas mais vulneráveis.

Na verdade tarda em que no nosso país se entenda que é direito fundamental das famílias poderem receber as comparticipações sociais do Estado e estas deixarem de depender da institucionalização em entidades que continuam a não ser avaliadas e cujos indicadores de desempenham deixam muito a desejar.

Se pensarmos na necessidade de valorizar, manter e aprofundar a família e as suas tradicionais relações, logo chegamos à conclusão que o modelo de comparticipação da segurança social é contra os direitos fundamentais e contra esse princípio da família. A comparticipação para uma pessoa idosa continua a ser dada exclusivamente à instituição social onde a pessoa é institucionalizada, continuando a perguntar qual a razão que existe para não a atribuir à pessoa diretamente ou perante a incapacidade da mesma ao seu representante legalmente constituído?

Acompanhemos o Papa Francisco nesta reflexão que coloca a família no topo da pirâmide do desenvolvimento social. Mas sejamos coerentes e dessa forma iniciemos uma defesa global da família que implica uma alteração substancial do modelo de financiamento social que temos.

Que todos entendam que o caminho correto é o apoio á família e não o apoio às instituições sociais.

 

Rui Fontes (rmsfontes@sapo.pt)

Coordenador de Lar de Idosos

Presidente da Associação Amigos da Grande Idade

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Os portugueses são felizes, mas alguns são mais felizes do que outros

Set 10, 2015

“Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros”
George Orwell

Socorro-me da célebre frase de Orwell para ilustrar a “distribuição” desigual da felicidade em Portugal. Com efeito, embora a sua busca seja um desígnio individual, nem todos têm as mesmas condições para prosseguir na sua senda. O local onde se vive e trabalha, o sexo, a idade, a escolaridade e a classe social, embora não sejam determinantes na percepção da felicidade, são condicionantes que devem ser tidas em conta. Assim, parafraseando a frase de Orwell, direi que os portugueses são felizes, mas alguns são mais felizes do que outros. Senão vejamos.

A média da felicidade dos portugueses, numa escala de 0 a 10, em que 0 significa “extremamente infeliz” e 10 “extremamente feliz”, é 6,63 e a sua distribuição é a seguinte:

Felicidade em Portugal

felicidade1

Como se observa, apenas 11,2% se consideram infelizes, contra os 73,5% que se dizem felizes. No meio há 15,4% que não se consideram felizes nem infelizes.

Tendo como referência a média e o desvio em relação à média da felicidade2, podemos concluir que os portugueses mais felizes vivem na região norte (6,9) e os menos felizes, no Algarve (5,7). O Centro (6,6), Lisboa e Vale do Tejo (6,5) e o Alentejo (6,5), apresentam valores médios em torno da média total (6,63). É em Lisboa e Vale do Tejo que se observa a maior desigualdade da distribuição e no Centro a menor.

felicidade2

Pode parecer estranho que os algarvios se considerem menos felizes, mas não é, pois temos que levar em conta que nas perguntas de auto-classificação, como é o caso, presentes nos inquéritos por questionário, os inquiridos procedem a uma comparação social com os outros que lhe estão próximos, para responderem. No caso do Algarve, as respostas sofrem, certamente, da comparação dos inquiridos com os turistas “mais ricos” da Europa.

Os resultados por sexo, idade, escolaridade e classe social, permitem-nos concluir que, em termos de felicidade alguns portugueses são mais felizes do que outros. Os mais felizes, com níveis de felicidade superiores à média total são: homens (6,8)3, mais novos (7,35), mais escolarizados (7,15) e Profissionais técnicos e de enquadramento (7,04).

felicidade3

No regresso das férias, pensem nisto e sejam felizes, busquem a vossa felicidade.

Publicada em 04-07-2015 | Diário as beiras – Opinião, pág 16

http://www.asbeiras.pt/Edicao_Diaria/diario.php?Link=f64e19ec1ef4f55c122d58b39a36629c%2624567%26CLT0%26TMP1000090 9%2620150904

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Felicidade Interna Bruta

Ago 18, 2015

“Entre os méritos do homem e da mulher, considerados no seu justo valor, não
há diferenças, ou pelo menos não apresentam as diferenças que a tradição nos
ensinou. Para a mulher, como para o homem, o gosto de viver é o segredo da
felicidade e do bem-estar”

Bertrand Russel

A Felicidade Interna Bruta (FIB), por analogia com o Produto Interno Bruto (PIB) tem ocupado largo espaço nos media, especialmente depois de Sarkozy, em Fevereiro de 2008, ter criado uma comissão para estudar o conceito.

Essa comissão, presidida por dois prémios Nobel de grande prestígio: Joseph Stiglitz, da Universidade de Columbia, ex-director do Banco Mundial e Amartya Sen, da Universidade de Harvard, e por JeanPaul Fitoussi, director de pesquisa do OFCE e professor emérito do IEP em Paris, terem apresentado o seu relatório com doze recomendações. Como referem no seu relatório (disponível em http://stiglitz-sen-fitoussi.fr/en/index.htm) os autores notam que os nossos sistemas de medida focam-se muito mais na produção económica do que no bem-estar das pessoas. A mudança de ênfase do PIB para o bem-estar não significa, contudo, que se abandone o primeiro, pois a informação em que se baseia continua a ser importante, nomeadamente no que se refere à monitorização da economia. No entanto, essa informação é insuficiente, tornando-se necessário recolher informação complementar centrada no bem-estar sustentado das pessoas. “Há várias dimensões do bem-estar, mas um bom começo é a medição do bem-estar material ou padrões de vida. Tal sistema não deve apenas medir os níveis médios de bem estar dentro de uma dada comunidade, e como mudam ao longo do tempo, mas também documentar a diversidade de experiências dos povos e as ligações entre as várias dimensões da vida das pessoas”. Nas suas recomendações propõem que a avaliação do bem-estar material se centre no rendimento e no consumo em vez da produção, devendo contemplar medidas que permitam melhorar a saúde, a educação e o meio ambiente, através de indicadores robustos e confiáveis capazes de medir as conexões sociais, a participação política e a insegurança e avaliar desigualdades de uma forma global.

Nesta perspectiva, a distribuição do rendimento torna-se mais importante do que o rendimento médio per capita. Em vez de nos focarmos no PIB, devemos focar-nos na FIB (Felicidade Interna Bruta), considerada como um indicador de bem-estar social, que exprime, num dado país, o “stock” de felicidade das pessoas, cuja busca, como está inscrito na Constituição Americana, deve nortear os objectivos da governação. Consideram que a felicidade é uma expressão do bem-estar subjectivo, conceito multidimensional, assente nas seguintes dimensões-chave, que devem ser consideradas em simultâneo: i) Padrões materiais de vida (rendimento, consumo, e riqueza), ii) Saúde, iii) Educação, iv) Actividades pessoais, incluindo o trabalho, v) Voz política e governação, vi) Conexões e relações sociais, vii). Ambiente (condições actuais e futuras) e viii) Segurança de natureza económica e física.

O Índice de Felicidade Interna Bruta , construído com base nestas dimensões2, apresenta a seguinte distribuição na Europa:

Felicidade Interna Bruta na Europa

opiniao-ruibrites-fib-1

Fonte: European Social Survey, 2008

Numa escala estandardizada em que o valor 0 significa a média do conjunto, os países Escandinavos e a Europa do Centro, com excepção da França registam valores médios superiores à média, enquanto os países Pós-comunistas e Portugal registam valores médios inferiores. Saliente-se ainda que, a exemplo do que acontece com a distribuição do PIB, os países “mais felizes” são também os que registam as menores desigualdades na distribuição da FIB:

Felicidade Interna Bruta na Europa
(média e desvio-padrão)

opiniao-ruibrites-fib-2

Fonte: European Social Survey, 2008

Portugal situa-se no quadrante dos países “menos felizes” e maior desigualdade na distribuição da FIB. Note-se que a nossa vizinha Espanha, com quem gostamos de nos comparar, se situa no quadrante oposto: “mais felizes” e “menos desiguais”. Aproveitem este período de férias e sejam felizes, busquem a vossa felicidade.

Publicada em 04-07-2015 | Diário as beiras – Opinião, pág. 15 (http://www.asbeiras.pt/Edicao_Diaria/diario.php?Link=4025bcff909b25651b6095f15f8c7150%2624567%26CLT0%26TMP10000909%2620150815)

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Religião e Felicidade

Jul 22, 2015

“Quando pratico o bem, sinto-me bem; quando pratico o mal, sinto-me mal. Eis a minha religião.”

Abraham Lincoln

Para o sofista Protágoras, “dos deuses não posso saber nem se são e nem se não são. Muitos obstáculos se apresentam, a obscuridade do assunto e a brevidade da vida”. Apesar disso, a religião está presente na humanidade desde o princípio dos tempos. “Ópio do povo” para uns – devido ao seu efeito “narcotizante” – crença redentora e fé inquestionável para outros, é invocada constantemente para dar consistência a actos e comportamentos muita vezes “pouco religiosos”. Daí que Sartre tenha afirmado que se Deus criou o homem, ao dotá-lo de livre arbítrio eximiu-se à culpa dos seus actos. Ou seja, o que o homem faz ou não faz é fruto do seu livre arbítrio. Deus não tem culpa do que ele faz em seu nome. Nesta acepção, será que a religiosidade tem implicações na felicidade?

Na confiança parece ter, pois a religiosidade elevada em Portugal, como nos outros países do sul e em alguns pós-comunistas, como a Polónia, países também de baixos níveis de confiança social, não se encontra positivamente correlacionada com os níveis de confiança e de capital social. Fukuyama sustenta mesmo que, a haver alguma relação entre religião e confiança, ela deverá ser negativa e não positiva, tal como se conclui também a partir dos resultados do Inquérito Social Europeu em que nos baseamos para estas crónicas. Segundo o autor: “a religião tem aparentemente efeitos contraditórios na confiança; os fundamentalistas e as pessoas que vão à igreja tendem a ser mais desconfiados do que a média geral”(2) .

As religiões sabe-se, especialmente depois de Durkheim ter escrito “As Formas Elementares da Vida Religiosa”, sempre constituíram um poderoso cimento social. Como mostram muitos estudos, muitas vezes baseados em amostras nacionais, a religião tem uma correlação positiva, embora fraca, com o bem-estar subjectivo. É importante saber, no entanto, o que se entende por religião, nesses estudos. Uns centram-se na crença religiosa, outros na prática, outros ainda, no apoio social concedido por confissões religiosas, seitas, etc., com níveis de correlação diversos, sugerindo-se que os benefícios da religião são principalmente cognitivos, ao proporcionarem um quadro interpretativo pelo qual se pode dar sentido às experiências de vida dos indivíduos. Mas é um facto comprovado em diversos estudos, que a religiosidade se correlaciona mais com o bem-estar subjectivo em sociedades religiosas, o que aponta para o efeito de “cimento social”. No entanto, também se tem encontrado evidência empírica na observação de efeitos negativos da religião no bem-estar subjectivo, devido ao sentimento de “culpa” que é apanágio de algumas religiões. No caso da religião católica, a expiação do “pecado original” é disso exemplo.

Com base nos dados disponibilizados pelo Inquérito Social Europeu, é possível construir um “índice de religiosidade” com base nos seguintes indicadores: “pertença a uma religião”, “sentimento religioso” “participação no culto” e “frequência de oração/meditação”. A figura seguinte mostra a relação entre este índice e a felicidade:

8religiaoefelicidade

Os resultados são, no mínimo, curiosos: os países mais felizes são, na maior parte, os menos religiosos. Portugal situa-se no quadrante dos mais religiosos e menos felizes, acompanhado da Itália, Grécia e maior parte dos países pós-comunistas. Portugal não gosta de se comparar com a Espanha e não com a Grécia mas, no que se refer à Felicidade e Religiosidade, os dados não mentem. Os nossos vizinhos incluem-se no quadrante dos mais felizes e menos religiosos. Sejam felizes, busquem a vossa felicidade.

Publicada em 04-07-2015 | Diário as beiras – Opinião, pág 24

http://www.asbeiras.pt/Edicao_Diaria/diario.php?Link=de5226da4d16185ef618de5c40ef3dfa%2624567%26CLT0%26TMP1000090 9%2620150704

Autor: Rui Brites – Sociólogo e professor universitário (rui.brites@outlook.com)

(2) Fukuyama, cit. por Teixeira Fernandes.

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A HISTÓRIA

Jun 23, 2015

Em 2009, reunindo um grupo de pessoas diretamente ligadas ao trabalho que estava a ser desenvolvido num Lar de Idosos, foi constituída a Associação Amigos da Grande Idade – Inovação e Desenvolvimento.

Estávamos, quase todos, num período de deslumbramento, tal era o êxito que algumas iniciativas desenvolvidas no interior de um lar de idosos tinham atingido, projetando-nos para um nível de inovação e qualidade que na altura era completamente desconhecido e mesmo estranho. Todas as iniciativas tinham um pilar principal: determinar indicadores para avaliação do trabalho que se realizava.

Avaliaram-se o número de quedas, o número de ulceras de pressão, o número de recursos à urgência hospitalar, o número de dias de internamento em Hospitais e os custos e as receitas do Lar de idosos. Compararam-se esses números que eram o resultado da intervenção em dois anos feita num Lar com os resultados que existiam dos últimos dez anos de atividade desse Lar.

Concluiu-se de imediato que os resultados eram completamente surpreendentes.

Diminuíram-se em mais de 70% o número de ulceras de pressão, em cerca de 50% o número de quedas, em praticamente 90% o número de recursos às urgências hospitalares e dos dias de internamento em Hospital. Mais que isso: aumentaram as receitas com introdução de novas ofertas e diminuíram significativamente os custos, mesmo sem autonomia funcional nas decisões mais importantes, no planeamento e na estratégia da organização.

Todo o processo está devidamente documentado e talvez neste local de opinião possa vir a ser descrito mas será, como se entende, muito demorado pelo pormenor que encerra cada uma das intervenções em cada um dos indicadores. Mas, no fundo, o Curso de Gestão Organizacional de Lares de Idosos e Casas de Repouso, que a Associação passou a desenvolver, descreve, na maior parte dos casos, os processos introduzidos.

O resultado desta intervenção projetou-nos, primeiro para os fóruns destinados à saúde, na medida em que inicialmente atribuímos este êxito à gestão feita num lar centrada no Enfermeiro. Isso fez-nos vencer vários concursos de pósteres em vários congressos nacionais. Em segundo projetou-nos para a investigação, tendo sido apadrinhados pela Escola Nacional de Saúde Publica e pelo ISCTE de uma forma informal, é certo, mas com toda a relevância que foi atribuída a esse acontecimento. Em terceiro abriu-nos a porta do envelhecimento, demonstrando que é possível transformar os lares de idosos, envelhecer melhor e conseguir oferecer o cuidado mais essencial e o serviço mais fundamental: contribuir para a felicidade das pessoas idosas.

Rapidamente todo este trabalho teve repercussões e replicou-se em vários projetos: numa tese de mestrado que, pela primeira vez em Portugal, determinava os indicadores para avaliar a qualidade do desempenho do enfermeiro em lares de idosos, num projeto aprovado e publicado no Banco Europeu de Inovação em Saúde, na constituição da Associação Amigos da Grande Idade e na promoção do Curso de Gestão Organizacional de Lares de Casas de Repouso que ainda hoje se desenvolve e já formou mais de 1000 pessoas.

A Associação Amigos da Grande Idade veio a ultrapassar todas as expectativas. Quando nasceu teve dois princípios fundamentais: não ser IPSS por não aceitar as obrigações decorrentes desse enquadramento que obrigam a estatutos feitos por corporações com interesses duvidosos e que pretendem apenas viver á custa dos dinheiros públicos e do financiamento descontrolado e muitas vezes escandaloso e desconstruir o discurso dos pobrezinhos, dos carenciados, fugindo à batalha que é a caça aos mais necessitados. A Associação impôs-se como uma entidade com um discurso diferente, revolucionário, visionário e provocador, colocando tudo em questão mesmo que isso colocasse a própria Associação em dificuldades de desenvolvimento.

Partimos do princípio que viver mais anos é uma conquista da humanidade e não deve ser causa de indignidade e razão para justificar distribuidores de peixe que se recusam a fornecer canas de pesca.

Com este discurso e com a convicção de quem pode mudar tudo ou pelo menos contribuir para a mudança conseguimos marcar presença relevante na construção de um envelhecimento mais realizado, mais funcional e mais feliz. Tivemos a oportunidade de atingir alguns fóruns de discussão das questões referentes ao envelhecimento. Chegámos às principais personalidades que discutem estas questões encontrando muita motivação mas também muita resignação e muita confusão. Percebemos cedo que tudo estava para discutir e que tudo necessitava de ser colocado em causa.

Construímos sozinhos, sem qualquer apoio formal ou institucional um dos principais portais de divulgação de opinião, de influência, de estudo e conhecimento. Lançamos uma revista científica sem paranoias próprias do conhecimento superior e inquestionável dando oportunidade a todos, mesmo aos textos mais humildes e simples de chegarem à luz do dia. Uma revista hoje consultada por cerca de 400 pessoas diariamente. Mantivemos uma intensa atividade de formação com o grande êxito do Curso de Gestão Organizacional de Lares de Idosos falando numa linguagem prática assente no conhecimento e na evidencia cientifica mas relacionada sempre com aquilo que necessitam que façamos no terreno, no trabalho diário dentro e fora das instituições. Promovemos formação superior através de Pós Graduações que coordenamos operacionalmente e cientificamente em parceria com entidades de ensino superior. Organizámos dois dos maiores congressos feitos em Portugal sobre envelhecimento com personalidades de todos os quadrantes científicos, políticos, económicos colocando a refletir muitas das vozes nacionais mais conhecidas sobre aquilo que é hoje considerada a maior revolução demográfica da história. Pelo meio participamos em centenas de eventos levando e defendendo sempre a nossa independente opinião, promovemos dezenas de outros eventos no modelo de workshops, jornadas científicas, seminários e reuniões de trabalho. Visitámos periodicamente a Assembleia da Republica encontrando interlocutores em todas as forças politicas ali representadas, editámos muitas centenas de textos, dois livros e participámos noutros tantos de outros autores. Chegámos à Assembleia da República, apresentando formalmente as Recomendações para a Longevidade com a participação da Comissão Social, da Presidência da Assembleia e de todas as forças politicas ali representadas.

Sem querer o trabalho que se iniciou em 2003 num Lar de Idosos lançou esta associação que agora abre também esta oportunidade de todos darem a sua opinião e a verem publicada num portal com mais de 600 visitas diárias em Portugal e no Estrangeiro.

Mas acima de tudo e algo que nunca esquecemos e nunca deixámos de colocar em primeiro lugar, estamos orgulhosos de todo este trabalho que se iniciou com a intervenção num Lar de idosos que hoje marca a diferença e se distingue no país, contribuiu de forma exemplar para que os residentes, trabalhadores e colaboradores desse lar sejam mais felizes, mais realizados e mais convictos de que podemos viver mais anos e melhor durante esses anos. Porque para além de todo o trabalho que possamos realizar em entidades, instituições, academias, institutos, universidades e noutros locais devemos sempre desejar que isso se reflita na qualidade de vida das pessoas idosas que são a nossa base de reflexão e a justificação para os serviços, ofertas e cuidados que promovemos.

Este texto inaugura o meu humilde espaço de opinião no portal da Associação Amigos da Grande Idade.

 

Rui Fontes (rmsfontes@sapo.pt)

Coordenador de Lar de Idosos

Presidente da Associação Amigos da Grande Idade

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Felicidade e Cidadania

Jun 11, 2015

“Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa – salvar a humanidade”

Almada Negreiros

O conceito de cidadania, que remonta à polis grega, remete tanto para a normatividade como para a participação política e social. Associado aos debates sobre a emergência acentuada do individualismo nas sociedades democráticas, assume particular importância perceber quais os valores de cidadania a que os cidadãos dão predominância. Nos dados recolhidos pelo Inquérito Social Europeu2 , sobre o que é que os europeus consideram ser importante para se ser um bom cidadão, os portugueses consideraram muito importante, por esta ordem:

1º “Ter opinião própria independentemente da opinião dos outros” (85,2%);
2º “Ajudar os que estão em pior situação” (85,1%)
3º “Obedecer a todas as leis e regulamentos” (70,9%);
4º “Votar sempre nas eleições” (64,5%);
5º “Trabalhar em organizações de voluntariado“ (53,2%);
6º “Ser uma pessoa politicamente activa” (38,1%).

O padrão de resposta aos seis indicadores é idêntico em todos os países e o Índice sintético de cidadania, que agrega a resposta conjunta aos seis indicadores, coloca Portugal entre os países europeus com pontuações mais elevadas, registando a Espanha, a Bélgica e a República Checa, as mais baixas.

Entre nós, é na região Centro que se regista o valor mais elevado e no Algarve, o mais baixo. Os mais velhos, homens e mulheres, com mais de 50 anos são, também, os que apresentam valores mais elevados do índice de cidadania.

Portugal está entre os países europeus que mais concordam que os “cidadãos deviam ocupar pelo menos algum do seu tempo livre a ajudar os outros” (86,4%)3 . Não obstante, os portugueses são os que mais dizem que “não ajudaram ninguém nos últimos seis meses” (61,5%)4 . Ou seja, invocando o célebre aforismo: “bem prega Frei Tomás: faz o que eu digo, não faças o que eu faço!”. É em Lisboa e Vale do Tejo que a colaboração com organizações de voluntariado e de caridade é mais elevada, no entanto, quando se trata de ajudar activamente alguém, são os algarvios que mais dizem que o fazem regularmente (31,7%).

É interessante verificar a relação entre a importância atribuída aos valores de cidadania e a felicidade:

Importância dada à Cidadania e Felicidade na Europa

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Como evidencia a figura, Portugal situa-se no quadrante “+Cidadania e – Felicidade”, acompanhado pela Itália, Grécia e Polónia. No quadrante dos países “mais felizes” e que dão mais “importância à cidadania”, encontram-se os países escandinavos e o Luxemburgo. Como vimos nas crónicas anteriores, os países escandinavos, para além de registarem os valores mais elevados de felicidade, são também mais confiantes e mais optimistas. Sejam felizes, busquem a vossa felicidade.

Publicada em 01-06-2015 | Diário as beiras – Opinião, pág 25

http://www.asbeiras.pt/2015/06/opiniao-felicidade-e-cidadania/

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