“La confiance que l’on a en soi fait naître la plus grande partie de celle que l’on a aux autres”

La Rochefoucauld

Parafraseando La Rochefoucauld, a falta de confiança no próprio conduz à falta de confiança nos outros. Enquanto “cimento social”, a confiança está na base das sociedades mais prósperas e desenvolvidas. Como têm sublinhado diversos autores, quanto mais as pessoas confiarem, mais colaboram e cooperam entre si e mais fortes são as instituições sociais da sociedade civil. Ao invés, quanto menos os cidadãos confiarem no seu Governo e nas instituições políticas governamentais, menos eficiente será o desempenho do país, com os consequentes reflexos na qualidade de democracia.

A falta de confiança, como se sabe, reflecte-se no reforço de medidas de autoprotecção que, quando têm como alvo os outros, especialmente quando são estrangeiros, conduz ao exacerbamento da xenofobia que neste início do século XXI, com o agravar da crise económica, tem recrudescido na Europa, com alguns países a quererem repor os controlos fronteiriço de pessoas, contrariando o acordo de Schengen. As sociedades mais confiantes são também as mais tolerantes e solidárias e são também aquelas que, na acepção de Putnam, dispõem de mais “capital social”, que é uma consequência de um processo cultural de longo prazo. Em contrapartida, como enfatiza Fukuyama, “se as pessoas não confiam umas nas outras, acabam por só cooperar quando submetidas a um sistema formal de regras e regulamentos, o qual tem de ser negociado, acordado, discutido judicialmente e algumas vezes aplicado por meios coercivos. Ao mesmo tempo, A falta de confiança, também designada na linguagem comum por desconfiança, torna-se um elemento constrangedor da cidadania e, por consequência, do desenvolvimento económico e social. Como bem notou Francis Bacon nos seus Ensaios: “as suspeitas impelem os reis à tirania, os maridos ao ciúme, os sábios à irresolução e à melancolia. São fraquezas não do coração, mas do cérebro” […] O que leva o homem a suspeitar muito é o saber pouco; por isso os homens deveriam dar remédio às suspeitas procurando saber mais, em vez de se
deixarem sufocar por elas”

A desconfiança torna, por conseguinte, as relações sociais mais conflituosas e as pessoas menos felizes, como se observa na figura seguinte:

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Portugal encontra-se entre os países que se sentem menos felizes e menos confiantes.

Publicada em 26-02-2015 | Diário as beiras – Opinião, pág 17
http://www.asbeiras.pt/Edicao_Diaria/diario.php?Link=0017b5a056ea1a3c691412e6fe8989ca%2624567
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