Felicidade e Confiança: uma relação virtuosa

Abr 21, 2015

“La confiance que l’on a en soi fait naître la plus grande partie de celle que l’on a aux autres”

La Rochefoucauld

Parafraseando La Rochefoucauld, a falta de confiança no próprio conduz à falta de confiança nos outros. Enquanto “cimento social”, a confiança está na base das sociedades mais prósperas e desenvolvidas. Como têm sublinhado diversos autores, quanto mais as pessoas confiarem, mais colaboram e cooperam entre si e mais fortes são as instituições sociais da sociedade civil. Ao invés, quanto menos os cidadãos confiarem no seu Governo e nas instituições políticas governamentais, menos eficiente será o desempenho do país, com os consequentes reflexos na qualidade de democracia.

A falta de confiança, como se sabe, reflecte-se no reforço de medidas de autoprotecção que, quando têm como alvo os outros, especialmente quando são estrangeiros, conduz ao exacerbamento da xenofobia que neste início do século XXI, com o agravar da crise económica, tem recrudescido na Europa, com alguns países a quererem repor os controlos fronteiriço de pessoas, contrariando o acordo de Schengen. As sociedades mais confiantes são também as mais tolerantes e solidárias e são também aquelas que, na acepção de Putnam, dispõem de mais “capital social”, que é uma consequência de um processo cultural de longo prazo. Em contrapartida, como enfatiza Fukuyama, “se as pessoas não confiam umas nas outras, acabam por só cooperar quando submetidas a um sistema formal de regras e regulamentos, o qual tem de ser negociado, acordado, discutido judicialmente e algumas vezes aplicado por meios coercivos. Ao mesmo tempo, A falta de confiança, também designada na linguagem comum por desconfiança, torna-se um elemento constrangedor da cidadania e, por consequência, do desenvolvimento económico e social. Como bem notou Francis Bacon nos seus Ensaios: “as suspeitas impelem os reis à tirania, os maridos ao ciúme, os sábios à irresolução e à melancolia. São fraquezas não do coração, mas do cérebro” […] O que leva o homem a suspeitar muito é o saber pouco; por isso os homens deveriam dar remédio às suspeitas procurando saber mais, em vez de se
deixarem sufocar por elas”

A desconfiança torna, por conseguinte, as relações sociais mais conflituosas e as pessoas menos felizes, como se observa na figura seguinte:

opfig3

 

Portugal encontra-se entre os países que se sentem menos felizes e menos confiantes.

Publicada em 26-02-2015 | Diário as beiras – Opinião, pág 17
http://www.asbeiras.pt/Edicao_Diaria/diario.php?Link=0017b5a056ea1a3c691412e6fe8989ca%2624567
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A felicidade tem idade?

Abr 21, 2015

Não importa se a estação do ano muda, se o século vira e se o milénio é outro, se a
idade aumenta; conserve a vontade de viver, não se chega a parte alguma sem ela

Fernando Pessoa, “O mais é nada”

A busca ancestral da “fonte da eterna juventude” teve sempre subjacente a ideia de contrariar o tempo vivido e tornar a juventude eterna. Mas como nunca passou disso – uma busca – uma vez não podemos contrariar o envelhecimento, evitemos ser velhos, pois envelhecer é um privilégio e a alternativa não é algo que se recomende.

Mas será que a idade afecta a nossa percepção de felicidade? E se afecta, como é que afecta?

Um estudo para a Samsung realizado no Reino Unido, em que foram inquiridos 2000 britânicos, mostrou que é aos 35 anos que as pessoas são menos felizes, devido ao stress provocado pelo equilíbrio entre a vida familiar e profissional, nomeadamente no que se refere à criação dos filhos e à progressão na carreira. Ao invés, mostrou também e que é aos 58 anos que as pessoas estão mais satisfeitas com a vida. Embora a “credibilidade científica” destes estudos ofereça muitas reservas, os resultados não surpreendem, pois nesta idade, ao mesmo tempo que diminui a preocupação com a carreira e os cuidados a prestar aos filhos, sobra, mais tempo para o lazer e os amigos. Como notou Bertrand Russel, “o gosto de viver é o segredo da felicidade e do bem-estar”.

Mas a relação entre idade e a felicidade não é a mesma entre os chamados “países ricos” e em Portugal pois, como tem sido demonstrado em muitos estudos neste domínio: “a satisfação das necessidades causa felicidade, enquanto a persistência da sua insatisfação causa infelicidade”. Os portugueses têm mais dificuldade em satisfazer as suas necessidades, como se sabe.

opfig1

Fonte: Inquérito Social Europeu (ESS), 2002 a 2010

Como se observa, a idade parece não ter qualquer impacto na percepção da felicidade na Escandinávia – os países mais felizes da Europa – mas o mesmo não se pode dizer em Portugal onde, sendo menor em todas as fases da vida, decresce com a idade e mais acentuadamente, a partir do fim da chamada vida activa. A esse facto não é alheio que o impacto mais negativo na felicidade seja o sentimento de insegurança económica (medo de não ter dinheiro suficiente para, no futuro, fazer face às necessidades) e mais positivos o nível/qualidade de vida e a saúde. O seguinte quadro, que mostra os contrastes neste domínio, em Portugal e a Escandinávia, permite perceber melhor porque é que os portugueses se avaliam como menos felizes e os mais velhos, ainda menos:

opfig2

Em conclusão, podemos dizer que a felicidade continua a dar sentido à vida humana,
como disse Platão, e isso acontece em todas as idades. Não obstante, como observou
Amartya Sen: “o rabugento homem rico poderá muito bem ser menos feliz do que o
resignado camponês, mas a verdade é que tem um padrão de vida mais elevado do
que ele”. Como diz o povo: é melhor ser rico e ter saúde do que ser pobre e doente.
Comparados com os escandinavos, parece que os portugueses se sentem menos
felizes porque, ao contrário do que é dito pelo governo e ampliado pela comunicação
social, vivem… abaixo das suas necessidades.
Sejam felizes.

Publicada em 26-02-2015 | Diário as beiras: http://www.asbeiras.pt/Edicao_Diaria/diario.php?Link=a9f9f78f4b528e6a2f9cfbdd8451cccc%2624567%2
6CLT0%26TMP10000909%2620150226

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