Felicidade e Escolaridade: estudar compensa

Abr 21, 2015

“Se a educação sozinha não pode transformar a sociedade, tampouco sem ela a sociedade muda.”

Paulo Freire

Embora a escolaridade não seja sinónimo de educação, uma e outra estão estreitamente ligadas, como se sabe. Mais escolaridade pressupõe mais informação e, por conseguinte, mais exigência, quer nos objectivos pessoais, quer na vida em sociedade. Dito de outra forma, as pessoas mais informadas têm maior consciência dos seus limites, sabem mais que nada sabem, parafraseando a frase célebre atribuída a Sócrates, para quem a ignorância era a fronteira do saber e, por conseguinte, quanto maior o saber, maior a ignorância. Nesta perspectiva, a correlação entre a felicidade e a escolaridade deveria apresentar-se como negativa. Mas não é isso que acontece, como mostra a figura seguinte, que correlaciona a felicidade e a escolaridade:

opfig4

A correlação é positiva e, embora seja estatisticamente significativa, é baixa. Tal devese, como revelam os dados que falam por si, ao facto de nem todos os países com média elevada de escolaridade, registarem níveis elevados de felicidade. No entanto, os países “mais felizes” registam, também níveis médios de escolaridade mais elevados.

Como motivo de apreensão dos portugueses, atente-se na posição “isolada” de Portugal. Estando entre os países com um nível de felicidade declarada mais baixa, tendo atrás de si apenas a Grécia, a Hungria, a Ucrânia e a Bulgária, é o país com a média mais baixa de anos de escolaridade concluídos, sendo mesmo o único, entre os 30, com média inferior a 10 anos, quando o valor médio do conjunto é de cerca de 12 anos. Apesar da “paixão pela educação” que caracterizou o consulado de Guterres, o desnível é ainda muito acentuado e a baixa escolaridade não será, certamente, alheia a uma “certa maneira de ser português”, de que a frase “salazarenta” “pobretes mas alegretes” é um exemplo.

Embora, como alguém disse, a estatística seja a forma mais credível de mentir, ajudanos a compreender melhor a realidade, a colocar interrogações e a procurar respostas. É o caso. A baixa correlação entre Felicidade e Escolaridade revela que entre uma e outra há “mediadores” que convém ter presentes. Não nos sendo possível desenvolver aqui pormenorizadamente a sua análise, que será tema das próximas crónicas, saliento apenas que as classes sociais com mais recursos qualificacionais (profissionais e académicos) são as que registam níveis médios de felicidade declarada mais elevados. Também acontece o mesmo com as pessoas cujo rendimento disponível lhes permite viverem confortavelmente, 8,8 (felicidade elevada) contra os 5,3 (felicidade moderada) dos que vivem com dificuldades A média de anos de escolaridade das primeiras, é superior a 13 anos, sendo apenas de cerca de 10 anos entre as últimas. O subtítulo desta crónica – estudar compensa – está assim justificado.

Sejam felizes, busquem a felicidade.

Publicada em 01-04-2015 | Diário as beiras – Opinião, pág 23
http://www.asbeiras.pt/Edicao_Diaria/diario.php?Link=6587c3aa14bf96bab58b53baba0783f7%2624567%26CLT0%26TMP10000909%2620150401

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Felicidade e Confiança: uma relação virtuosa

Abr 21, 2015

“La confiance que l’on a en soi fait naître la plus grande partie de celle que l’on a aux autres”

La Rochefoucauld

Parafraseando La Rochefoucauld, a falta de confiança no próprio conduz à falta de confiança nos outros. Enquanto “cimento social”, a confiança está na base das sociedades mais prósperas e desenvolvidas. Como têm sublinhado diversos autores, quanto mais as pessoas confiarem, mais colaboram e cooperam entre si e mais fortes são as instituições sociais da sociedade civil. Ao invés, quanto menos os cidadãos confiarem no seu Governo e nas instituições políticas governamentais, menos eficiente será o desempenho do país, com os consequentes reflexos na qualidade de democracia.

A falta de confiança, como se sabe, reflecte-se no reforço de medidas de autoprotecção que, quando têm como alvo os outros, especialmente quando são estrangeiros, conduz ao exacerbamento da xenofobia que neste início do século XXI, com o agravar da crise económica, tem recrudescido na Europa, com alguns países a quererem repor os controlos fronteiriço de pessoas, contrariando o acordo de Schengen. As sociedades mais confiantes são também as mais tolerantes e solidárias e são também aquelas que, na acepção de Putnam, dispõem de mais “capital social”, que é uma consequência de um processo cultural de longo prazo. Em contrapartida, como enfatiza Fukuyama, “se as pessoas não confiam umas nas outras, acabam por só cooperar quando submetidas a um sistema formal de regras e regulamentos, o qual tem de ser negociado, acordado, discutido judicialmente e algumas vezes aplicado por meios coercivos. Ao mesmo tempo, A falta de confiança, também designada na linguagem comum por desconfiança, torna-se um elemento constrangedor da cidadania e, por consequência, do desenvolvimento económico e social. Como bem notou Francis Bacon nos seus Ensaios: “as suspeitas impelem os reis à tirania, os maridos ao ciúme, os sábios à irresolução e à melancolia. São fraquezas não do coração, mas do cérebro” […] O que leva o homem a suspeitar muito é o saber pouco; por isso os homens deveriam dar remédio às suspeitas procurando saber mais, em vez de se
deixarem sufocar por elas”

A desconfiança torna, por conseguinte, as relações sociais mais conflituosas e as pessoas menos felizes, como se observa na figura seguinte:

opfig3

 

Portugal encontra-se entre os países que se sentem menos felizes e menos confiantes.

Publicada em 26-02-2015 | Diário as beiras – Opinião, pág 17
http://www.asbeiras.pt/Edicao_Diaria/diario.php?Link=0017b5a056ea1a3c691412e6fe8989ca%2624567
%26CLT0%26TMP10000909%2620150324

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A felicidade tem idade?

Abr 21, 2015

Não importa se a estação do ano muda, se o século vira e se o milénio é outro, se a
idade aumenta; conserve a vontade de viver, não se chega a parte alguma sem ela

Fernando Pessoa, “O mais é nada”

A busca ancestral da “fonte da eterna juventude” teve sempre subjacente a ideia de contrariar o tempo vivido e tornar a juventude eterna. Mas como nunca passou disso – uma busca – uma vez não podemos contrariar o envelhecimento, evitemos ser velhos, pois envelhecer é um privilégio e a alternativa não é algo que se recomende.

Mas será que a idade afecta a nossa percepção de felicidade? E se afecta, como é que afecta?

Um estudo para a Samsung realizado no Reino Unido, em que foram inquiridos 2000 britânicos, mostrou que é aos 35 anos que as pessoas são menos felizes, devido ao stress provocado pelo equilíbrio entre a vida familiar e profissional, nomeadamente no que se refere à criação dos filhos e à progressão na carreira. Ao invés, mostrou também e que é aos 58 anos que as pessoas estão mais satisfeitas com a vida. Embora a “credibilidade científica” destes estudos ofereça muitas reservas, os resultados não surpreendem, pois nesta idade, ao mesmo tempo que diminui a preocupação com a carreira e os cuidados a prestar aos filhos, sobra, mais tempo para o lazer e os amigos. Como notou Bertrand Russel, “o gosto de viver é o segredo da felicidade e do bem-estar”.

Mas a relação entre idade e a felicidade não é a mesma entre os chamados “países ricos” e em Portugal pois, como tem sido demonstrado em muitos estudos neste domínio: “a satisfação das necessidades causa felicidade, enquanto a persistência da sua insatisfação causa infelicidade”. Os portugueses têm mais dificuldade em satisfazer as suas necessidades, como se sabe.

opfig1

Fonte: Inquérito Social Europeu (ESS), 2002 a 2010

Como se observa, a idade parece não ter qualquer impacto na percepção da felicidade na Escandinávia – os países mais felizes da Europa – mas o mesmo não se pode dizer em Portugal onde, sendo menor em todas as fases da vida, decresce com a idade e mais acentuadamente, a partir do fim da chamada vida activa. A esse facto não é alheio que o impacto mais negativo na felicidade seja o sentimento de insegurança económica (medo de não ter dinheiro suficiente para, no futuro, fazer face às necessidades) e mais positivos o nível/qualidade de vida e a saúde. O seguinte quadro, que mostra os contrastes neste domínio, em Portugal e a Escandinávia, permite perceber melhor porque é que os portugueses se avaliam como menos felizes e os mais velhos, ainda menos:

opfig2

Em conclusão, podemos dizer que a felicidade continua a dar sentido à vida humana,
como disse Platão, e isso acontece em todas as idades. Não obstante, como observou
Amartya Sen: “o rabugento homem rico poderá muito bem ser menos feliz do que o
resignado camponês, mas a verdade é que tem um padrão de vida mais elevado do
que ele”. Como diz o povo: é melhor ser rico e ter saúde do que ser pobre e doente.
Comparados com os escandinavos, parece que os portugueses se sentem menos
felizes porque, ao contrário do que é dito pelo governo e ampliado pela comunicação
social, vivem… abaixo das suas necessidades.
Sejam felizes.

Publicada em 26-02-2015 | Diário as beiras: http://www.asbeiras.pt/Edicao_Diaria/diario.php?Link=a9f9f78f4b528e6a2f9cfbdd8451cccc%2624567%2
6CLT0%26TMP10000909%2620150226

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