Os portugueses e a política

Jun 29, 2018

A mesa resplandecia; e as tapeçarias, representando massas de arvoredos, punham em redor como a sombra escura de um retiro silvestre onde, por um capricho, se
tivessem acendido candelabros de prata. Os vinhos saíam da frasqueira preciosa do Ramalhete. De todas as coisas da Terra e do Céu se grulhava com fantasia – menos de «política portuguesa», considerada conversa indecorosa entre pessoas de gosto

Eça de Queiroz (Os Maias)

O interesse pela política é um indicador que funciona como barómetro da preocupação dos cidadãos pela “coisa pública”. Os dados do Inquérito Social Europeu (ESS) 2002-2014, mostram que os portugueses são os europeus que mais dizem que não se interessam por política (38,4%), verificando-se no Algarve o desinteresse mais acentuado (67,6%). Mas, se o desinteresse pela política é um sintoma preocupante, as dificuldades em perceber a política, certamente, não o são menos, pois em concreto pode traduzir-se em tomadas decisão pouco informadas, de que é exemplo o acto de votar. As campanhas eleitorais têm como principal finalidade, como se sabe, convencer os indecisos. O anátema de que os candidatos mentem todos e, quando estão no poder não cumprem as promessas que fizeram, decorre da “impossibilidade” de o fazerem. Mente-se mais quando o público-alvo quer que lhe mintam. Ou seja, um candidato que diga a “verdade” não tem hipóteses de ser eleito, como bem tem demonstrado a ciência política. Advém daí a importância do marketing político que, a exemplo do marketing comercial, pretende “vender” um candidato, exaltando, para o efeito as suas pretensas qualidades, mas escamoteando os seus defeitos. Também neste caso, na Europa é em Portugal que se regista a percentagem mais elevada de inquiridos que dizem que a política lhes parece tão complicada que não percebem verdadeiramente, o que se está a passar (42,8%).
Outro indicador importante para perceber a relação dos cidadãos com a política é a resposta à questão: “De uma forma geral, qual o grau de dificuldade que sente em tomar uma posição acerca de questões políticas?”. Mais uma vez, Portugal regista a percentagem mais elevada dos que dizem que têm dificuldade em tomar uma posição política (52,3%).

É claro que esta relação dos portugueses com a política não pode deixar de produzir efeito na simpatia partidária e no voto. Como notou José Manuel Viegas, ao analisar a abstenção nas eleições legislativas de 2002, a simpatia partidária é um preditor importante e as variáveis com maior peso no acto de votar são: o “interesse pela política”, a “idade”, e a “simpatia partidária”. Os resultados do ESS confirmam aqueles resultados, pois entre os que têm simpatia por um partido apenas 10,7% dizem que não votaram nas últimas eleições nacionais, enquanto nos que não têm, aquele valor ascende a 31,8%.

É assim patente o distanciamento da política por parte dos portugueses. Este distanciamento, como se sabe, condiciona o exercício pleno da cidadania. Alguns autores têm chamado a atenção para o facto de constituir uma ideia adquirida de que a política está em crise, manifestando-se o desinteresse por esta de tal forma, que era possível falar numa tendência para a despolitização, cuja causa mais frequentemente avançada seria o “comportamento dos próprios actores políticos”, nomeadamente, os numerosos escândalos políticos que puseram em causa a sua credibilidade. É o que se pode inferir dos seguintes indicadores de confiança política que, em Portugal, registam os valores médios mais baixos:

Confiança política na Europa*

 

Em suma, os portugueses não se interessam por política, têm dificuldade em descodificar o discurso político e em tomarem decisões políticas. E votam! Como votam? É o que veremos em próximo artigo.

Fonte: European Social Survey 2002-2014 ( www.europeansocialsurvey.org)

Rui Brites 1

Publicado na Revista [Sem]Equívocos, nº6, Primavera 2018


1 Sociólogo e professor universitário (rui.brites@outlook.com)

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Simpatia partidária e Autoposicionamento político

Abr 9, 2018

“Um eleitor que declara o seu voto já não é um simples eleitor, começa a tornar-se um simpatizante… a sua confissão traz já em si um elemento de propaganda; ela aproxima-o igualmente dos outros simpatizantes e cria os primeiros laços duma comunidade”

Maurice Duverger

Os valores sociopolíticos, nomeadamente os que se referem ao interesse pela política, autoposicionamento político e participação política, assumem um papel central na esfera da cidadania activa. Inglehart, que propôs uma taxonomia dos valores sociopolíticos distinguindo dois grupos: “materialistas” e “pós-materialistas”. Associa os primeiros à satisfação das necessidades básicas, ao bem-estar económico e à coesão social e os segundos a preocupações sociais e individuais: estéticas, intelectuais, qualidade de vida e envolvimento nos processos de tomada de decisão no trabalho, nas relações de vizinhança e no sistema político. Salientava o facto de as sociedades ocidentais darem uma prevalência cada vez maior aos valores pós-materialistas, notando que quanto maior for o desenvolvimento sociocultural maior será a saliência deste tipo de valores. A socialização política assume, assim, um papel primordial na formação das crenças e valores promotores de uma cidadania activa e participativa. Se a política é a arte do possível, convém que o “possível” seja exigente. Só o será se os cidadãos tomarem consciência do seu papel de agentes transformadores da sociedade, recusando os “determinismos sociais” patentes nos modelos de sociedade com que amiúde são confrontados. As mudanças sociais e de sociedade registadas ao longo do processo histórico da humanidade são bem o exemplo de que o “que tinha que ser assim e não podia ser de outra maneira”, afinal… “podia ser de outra maneira”..

De acordo com os dados disponibilizados pelo Inquérito Social Europeu entre 2002-2012, cerca de metade dos portugueses com capacidade eleitoral declara que tem simpatia por um partido político. Destes, 44,4% dizem que simpatizam com o PSD,37,7% com o PS, 5,2% com o BE, 3,5% com o CDS e 2,3% com o PC.

Como escreveu algures Eduardo Prado Coelho, e cito de memória: quando alguém diz que já não há razão para distinguir a esquerda da direita, é porque é… de direita. Vem isto a propósito da dicotomia esquerda direita no discurso político, por um lado, e do significado que isso pode ter para o cidadão comum, por outro. Com efeito, quando analisamos a resposta à seguinte questão constante do Inquérito Social Europeu: “Em política é costume falar-se de esquerda e direita. Como é que se posiciona nesta escala, em que 0 representa a posição mais à esquerda e 10 a posição mais à direita?”, os resultados parecem algo desconcertantes. Em termos médios, os portugueses que simpatizam com um partido político autoposicionam-se ao centro (4,7). Os simpatizantes do Partido comunista e do Bloco posicionam-se claramente à esquerda (2,4), os do CDS à direita (7,3), os do PSD ao centro (5) e os do PS ao centro-direita (5,8).

O quadro seguinte mostra bem a vocação de “catch all party” do PS e do PSD. Por seu lado, o CDS assume-se como o partido da direita, dando razão ao que disse a sua líder no último congresso. O PCP e o Bloco disputam os simpatizantes que se posicionam claramente à esquerda.

 

 

 

 

 

 

 

Note-se que estes dados se referem a uma série longa – seis edições do Inquérito Social Europeu, 2002, 2004, 2006, 2008, 2010 e 2012 – com várias eleições legislativas e autárquicas pelo meio, o que permite minimizar os efeitos de conjuntura. No próximo artigo veremos as implicações que a simpatia partidária e o autoposicionamento político têm no voto.

Publicado no Diário As Beiras, 29/03/2018, pág 25.

Rui Brites 1


1 Sociólogo e professor universitário (rui.brites@outlook.com)

 

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Percepções sobre a Justiça

Mar 21, 2018

“A base da sociedade é a justiça; o julgamento constitui a ordem da sociedade: ora o julgamento é a aplicação da justiça”

Aristóteles

A confiança, como têm sublinhado diversos autores, está intimamente ligada ao “capital social” e tem implicações no dia-a-dia das pessoas, reflectindo-se nas atitudes sobre o pagamento de impostos, o envolvimento comunitário, a participação eleitora, etc. Já a falta de confiança produz anomia social, teorizada por Durkheim como ausência de normas sociais e morais que sirvam de “guia” para a sociedade. Quanto menos os cidadãos confiarem nos seus governantes e nas instituições políticas, menos eficiente se tornará o governo e maior será a probabilidade de os cidadãos verem pouca credibilidade no seu sistema político. Para Giddens, a confiança pode definir-se como a segurança na credibilidade de uma pessoa ou na fiabilidade de um sistema. As sociedades mais confiantes são também as mais tolerantes e solidárias. A falta de confiança, também designada na linguagem comum por desconfiança, torna-se assim um elemento constrangedor da cidadania e, por consequência, do desenvolvimento económico e social. Como notou Maquiavel: “os homens são tão simples e tão obedientes às necessidades do momento, que quem engana encontra sempre quem se deixe enganar”.

Entre as instituições democráticas, o Sistema Judicial e o funcionamento da justiça é um dos pilares fundamentais da democracia. É por isso que os dados disponibilizados pelo Inquérito Social Europeu não nos devem deixar descansados, pois os portugueses contam-se entre os europeus que menos confiança têm na justiça. Certamente que estes resultados serão, em grande parte, influenciados pela mediatização da justiça e pela percepção que os portugueses têm de que a justiça é fraca com os fortes e forte com os fracos. Um exemplo: Portugal está classificado no 29º lugar no Índice de Percepção da Corrupção, no entanto, contam-se pelos dedos das mãos os “corruptos” presos.

As penas controversas aplicadas pelos tribunais, que contribuem para a percepção de que a justiça é injusta, também podem explicar a pouca confiança na Justiça. Os casos de violência doméstica que
foram amplamente mediatizadas, também contribuem para isso. Este excerto do famoso acórdão do Tribunal da Relação do Porto: «o adultério da mulher é uma conduta que a sociedade sempre condenou (são as mulheres honestas as primeiras a estigmatizar as adúlteras), e por isso [a sociedade] vê com alguma compreensão a violência exercida pelo homem traído, vexado e humilhado pela mulher». Não surpreende assim que o Presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público tenha afirmado recentemente numa entrevista que “o Ministério Público não está preparado para lidar com a violência doméstica. Lê-se e custa a acreditar.

Os recentes casos de fogo posto, como esta notícia da TVI do passado mês de Julho: «Pena suspensa para incendiário que ateou nove fogos. Arguido estava com pulseira eletrónica e confessou os
factos em tribunal. Justificou-se dizendo que “andava descontrolado” com a separação da mulher. Juízes decidiram dar-lhe “um voto de confiança”», são incompreensíveis para a opinião pública.

Não surpreende assim que cerca de 80% dos portugueses concordem que «Geralmente, os tribunais protegem mais os interesses dos ricos e poderosos e menos os das pessoas comuns» e que «As decisões e acções dos tribunais são indevidamente influenciadas por pressões de partidos e figuras políticas»2. A figura seguinte deve preocupar-nos a todos, salientando-se o facto de que os países que mais confiam na justiça são, também, os que estão melhor posicionados no Índice de corrupção3.

Fonte: European Social Survey 2002-2014 ( www.europeansocialsurvey.org)

Rui Brites 1

Publicado na Revista [Sem]Equívocos, nº5, Inverno 2018: 8 e 9


1 Sociólogo e professor universitário (rui.brites@outlook.com)

2 Dados do European Social Survey, 2010.
3https://www.transparency.org/news/feature/corruption_perceptions_index_2016#table

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Governar deve ser a Arte do Impossível

Out 17, 2017

“A política é a arte do possível. Toda a vida é política”

 Cesar Pavese

Se a política fosse a arte do possível, como disse Pavese, e antes dele Bismark, bastaria eleger o Ministro das Finanças. Mas não é e não posso estar mais em desacordo. A verdadeira política não se pode circunscrever ao possível e deve almejar o impossível. A distinção entre a política como “arte do possível” ou como “arte do impossível” é a mesma que existe entre políticos e estadistas. Os primeiros limitam-se a cumprir o mandato, os segundos mudam a história. Relativamente aos primeiros, Eça, com a sua acutilância verrinosa e desiludido com a política portuguesa, observou que “políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos pelo mesmo motivo”. A limitação de mandatos terá aqui, certamente, um argumento de peso. No entanto, as recandidaturas de alguns “dinossauros” às próximas eleições autárquicas, com base em que têm o dever de continuar a obra que foi interrompida por imperativos legais e não por vontade dos cidadãos, leva-me a pensar que os seus potenciais eleitores discordam da interrupção e, desiludidos com o substituto que elegeram, votarão no candidato que melhor serve os seus interesses. Resta saber de que interesses falamos.
De acordo com o nº 3 do Art. XXI da Declaração Universal dos Direitos do Homem: “A vontade do povo será a base de autoridade do governo; esta vontade será expressa em eleições periódicas e legítimas, por sufrágio universal, por voto secreto ou processo equivalente que assegure a liberdade de voto”. Ou seja, se a política for a arte do possível, convém que o “possível” seja exigente e só o será se os cidadãos tomarem consciência do seu papel de agentes transformadores da sociedade, recusando os “determinismos sociais” patentes nos modelos de sociedade com que amiúde são confrontados. As mudanças sociais e de sociedade registadas ao longo do processo histórico da humanidade são bem o exemplo de que o “que tinha que ser assim e não podia ser de outra maneira”, afinal… “podia ser de outra maneira”. Mas sendo o interesse pela política um indicador que funciona como barómetro da preocupação dos cidadãos pela “coisa pública”, os dados disponibilizados pelo Inquérito Social Europeu no período compreendido entre 2002 e 2014, são bastante preocupantes, uma vez que na Europa os portugueses são os que mais dizem que não têm nenhum interesse pela política 38,4%, o dobro da percentagem média na Europa (19,1%). Na Dinamarca, considerado o país “mais feliz” do mundo, apenas 5,1% dos dinamarqueses dizem que não se interessam pela política. Se juntarmos a isto o facto de os portugueses se situarem entre os europeus que menos confiança têm nos políticos e que mais estão insatisfeitos com a governação, podemos considerar que serão pouco cuidadosos na escolha dos políticos que elegem. Dito de outro modo, se em democracia “a vontade do povo é a base de autoridade do governo”, o governo, bom ou mau, é a expressão do voto dos eleitores. A imagem seguinte mostra a relação entre a confiança nos políticos e a satisfação com a governação:

Fonte: European Social Survey 2002-2014 ( www.europeansocialsurvey.org)

 

A conclusão parece evidente: existe uma relação virtuosa entre o interesse pela política, a confiança nos políticos e a satisfação com a governação. Os portugueses
ficam muito mal posicionados neste conjunto de indicadores. Queixam-se dos políticos, de quem desconfiam mas que elegeram; estão insatisfeitos com a governação que emana das suas escolhas eleitorais e consideram-se apenas moderadamente felizes. José Gil em Portugal, Hoje – O Medo de Existir traça o retrato desta situação singular. Será um atavismo dos portugueses ou é meramente conjuntural? O “mal” parece antigo, a fazer fé neste excerto de Pátria, escrito por Guerra Junqueiro há mais de 100 anos (1896):²

“Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, […] um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; […] Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública […] Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País. A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas. Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar.”

Como se vê, a crítica aos partidos que mina a nossa democracia, não mudou muito em 120 anos, o que me leva a pensar que o problema não está nos políticos mas nos eleitores. Para transformar Portugal, é imperioso que as pessoas acomodadas se transformem em cidadãos incomodados. Só assim é possível alterar a política como “arte do possível” para a política como “arte do impossível”, aumentando a exigência da governação e o bem-estar do povo.

Rui Brites 1

Publicado na Revista [Sem]Equívocos, nº3, Verão 2017: 10-11


1 Sociólogo e professor universitário (rui.brites@outlook.com)

2 Embora pareça tão actual. A crítica aos partidos, que mina a nossa democracia, não mudou muito em 100 anos.

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Ser feliz pode dar trabalho, mas compensa

Jul 10, 2016

“Cada um é tão infeliz quanto acredita sê-lo”

Séneca

Como referi na primeira destas crónicas, falar de felicidade, no seu sentido mais amplo, é falar de bem-estar subjectivo, enquanto tradutor das respostas emocionais das pessoas em domínios como a satisfação com a vida, a saúde e as relações interpessoais, bem como as avaliações que fazem sobre a sociedade e a governação. Ou seja, para entendermos a avaliação que os sujeitos fazem do seu nível de bem-estar, é importante saber como é que avaliam as condições sociais subjacentes, que condicionam o seu espaço de realização pessoal e logo, a sua felicidade. Como disse Marx: Não é a consciência do homem que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que lhe determina a consciência. Noutras palavras, somos aquilo que podemos ser, sem perder de vista que não há determinismos sociais, apenas condicionamentos. É de pequenino que se torce o destino, como canta Sérgio Godinho.

Parece-nos, por conseguinte, interessante perceber quais são as principais diferenças
entre os portugueses que se consideram “infelizes” e “muito felizes”2, no que se refere ao conforto com que vivem, saúde, satisfação com a vida e optimismo. Note-se que, como se observa na figura seguinte, apenas 11,2% dos portugueses se consideram “infelizes”, enquanto mais de metade (56,7%) se consideram “muito felizes”.

Felicidade na Europa

FelicidadeEuropa

Quem são e onde vivem?

QuemSaoEOndeVivem

Comparando os “infelizes” com os “muito felizes”, as diferenças são evidente e claramente favoráveis aos últimos.

Os “mais felizes” são predominantemente: homens, mais novos e mais escolarizados, casados ou em união de facto, vivem no Norte, com algum conforto e boa saúde. Estão muito satisfeitos com a vida e são optimistas.

Nos “infelizes” predominam as mulheres, os mais velhos e menos escolarizados, viúvos, a viverem o Algarve, com dificuldades económicas e saúde razoável. Estão insatisfeitos com a vida e são pessimistas.

A conclusão é evidente, ser feliz compensa!

Sejam felizes e considerem a busca da felicidade o principal desígnio da vossa vida.

Rui Brites 1

Publicada em 06-06-2016 | Diário as Beiras – Opinião, pág 22
http://www.asbeiras.pt/2016/06/opiniao-coluna-da-felicidade-ser-feliz-pode-dar-trabalho-mas-compensa/


1 Sociólogo e professor universitário (rui.brites@outlook.com)

2 0 a 4 e 7 a 10, respectivamente, na escala original: 0=extremamente infeliz; 10=extremamente feliz.

 

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Comparar o incomparável: a propósito do Dia Internacional da Felicidade e do Índice de Felicidade das Nações Unidas

Abr 2, 2016

“Há três tipos de mentiras: as mentiras, as malditas mentiras e as estatísticas”

Mark Twain

O dia Internacional da Felicidade, que se comemora no dia 20 de Março, foi instituído por resolução da Assembleia-Geral das Nações Unidas em Junho de 2012. Aquando da primeira comemoração, em 2013, o Secretário-Geral divulgou a seguinte mensagem:

A busca da felicidade está no centro da ação humana. Pessoas em todo o mundo aspiram a uma vida feliz e gratificante livre de medo e privações, e em harmonia com a natureza.
No entanto, para demasiadas pessoas a viver em situação de pobreza extrema, o material básico para o bem-estar ainda está fora do seu alcance. Para muitas mais pessoas, as crises socioeconómicas recorrentes, a violência e a criminalidade, a degradação ambiental e as crescentes ameaças das mudanças climáticas são uma ameaça sempre presente.

Desde então, as Nações Unidas têm publicado o Relatório Anual da Felicidade no Mundo2. Em 2015 Portugal ocupa a posição 94 entre os 157 países avaliados, à frente da Grécia (99), Albânia (109), Ucrânia (123) e Bulgária (129). A posição relativa de Portugal não se estranha, pois é recorrente. Mas já se estranha o facto de estar atrás de países como o Líbano (93), Kosovo (77) e Somália (76).

De acordo com os autores do relatório, o índice de felicidade traduz a resposta dos inquiridos a uma única pergunta sobre a avaliação que fazem da sua qualidade de vida, medida numa escala que vai de 0 (o pior possível) a 10 (o melhor possível). Consideram nas suas análise que o mesmo é explicado pelo PIB per capita, a expectativa de anos de vida saudável, o apoio social da comunidade, a perceção da corrupção, a liberdade para tomar decisões e a generosidade.

Ora, falar de qualidade de vida, de liberdade, de anos de vida saudável e corrupção no Líbano, Kosovo e Somália, será equivalente a falar do mesmo nos países do Ocidente? Não creio e tenho muitas dúvidas que um somali pense nas mesmas coisas que pensa um português quando é questionado sobre a sua qualidade de vida e lhe pedem para se autoposicionar na escala de resposta.

Então o que é que o Índice compara? Compara a resposta dos inquiridos em contextos profundamente desiguais e, por conseguinte, incomparáveis. Se tivermos em conta a mensagem de Ban-Ki-Moon em 2013, percebemos a patetice da comparação.

É caso para dizer, como alguém disse, que a estatística é a forma mais credível de mentira. Mas não é verdade, não é a estatística que mente, é o seu uso inadequado e muitas vezes manipulado, que é mentiroso. Comparar países em estádios de desenvolvimento económico e social tão díspares, não é legítimo. É o problema dos rankings que, como se sabe, não são objectivos na ordenação mas permitem proceder às comparações que dão jeito. Os coeficientes estatísticos têm uma “história” e, sem conhecer o seu contexto, não têm qualquer validade. Ou seja, o ranking da felicidade tal como é “medido” no Relatório das Nações Unidas, não pode ter qualquer efeito prático, situando-se ao nível dos livros e das palestras sobre auto-ajuda. O “estado da arte” sobre a felicidade expresso no chamado “Relatório da Comissão Stiglitz”3 que tinha como objectivo orientar as políticas públicas no sentido de melhorar o bem-estar subjectivo dos povos, considera as seguintes dimensões como determinantes: “Padrões materiais de vida (rendimento, consumo, e riqueza)”; “Saúde”; “Educação”; “Actividades pessoais, incluindo o trabalho”; “Voz política e governação”; “Conexões e relações sociais”; “Ambiente (condições actuais e futuras)” e “Segurança de natureza económica e física”.

Não obstante, não vão faltar análises e interpretações sobre o mesmo. Pelo que já vi escrito na comunicação social, os opinólogos vão lamentar a descida de Portugal no ranking, pois estava em 88o no ano passado. Entretanto a Finlândia está preocupada pelo facto de os reformados finlandeses escolherem Portugal para gozarem a reforma em vez de optarem por fazê-lo no seu país. Também os reformados franceses, ingleses, alemães, suecos e até dinamarqueses, certamente cansados de serem tão felizes nos seus países, escolhem cada vez mais Portugal para viverem e, porventura, serem menos felizes.

Sejam felizes e considerem a busca da felicidade o principal desígnio da vossa vida.

Rui Brites 1

 

Publicada em 30-03-2016 | Diário as beiras – Opinião, pág 21
http://www.asbeiras.pt/2016/03/opiniao-comparar-o-incomparavel/


1 Sociólogo e professor universitário (rui.brites@outlook.com)

2 Disponível em: ( http://worldhappiness.report/).

2 Disponível em: (http://stiglitz-sen-fitoussi.fr/en/index.htm).

 

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Porque é que os homens são mais felizes do que as mulheres?

Mar 7, 2016

“Entre os méritos do homem e da mulher, considerados no seu justo valor, não há diferenças, ou pelo menos não apresentam as diferenças que a tradição nos ensinou. Para a mulher, como para o homem, o gosto de viver é o segredo da felicidade e do bem-estar”

Bertrand Russel, A Busca da Felicidade

Quando pergunto a mulheres porque é que os homens são mais felizes, a resposta mais habitual é: porque são mais “básicos”, contentam-se com pouco. Quando faço a mesma pergunta aos homens, dizem: porque elas são mais “picuinhas”, preocupam-se com pequenas coisas. Como se pode ver no gráfico seguinte, nem uns nem outros têm razão.

Felicidade na Europa – Gap entre homens e mulheres

(Homens – Mulheres)

GAPEntreHomensEMulheres

Fonte: European Social Survey, 2002-2012

Os homens só são mais felizes do que as mulheres na Lituânia, Espanha, Portugal, Itália, Grécia, Chipre e Ucrânia. A Finlândia regista a maior diferença em favor das mulheres e Portugal a maior em favor dos homens.

Podemos concluir daqui que a maior ou menor felicidade dos homens e das mulheres não é uma questão de género mas de cultura. As diferenças são mínimas na Europa do norte e do Centro, países mais igualitários em menor em Portugal e na Itália, coutadas do “macho latino”, onde as diferenças de felicidade entre homens e mulheres são mais expressivas e favoráveis aos homens.

A tradicional preocupação com o cuidar e a divisão das tarefas domésticas não serão estranhas à posição de Portugal, onde a educação dos rapazes e das raparigas ainda segue padrões sexistas assentes na diferença de género. Um bom exemplo á o que acontece com o tipo de prendas natalícias. Às meninas oferecem-se bonequinhas, cozinhas, etc. e aos meninos, carrinhos, bolas, etc. É como se de muito pequeno se prescrevessem os papéis de género no futuro: elas em “casa” e eles na “rua”.

Segundo informação do Eurobarómetro, Portugal regista uma das maiores diferenças entre homens e mulheres no que concerne à satisfação com a divisão das tarefas domésticas, elas com 63,8% a considerarem-se satisfeitas e eles 91,3%. A percentagem média europeia queda-se pelos 79,9%.

É interessante verificar, ainda, que os europeus consideram, em todos os países, que o tempo passado com a família próxima é agradável e pouco stressante, menos eles do que elas. Tal deve-se, certamente, a que são as mulheres, tanto na Europa como em Portugal, que mais referem que as tarefas domésticas lhes provocam stress. Mas essa percepção não será, certamente, alheia ao facto de as mulheres, em todos os países da UE, ocuparem por semana cerca do dobro do tempo dos homens em tarefas domésticas e cuidados familiares. O gap entre homens e mulheres é comum a todos os países e desfavorável às mulheres, significando, por conseguinte, que elas trabalham, em média, mais horas do que os homens em tarefas domésticas e cuidados familiares. A diferença média no conjunto dos países é de 10,7 horas. Portugal está entre os países com o gap mais elevado, 13,5 horas.

O título desta crónica pretendia ser irónico, pois considero que os homens não são mais felizes do que as mulheres por serem homens, mas por gozarem de alguns “privilégios” sexistas induzidos e mantidos pela reprodução cultural. A igualdade de género é um objectivo muito louvável mas… demora muito tempo. Ocupa mais tempo nos media do que nas verdadeiras intenções de mudança. Embora a tradição já não seja o que era, continua, ainda tem muito peso na mudança das atitudes e valores. Como disse Marx: “Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina a sua consciência”. Somos aquilo que historicamente somos, na acepção hegeliana.

Sejam felizes e considerem a busca da felicidade o principal desígnio da vossa vida.

Rui Brites 1

Publicada em 03-03-2016 | Diário as beiras – Opinião, pág 19
http://www.asbeiras.pt/Edicao_Diaria/diario.php?Link=7859d7c8e01d71ca96299969ef0 2f1bf%2627409%26CLT0%26TMP10000909%2620160303


1 Sociólogo e professor universitário (rui.brites@outlook.com)

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