Percepções sobre a Justiça

Mar 21, 2018

“A base da sociedade é a justiça; o julgamento constitui a ordem da sociedade: ora o julgamento é a aplicação da justiça”

Aristóteles

A confiança, como têm sublinhado diversos autores, está intimamente ligada ao “capital social” e tem implicações no dia-a-dia das pessoas, reflectindo-se nas atitudes sobre o pagamento de impostos, o envolvimento comunitário, a participação eleitora, etc. Já a falta de confiança produz anomia social, teorizada por Durkheim como ausência de normas sociais e morais que sirvam de “guia” para a sociedade. Quanto menos os cidadãos confiarem nos seus governantes e nas instituições políticas, menos eficiente se tornará o governo e maior será a probabilidade de os cidadãos verem pouca credibilidade no seu sistema político. Para Giddens, a confiança pode definir-se como a segurança na credibilidade de uma pessoa ou na fiabilidade de um sistema. As sociedades mais confiantes são também as mais tolerantes e solidárias. A falta de confiança, também designada na linguagem comum por desconfiança, torna-se assim um elemento constrangedor da cidadania e, por consequência, do desenvolvimento económico e social. Como notou Maquiavel: “os homens são tão simples e tão obedientes às necessidades do momento, que quem engana encontra sempre quem se deixe enganar”.

Entre as instituições democráticas, o Sistema Judicial e o funcionamento da justiça é um dos pilares fundamentais da democracia. É por isso que os dados disponibilizados pelo Inquérito Social Europeu não nos devem deixar descansados, pois os portugueses contam-se entre os europeus que menos confiança têm na justiça. Certamente que estes resultados serão, em grande parte, influenciados pela mediatização da justiça e pela percepção que os portugueses têm de que a justiça é fraca com os fortes e forte com os fracos. Um exemplo: Portugal está classificado no 29º lugar no Índice de Percepção da Corrupção, no entanto, contam-se pelos dedos das mãos os “corruptos” presos.

As penas controversas aplicadas pelos tribunais, que contribuem para a percepção de que a justiça é injusta, também podem explicar a pouca confiança na Justiça. Os casos de violência doméstica que
foram amplamente mediatizadas, também contribuem para isso. Este excerto do famoso acórdão do Tribunal da Relação do Porto: «o adultério da mulher é uma conduta que a sociedade sempre condenou (são as mulheres honestas as primeiras a estigmatizar as adúlteras), e por isso [a sociedade] vê com alguma compreensão a violência exercida pelo homem traído, vexado e humilhado pela mulher». Não surpreende assim que o Presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público tenha afirmado recentemente numa entrevista que “o Ministério Público não está preparado para lidar com a violência doméstica. Lê-se e custa a acreditar.

Os recentes casos de fogo posto, como esta notícia da TVI do passado mês de Julho: «Pena suspensa para incendiário que ateou nove fogos. Arguido estava com pulseira eletrónica e confessou os
factos em tribunal. Justificou-se dizendo que “andava descontrolado” com a separação da mulher. Juízes decidiram dar-lhe “um voto de confiança”», são incompreensíveis para a opinião pública.

Não surpreende assim que cerca de 80% dos portugueses concordem que «Geralmente, os tribunais protegem mais os interesses dos ricos e poderosos e menos os das pessoas comuns» e que «As decisões e acções dos tribunais são indevidamente influenciadas por pressões de partidos e figuras políticas»2. A figura seguinte deve preocupar-nos a todos, salientando-se o facto de que os países que mais confiam na justiça são, também, os que estão melhor posicionados no Índice de corrupção3.

Fonte: European Social Survey 2002-2014 ( www.europeansocialsurvey.org)

Rui Brites 1

Publicado na Revista [Sem]Equívocos, nº5, Inverno 2018: 8 e 9


1 Sociólogo e professor universitário (rui.brites@outlook.com)

2 Dados do European Social Survey, 2010.
3https://www.transparency.org/news/feature/corruption_perceptions_index_2016#table

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Governar deve ser a Arte do Impossível

Out 17, 2017

“A política é a arte do possível. Toda a vida é política”

 Cesar Pavese

Se a política fosse a arte do possível, como disse Pavese, e antes dele Bismark, bastaria eleger o Ministro das Finanças. Mas não é e não posso estar mais em desacordo. A verdadeira política não se pode circunscrever ao possível e deve almejar o impossível. A distinção entre a política como “arte do possível” ou como “arte do impossível” é a mesma que existe entre políticos e estadistas. Os primeiros limitam-se a cumprir o mandato, os segundos mudam a história. Relativamente aos primeiros, Eça, com a sua acutilância verrinosa e desiludido com a política portuguesa, observou que “políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos pelo mesmo motivo”. A limitação de mandatos terá aqui, certamente, um argumento de peso. No entanto, as recandidaturas de alguns “dinossauros” às próximas eleições autárquicas, com base em que têm o dever de continuar a obra que foi interrompida por imperativos legais e não por vontade dos cidadãos, leva-me a pensar que os seus potenciais eleitores discordam da interrupção e, desiludidos com o substituto que elegeram, votarão no candidato que melhor serve os seus interesses. Resta saber de que interesses falamos.
De acordo com o nº 3 do Art. XXI da Declaração Universal dos Direitos do Homem: “A vontade do povo será a base de autoridade do governo; esta vontade será expressa em eleições periódicas e legítimas, por sufrágio universal, por voto secreto ou processo equivalente que assegure a liberdade de voto”. Ou seja, se a política for a arte do possível, convém que o “possível” seja exigente e só o será se os cidadãos tomarem consciência do seu papel de agentes transformadores da sociedade, recusando os “determinismos sociais” patentes nos modelos de sociedade com que amiúde são confrontados. As mudanças sociais e de sociedade registadas ao longo do processo histórico da humanidade são bem o exemplo de que o “que tinha que ser assim e não podia ser de outra maneira”, afinal… “podia ser de outra maneira”. Mas sendo o interesse pela política um indicador que funciona como barómetro da preocupação dos cidadãos pela “coisa pública”, os dados disponibilizados pelo Inquérito Social Europeu no período compreendido entre 2002 e 2014, são bastante preocupantes, uma vez que na Europa os portugueses são os que mais dizem que não têm nenhum interesse pela política 38,4%, o dobro da percentagem média na Europa (19,1%). Na Dinamarca, considerado o país “mais feliz” do mundo, apenas 5,1% dos dinamarqueses dizem que não se interessam pela política. Se juntarmos a isto o facto de os portugueses se situarem entre os europeus que menos confiança têm nos políticos e que mais estão insatisfeitos com a governação, podemos considerar que serão pouco cuidadosos na escolha dos políticos que elegem. Dito de outro modo, se em democracia “a vontade do povo é a base de autoridade do governo”, o governo, bom ou mau, é a expressão do voto dos eleitores. A imagem seguinte mostra a relação entre a confiança nos políticos e a satisfação com a governação:

Fonte: European Social Survey 2002-2014 ( www.europeansocialsurvey.org)

 

A conclusão parece evidente: existe uma relação virtuosa entre o interesse pela política, a confiança nos políticos e a satisfação com a governação. Os portugueses
ficam muito mal posicionados neste conjunto de indicadores. Queixam-se dos políticos, de quem desconfiam mas que elegeram; estão insatisfeitos com a governação que emana das suas escolhas eleitorais e consideram-se apenas moderadamente felizes. José Gil em Portugal, Hoje – O Medo de Existir traça o retrato desta situação singular. Será um atavismo dos portugueses ou é meramente conjuntural? O “mal” parece antigo, a fazer fé neste excerto de Pátria, escrito por Guerra Junqueiro há mais de 100 anos (1896):²

“Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, […] um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; […] Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública […] Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País. A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas. Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar.”

Como se vê, a crítica aos partidos que mina a nossa democracia, não mudou muito em 120 anos, o que me leva a pensar que o problema não está nos políticos mas nos eleitores. Para transformar Portugal, é imperioso que as pessoas acomodadas se transformem em cidadãos incomodados. Só assim é possível alterar a política como “arte do possível” para a política como “arte do impossível”, aumentando a exigência da governação e o bem-estar do povo.

Rui Brites 1

Publicado na Revista [Sem]Equívocos, nº3, Verão 2017: 10-11


1 Sociólogo e professor universitário (rui.brites@outlook.com)

2 Embora pareça tão actual. A crítica aos partidos, que mina a nossa democracia, não mudou muito em 100 anos.

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Ser feliz pode dar trabalho, mas compensa

Jul 10, 2016

“Cada um é tão infeliz quanto acredita sê-lo”

Séneca

Como referi na primeira destas crónicas, falar de felicidade, no seu sentido mais amplo, é falar de bem-estar subjectivo, enquanto tradutor das respostas emocionais das pessoas em domínios como a satisfação com a vida, a saúde e as relações interpessoais, bem como as avaliações que fazem sobre a sociedade e a governação. Ou seja, para entendermos a avaliação que os sujeitos fazem do seu nível de bem-estar, é importante saber como é que avaliam as condições sociais subjacentes, que condicionam o seu espaço de realização pessoal e logo, a sua felicidade. Como disse Marx: Não é a consciência do homem que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que lhe determina a consciência. Noutras palavras, somos aquilo que podemos ser, sem perder de vista que não há determinismos sociais, apenas condicionamentos. É de pequenino que se torce o destino, como canta Sérgio Godinho.

Parece-nos, por conseguinte, interessante perceber quais são as principais diferenças
entre os portugueses que se consideram “infelizes” e “muito felizes”2, no que se refere ao conforto com que vivem, saúde, satisfação com a vida e optimismo. Note-se que, como se observa na figura seguinte, apenas 11,2% dos portugueses se consideram “infelizes”, enquanto mais de metade (56,7%) se consideram “muito felizes”.

Felicidade na Europa

FelicidadeEuropa

Quem são e onde vivem?

QuemSaoEOndeVivem

Comparando os “infelizes” com os “muito felizes”, as diferenças são evidente e claramente favoráveis aos últimos.

Os “mais felizes” são predominantemente: homens, mais novos e mais escolarizados, casados ou em união de facto, vivem no Norte, com algum conforto e boa saúde. Estão muito satisfeitos com a vida e são optimistas.

Nos “infelizes” predominam as mulheres, os mais velhos e menos escolarizados, viúvos, a viverem o Algarve, com dificuldades económicas e saúde razoável. Estão insatisfeitos com a vida e são pessimistas.

A conclusão é evidente, ser feliz compensa!

Sejam felizes e considerem a busca da felicidade o principal desígnio da vossa vida.

Rui Brites 1

Publicada em 06-06-2016 | Diário as Beiras – Opinião, pág 22
http://www.asbeiras.pt/2016/06/opiniao-coluna-da-felicidade-ser-feliz-pode-dar-trabalho-mas-compensa/


1 Sociólogo e professor universitário (rui.brites@outlook.com)

2 0 a 4 e 7 a 10, respectivamente, na escala original: 0=extremamente infeliz; 10=extremamente feliz.

 

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Comparar o incomparável: a propósito do Dia Internacional da Felicidade e do Índice de Felicidade das Nações Unidas

Abr 2, 2016

“Há três tipos de mentiras: as mentiras, as malditas mentiras e as estatísticas”

Mark Twain

O dia Internacional da Felicidade, que se comemora no dia 20 de Março, foi instituído por resolução da Assembleia-Geral das Nações Unidas em Junho de 2012. Aquando da primeira comemoração, em 2013, o Secretário-Geral divulgou a seguinte mensagem:

A busca da felicidade está no centro da ação humana. Pessoas em todo o mundo aspiram a uma vida feliz e gratificante livre de medo e privações, e em harmonia com a natureza.
No entanto, para demasiadas pessoas a viver em situação de pobreza extrema, o material básico para o bem-estar ainda está fora do seu alcance. Para muitas mais pessoas, as crises socioeconómicas recorrentes, a violência e a criminalidade, a degradação ambiental e as crescentes ameaças das mudanças climáticas são uma ameaça sempre presente.

Desde então, as Nações Unidas têm publicado o Relatório Anual da Felicidade no Mundo2. Em 2015 Portugal ocupa a posição 94 entre os 157 países avaliados, à frente da Grécia (99), Albânia (109), Ucrânia (123) e Bulgária (129). A posição relativa de Portugal não se estranha, pois é recorrente. Mas já se estranha o facto de estar atrás de países como o Líbano (93), Kosovo (77) e Somália (76).

De acordo com os autores do relatório, o índice de felicidade traduz a resposta dos inquiridos a uma única pergunta sobre a avaliação que fazem da sua qualidade de vida, medida numa escala que vai de 0 (o pior possível) a 10 (o melhor possível). Consideram nas suas análise que o mesmo é explicado pelo PIB per capita, a expectativa de anos de vida saudável, o apoio social da comunidade, a perceção da corrupção, a liberdade para tomar decisões e a generosidade.

Ora, falar de qualidade de vida, de liberdade, de anos de vida saudável e corrupção no Líbano, Kosovo e Somália, será equivalente a falar do mesmo nos países do Ocidente? Não creio e tenho muitas dúvidas que um somali pense nas mesmas coisas que pensa um português quando é questionado sobre a sua qualidade de vida e lhe pedem para se autoposicionar na escala de resposta.

Então o que é que o Índice compara? Compara a resposta dos inquiridos em contextos profundamente desiguais e, por conseguinte, incomparáveis. Se tivermos em conta a mensagem de Ban-Ki-Moon em 2013, percebemos a patetice da comparação.

É caso para dizer, como alguém disse, que a estatística é a forma mais credível de mentira. Mas não é verdade, não é a estatística que mente, é o seu uso inadequado e muitas vezes manipulado, que é mentiroso. Comparar países em estádios de desenvolvimento económico e social tão díspares, não é legítimo. É o problema dos rankings que, como se sabe, não são objectivos na ordenação mas permitem proceder às comparações que dão jeito. Os coeficientes estatísticos têm uma “história” e, sem conhecer o seu contexto, não têm qualquer validade. Ou seja, o ranking da felicidade tal como é “medido” no Relatório das Nações Unidas, não pode ter qualquer efeito prático, situando-se ao nível dos livros e das palestras sobre auto-ajuda. O “estado da arte” sobre a felicidade expresso no chamado “Relatório da Comissão Stiglitz”3 que tinha como objectivo orientar as políticas públicas no sentido de melhorar o bem-estar subjectivo dos povos, considera as seguintes dimensões como determinantes: “Padrões materiais de vida (rendimento, consumo, e riqueza)”; “Saúde”; “Educação”; “Actividades pessoais, incluindo o trabalho”; “Voz política e governação”; “Conexões e relações sociais”; “Ambiente (condições actuais e futuras)” e “Segurança de natureza económica e física”.

Não obstante, não vão faltar análises e interpretações sobre o mesmo. Pelo que já vi escrito na comunicação social, os opinólogos vão lamentar a descida de Portugal no ranking, pois estava em 88o no ano passado. Entretanto a Finlândia está preocupada pelo facto de os reformados finlandeses escolherem Portugal para gozarem a reforma em vez de optarem por fazê-lo no seu país. Também os reformados franceses, ingleses, alemães, suecos e até dinamarqueses, certamente cansados de serem tão felizes nos seus países, escolhem cada vez mais Portugal para viverem e, porventura, serem menos felizes.

Sejam felizes e considerem a busca da felicidade o principal desígnio da vossa vida.

Rui Brites 1

 

Publicada em 30-03-2016 | Diário as beiras – Opinião, pág 21
http://www.asbeiras.pt/2016/03/opiniao-comparar-o-incomparavel/


1 Sociólogo e professor universitário (rui.brites@outlook.com)

2 Disponível em: ( http://worldhappiness.report/).

2 Disponível em: (http://stiglitz-sen-fitoussi.fr/en/index.htm).

 

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Porque é que os homens são mais felizes do que as mulheres?

Mar 7, 2016

“Entre os méritos do homem e da mulher, considerados no seu justo valor, não há diferenças, ou pelo menos não apresentam as diferenças que a tradição nos ensinou. Para a mulher, como para o homem, o gosto de viver é o segredo da felicidade e do bem-estar”

Bertrand Russel, A Busca da Felicidade

Quando pergunto a mulheres porque é que os homens são mais felizes, a resposta mais habitual é: porque são mais “básicos”, contentam-se com pouco. Quando faço a mesma pergunta aos homens, dizem: porque elas são mais “picuinhas”, preocupam-se com pequenas coisas. Como se pode ver no gráfico seguinte, nem uns nem outros têm razão.

Felicidade na Europa – Gap entre homens e mulheres

(Homens – Mulheres)

GAPEntreHomensEMulheres

Fonte: European Social Survey, 2002-2012

Os homens só são mais felizes do que as mulheres na Lituânia, Espanha, Portugal, Itália, Grécia, Chipre e Ucrânia. A Finlândia regista a maior diferença em favor das mulheres e Portugal a maior em favor dos homens.

Podemos concluir daqui que a maior ou menor felicidade dos homens e das mulheres não é uma questão de género mas de cultura. As diferenças são mínimas na Europa do norte e do Centro, países mais igualitários em menor em Portugal e na Itália, coutadas do “macho latino”, onde as diferenças de felicidade entre homens e mulheres são mais expressivas e favoráveis aos homens.

A tradicional preocupação com o cuidar e a divisão das tarefas domésticas não serão estranhas à posição de Portugal, onde a educação dos rapazes e das raparigas ainda segue padrões sexistas assentes na diferença de género. Um bom exemplo á o que acontece com o tipo de prendas natalícias. Às meninas oferecem-se bonequinhas, cozinhas, etc. e aos meninos, carrinhos, bolas, etc. É como se de muito pequeno se prescrevessem os papéis de género no futuro: elas em “casa” e eles na “rua”.

Segundo informação do Eurobarómetro, Portugal regista uma das maiores diferenças entre homens e mulheres no que concerne à satisfação com a divisão das tarefas domésticas, elas com 63,8% a considerarem-se satisfeitas e eles 91,3%. A percentagem média europeia queda-se pelos 79,9%.

É interessante verificar, ainda, que os europeus consideram, em todos os países, que o tempo passado com a família próxima é agradável e pouco stressante, menos eles do que elas. Tal deve-se, certamente, a que são as mulheres, tanto na Europa como em Portugal, que mais referem que as tarefas domésticas lhes provocam stress. Mas essa percepção não será, certamente, alheia ao facto de as mulheres, em todos os países da UE, ocuparem por semana cerca do dobro do tempo dos homens em tarefas domésticas e cuidados familiares. O gap entre homens e mulheres é comum a todos os países e desfavorável às mulheres, significando, por conseguinte, que elas trabalham, em média, mais horas do que os homens em tarefas domésticas e cuidados familiares. A diferença média no conjunto dos países é de 10,7 horas. Portugal está entre os países com o gap mais elevado, 13,5 horas.

O título desta crónica pretendia ser irónico, pois considero que os homens não são mais felizes do que as mulheres por serem homens, mas por gozarem de alguns “privilégios” sexistas induzidos e mantidos pela reprodução cultural. A igualdade de género é um objectivo muito louvável mas… demora muito tempo. Ocupa mais tempo nos media do que nas verdadeiras intenções de mudança. Embora a tradição já não seja o que era, continua, ainda tem muito peso na mudança das atitudes e valores. Como disse Marx: “Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina a sua consciência”. Somos aquilo que historicamente somos, na acepção hegeliana.

Sejam felizes e considerem a busca da felicidade o principal desígnio da vossa vida.

Rui Brites 1

Publicada em 03-03-2016 | Diário as beiras – Opinião, pág 19
http://www.asbeiras.pt/Edicao_Diaria/diario.php?Link=7859d7c8e01d71ca96299969ef0 2f1bf%2627409%26CLT0%26TMP10000909%2620160303


1 Sociólogo e professor universitário (rui.brites@outlook.com)

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A Felicidade depois dos 60 anos

Fev 2, 2016

“[…] I could be handy, mending a fuse/When your lights have gone/You can
knit a sweater by the fireside/Sunday mornings go for a ride/Doing the
garden, digging the weeds/Who could ask for more?/Will you still need me,
will you still feed me/When I’m sixty-four?”2

The Beatles (When I’m sixty-four?)

Sempre gostei muito desta canção dos Beatles e, quando a ouvi pela primeira vez, teria os meus 15 anos, pensei que seria muito velho quando tivesse 64 anos. Felizmente estava enganado, pois vou fazer 64 anos este ano e não me sinto nada velho. As coisas mudaram muito nos últimos 40 anos e os 64 de então não são os 64 de agora. Creio que se os Beatles escrevessem a canção agora, mudariam os 64 para 84 e quando eu fizer 84, direi que mudariam para os 94. Envelhecer sem ficar velho é um grande privilégio, só acessível aos que buscam a sua felicidade, independentemente da idade. Ser velho, é na sua essência, deixar de desejar e quem busca a felicidade, deseja sempre ser mais feliz.

Vem isto a propósito da minha última crónica, publicada em Dezembro, sobre “as curvas da felicidade”3, onde mostrava que o pico mínimo da felicidade ocorria entre os 51 e os 60 anos. Mas enquanto nos países escandinavos – mais felizes – e na Europa do norte e do centro, a felicidade aumentava até aos 70 anos, superando mesmo os valores dos mais novos, em Portugal mantinha-se praticamente estável até aos 60 anos e a partir daí descia abruptamente. Muita gente me contactou, então, para saber o que é que devia fazer depois dos 60 anos, para ser feliz. Como não gosto de emitir opiniões baseadas no que é que eu acho – como é apanágio de tantos comentadores da nossa praça – fui “perguntar” ao Inquérito Social Europeu como eram os portugueses mais felizes, com mais de 60 anos.

A primeira constatação é interessante e permite ser optimista. Com efeito, os dados mostram que a percepção da felicidade decresce com a idade, mas depois dos 60 anos, 44% dos portugueses ainda se consideram muito felizes4 e são estes, apenas estes, que me interessa conhecer melhor.

Felicidade em Portugal, por escalão etário.

FelicidadeEmPortugal

 Fonte: European Social Survey, – Portugal 2002-2012 (N=12 463)


Retrato sociológico dos portugueses mais felizes, com mais de 60 anos

A maioria é do sexo feminino (54,4%); vive na Região Norte (40,2%); é casada (76,7%); tem baixa escolaridade (73,2% têm apenas até 4 anos de escolaridade concluídos); está reformada (72,6%); e considera que o rendimento do agregado familiar “dá para viver” (53,7%).

Relativamente à religião, a maioria diz que é católico (96,9%), participa em serviços religiosos pelo menos pelo menos uma vez por semana (36%) e reza todos os dias (48,2%).

Em termos políticos, a maioria auto posiciona-se politicamente ao centro-direita/direita (42,6%), não se interessa por política (36,8%), vota (85,5%) e simpatiza com um partido político (64,3%). O PSD (46,8%) e o PS (41,1%) são os partidos com que mais simpatizam. Não confiam na Assembleia da República (57,1%), na Justiça (56,6%), nos Políticos (80%) e nos Partidos políticos (80,1%), mas confiam na Polícia (76%). Estão insatisfeitos com o Governo (766,3%) e com o estado da Economia (79,6%), mas estão satisfeitos com o funcionamento da Democracia (52,2%). Avaliam como mau o estado da Educação (50,3%) e dos Serviços de saúde (51,2%).

Consideram que o seu estado de saúde é razoável (50,7%) e 32,2% dizem que é bom. Estão satisfeitos com a sua vida (74,6%) e são optimistas relativamente ao futuro (62%).

Cabe agora ao leitor a comparação de si próprio com este “retrato” e tirar as devidas ilações. Eu já o fiz e, sinceramente, não me revejo minimamente nos traços dominantes aqui apresentados, embora sejam muito mais “simpáticos” do que os dos infelizes, de que tratarei em próxima crónica. Mas considero-me muito feliz. Ou seja, como diz o povo: não há regra sem excepção. Serei uma excepção e essa percepção contribui para a minha auto-estima e a minha felicidade.

Sejam felizes, busquem a vossa felicidade e não deixem de desejar.

Rui Brites 1

 

Publicada em 29-01-2016 | Diário as beiras – Opinião, pág 17

http://www.asbeiras.pt/Edicao_Diaria/diario.php?Link=5e790ba9f43160f14a6c8bb335a38995%2627409%26CLT0%26TMP10000909%2620160129


1 Sociólogo e professor universitário (rui.brites@outlook.com)

2 https://www.youtube.com/watch?v=vAzaOZfgf0M

http://www.asbeiras.pt/Edicao_Diaria/diario.php?Link=728c9d165930656105aeda48401eedb6%2624567%26CLT0%26TMP10000909%2620151228

4 Saliente-se que são cerca de 87% na Escandinávia e 80% na Europa do norte e do centro.

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Os portugueses são felizes, mas alguns são mais felizes do que outros

Set 10, 2015

“Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros”
George Orwell

Socorro-me da célebre frase de Orwell para ilustrar a “distribuição” desigual da felicidade em Portugal. Com efeito, embora a sua busca seja um desígnio individual, nem todos têm as mesmas condições para prosseguir na sua senda. O local onde se vive e trabalha, o sexo, a idade, a escolaridade e a classe social, embora não sejam determinantes na percepção da felicidade, são condicionantes que devem ser tidas em conta. Assim, parafraseando a frase de Orwell, direi que os portugueses são felizes, mas alguns são mais felizes do que outros. Senão vejamos.

A média da felicidade dos portugueses, numa escala de 0 a 10, em que 0 significa “extremamente infeliz” e 10 “extremamente feliz”, é 6,63 e a sua distribuição é a seguinte:

Felicidade em Portugal

felicidade1

Como se observa, apenas 11,2% se consideram infelizes, contra os 73,5% que se dizem felizes. No meio há 15,4% que não se consideram felizes nem infelizes.

Tendo como referência a média e o desvio em relação à média da felicidade2, podemos concluir que os portugueses mais felizes vivem na região norte (6,9) e os menos felizes, no Algarve (5,7). O Centro (6,6), Lisboa e Vale do Tejo (6,5) e o Alentejo (6,5), apresentam valores médios em torno da média total (6,63). É em Lisboa e Vale do Tejo que se observa a maior desigualdade da distribuição e no Centro a menor.

felicidade2

Pode parecer estranho que os algarvios se considerem menos felizes, mas não é, pois temos que levar em conta que nas perguntas de auto-classificação, como é o caso, presentes nos inquéritos por questionário, os inquiridos procedem a uma comparação social com os outros que lhe estão próximos, para responderem. No caso do Algarve, as respostas sofrem, certamente, da comparação dos inquiridos com os turistas “mais ricos” da Europa.

Os resultados por sexo, idade, escolaridade e classe social, permitem-nos concluir que, em termos de felicidade alguns portugueses são mais felizes do que outros. Os mais felizes, com níveis de felicidade superiores à média total são: homens (6,8)3, mais novos (7,35), mais escolarizados (7,15) e Profissionais técnicos e de enquadramento (7,04).

felicidade3

No regresso das férias, pensem nisto e sejam felizes, busquem a vossa felicidade.

Publicada em 04-07-2015 | Diário as beiras – Opinião, pág 16

http://www.asbeiras.pt/Edicao_Diaria/diario.php?Link=f64e19ec1ef4f55c122d58b39a36629c%2624567%26CLT0%26TMP1000090 9%2620150904

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