“Um eleitor que declara o seu voto já não é um simples eleitor, começa a tornar-se um simpatizante… a sua confissão traz já em si um elemento de propaganda; ela aproxima-o igualmente dos outros simpatizantes e cria os primeiros laços duma comunidade”

Maurice Duverger

Os valores sociopolíticos, nomeadamente os que se referem ao interesse pela política, autoposicionamento político e participação política, assumem um papel central na esfera da cidadania activa. Inglehart, que propôs uma taxonomia dos valores sociopolíticos distinguindo dois grupos: “materialistas” e “pós-materialistas”. Associa os primeiros à satisfação das necessidades básicas, ao bem-estar económico e à coesão social e os segundos a preocupações sociais e individuais: estéticas, intelectuais, qualidade de vida e envolvimento nos processos de tomada de decisão no trabalho, nas relações de vizinhança e no sistema político. Salientava o facto de as sociedades ocidentais darem uma prevalência cada vez maior aos valores pós-materialistas, notando que quanto maior for o desenvolvimento sociocultural maior será a saliência deste tipo de valores. A socialização política assume, assim, um papel primordial na formação das crenças e valores promotores de uma cidadania activa e participativa. Se a política é a arte do possível, convém que o “possível” seja exigente. Só o será se os cidadãos tomarem consciência do seu papel de agentes transformadores da sociedade, recusando os “determinismos sociais” patentes nos modelos de sociedade com que amiúde são confrontados. As mudanças sociais e de sociedade registadas ao longo do processo histórico da humanidade são bem o exemplo de que o “que tinha que ser assim e não podia ser de outra maneira”, afinal… “podia ser de outra maneira”..

De acordo com os dados disponibilizados pelo Inquérito Social Europeu entre 2002-2012, cerca de metade dos portugueses com capacidade eleitoral declara que tem simpatia por um partido político. Destes, 44,4% dizem que simpatizam com o PSD,37,7% com o PS, 5,2% com o BE, 3,5% com o CDS e 2,3% com o PC.

Como escreveu algures Eduardo Prado Coelho, e cito de memória: quando alguém diz que já não há razão para distinguir a esquerda da direita, é porque é… de direita. Vem isto a propósito da dicotomia esquerda direita no discurso político, por um lado, e do significado que isso pode ter para o cidadão comum, por outro. Com efeito, quando analisamos a resposta à seguinte questão constante do Inquérito Social Europeu: “Em política é costume falar-se de esquerda e direita. Como é que se posiciona nesta escala, em que 0 representa a posição mais à esquerda e 10 a posição mais à direita?”, os resultados parecem algo desconcertantes. Em termos médios, os portugueses que simpatizam com um partido político autoposicionam-se ao centro (4,7). Os simpatizantes do Partido comunista e do Bloco posicionam-se claramente à esquerda (2,4), os do CDS à direita (7,3), os do PSD ao centro (5) e os do PS ao centro-direita (5,8).

O quadro seguinte mostra bem a vocação de “catch all party” do PS e do PSD. Por seu lado, o CDS assume-se como o partido da direita, dando razão ao que disse a sua líder no último congresso. O PCP e o Bloco disputam os simpatizantes que se posicionam claramente à esquerda.

 

 

 

 

 

 

 

Note-se que estes dados se referem a uma série longa – seis edições do Inquérito Social Europeu, 2002, 2004, 2006, 2008, 2010 e 2012 – com várias eleições legislativas e autárquicas pelo meio, o que permite minimizar os efeitos de conjuntura. No próximo artigo veremos as implicações que a simpatia partidária e o autoposicionamento político têm no voto.

Publicado no Diário As Beiras, 29/03/2018, pág 25.

Rui Brites 1


1 Sociólogo e professor universitário (rui.brites@outlook.com)