A Associação Amigos da Grande Idade completou agora dez anos de existência. É muito jovem comparada com as grandes corporações que tratam de assuntos do envelhecimento.
Desde cedo compreendemos que esta dedicação a uma área com tão pouco mediatismo e até incomodativa para a grande maioria das pessoas não teria grandes compensações e não seria fácil de manter. Uma convicção forte e uma gratidão por parte das pessoas idosas que fomos encontrando compensaram até hoje essa dificuldade.
Estamos numa altura crucial para o futuro do envelhecimento em Portugal e até na Europa e no Mundo. Temos rapidamente de definir prioridades e conceitos e deixar de esconder incapacidades por detrás de confusões que teimam propositadamente em manter-se.
A grande decisão é percebermos de que envelhecimento queremos tratar, cuidar, reflectir nos próximos anos. Porque há mais que um envelhecimento e isso faz toda a diferença.
Há o envelhecimento que muitos gostam e decidiram investir as suas capacidades, o seu trabalho, empenhando-se em projectos extraordinários e criativos e o envelhecimento das pessoas idosas reais, escondido dentro de casas sem ninguém, em lares não fiscalizados e nunca avaliados, mesmo sendo legais. São dois envelhecimentos distintos e que requerem honestidade quando tratados.
A Associação nasceu e cresceu nos anos do envelhecimento activo, nos anos das cidades amigas das pessoas idosas, nos anos dos velhos saudáveis e das grandes iniciativas nacionais e internacionais. Assistiu desde esses anos até hoje a um processo em que cada vez se baixa mais a idade do envelhecimento, chegando-se hoje a ter projectos destinados a pessoas idosas a partir com 55 anos!
Mas a Associação, porque também teve ai a sua origem, nunca deixou de reflectir sobre o envelhecimento institucionalizado, o verdadeiro envelhecimento que é preocupante para as sociedades e que muito diz do desenvolvimento, dignidade, respeito por parte da sociedade, que pode medir qualidade de vida de um País.
O envelhecimento só é fenómeno político, social e económico quando se traduz em alterações nessas áreas com implicações para toda a sociedade. Ora as pessoas com 55 anos o mais que podem ser é desempregados não jovens e criam de facto um problema para a sociedade mas que não deve ser confundido com o fenómeno do envelhecimento. Que culpa tem o envelhecimento das sociedades (determinado muito pela diminuição dos nascimentos) em que o mercado de trabalho não goste de pessoas que passam a adolescência?
Não, o envelhecimento traz na verdade dificuldades para a sociedade e o seu equilíbrio mas é porque se aumentaram os anos de vida sem qualidade desses anos e aumentando anos de doença. Em Portugal.
O que muito diferencia o norte do sul da europa são os anos de vida saudável depois dos 65 anos. Em Portugal são menos de metade do que em países do norte da Europa e são esses anos que custam a suportar à sociedade. Nenhum velho gasta mais dinheiro à sociedade só por ser velho. Gasta porque em Portugal ser velho é ser doente e dependente.
Estamos assim perante o maior desafio dos sistemas de suade e sociai. Um desafio com muitas semelhanças com o desafio com que nos deparámos nos anos seguintes ao 25 de Abril com a área das crianças e da mortalidade infantil.
Nessa altura foi feito um programa nacional que indicava apenas um compromisso e uma intervenção: a prevenção.
Ganhámos esse desafio e custa a crer que ainda não se tenha concluído que para o desafio do envelhecimento também seja essa a solução: a prevenção.
É este o desafio que deixo a todos, por agora, para reflectirem.