“A política é a arte do possível. Toda a vida é política”

 Cesar Pavese

Se a política fosse a arte do possível, como disse Pavese, e antes dele Bismark, bastaria eleger o Ministro das Finanças. Mas não é e não posso estar mais em desacordo. A verdadeira política não se pode circunscrever ao possível e deve almejar o impossível. A distinção entre a política como “arte do possível” ou como “arte do impossível” é a mesma que existe entre políticos e estadistas. Os primeiros limitam-se a cumprir o mandato, os segundos mudam a história. Relativamente aos primeiros, Eça, com a sua acutilância verrinosa e desiludido com a política portuguesa, observou que “políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos pelo mesmo motivo”. A limitação de mandatos terá aqui, certamente, um argumento de peso. No entanto, as recandidaturas de alguns “dinossauros” às próximas eleições autárquicas, com base em que têm o dever de continuar a obra que foi interrompida por imperativos legais e não por vontade dos cidadãos, leva-me a pensar que os seus potenciais eleitores discordam da interrupção e, desiludidos com o substituto que elegeram, votarão no candidato que melhor serve os seus interesses. Resta saber de que interesses falamos.
De acordo com o nº 3 do Art. XXI da Declaração Universal dos Direitos do Homem: “A vontade do povo será a base de autoridade do governo; esta vontade será expressa em eleições periódicas e legítimas, por sufrágio universal, por voto secreto ou processo equivalente que assegure a liberdade de voto”. Ou seja, se a política for a arte do possível, convém que o “possível” seja exigente e só o será se os cidadãos tomarem consciência do seu papel de agentes transformadores da sociedade, recusando os “determinismos sociais” patentes nos modelos de sociedade com que amiúde são confrontados. As mudanças sociais e de sociedade registadas ao longo do processo histórico da humanidade são bem o exemplo de que o “que tinha que ser assim e não podia ser de outra maneira”, afinal… “podia ser de outra maneira”. Mas sendo o interesse pela política um indicador que funciona como barómetro da preocupação dos cidadãos pela “coisa pública”, os dados disponibilizados pelo Inquérito Social Europeu no período compreendido entre 2002 e 2014, são bastante preocupantes, uma vez que na Europa os portugueses são os que mais dizem que não têm nenhum interesse pela política 38,4%, o dobro da percentagem média na Europa (19,1%). Na Dinamarca, considerado o país “mais feliz” do mundo, apenas 5,1% dos dinamarqueses dizem que não se interessam pela política. Se juntarmos a isto o facto de os portugueses se situarem entre os europeus que menos confiança têm nos políticos e que mais estão insatisfeitos com a governação, podemos considerar que serão pouco cuidadosos na escolha dos políticos que elegem. Dito de outro modo, se em democracia “a vontade do povo é a base de autoridade do governo”, o governo, bom ou mau, é a expressão do voto dos eleitores. A imagem seguinte mostra a relação entre a confiança nos políticos e a satisfação com a governação:

Fonte: European Social Survey 2002-2014 ( www.europeansocialsurvey.org)

 

A conclusão parece evidente: existe uma relação virtuosa entre o interesse pela política, a confiança nos políticos e a satisfação com a governação. Os portugueses
ficam muito mal posicionados neste conjunto de indicadores. Queixam-se dos políticos, de quem desconfiam mas que elegeram; estão insatisfeitos com a governação que emana das suas escolhas eleitorais e consideram-se apenas moderadamente felizes. José Gil em Portugal, Hoje – O Medo de Existir traça o retrato desta situação singular. Será um atavismo dos portugueses ou é meramente conjuntural? O “mal” parece antigo, a fazer fé neste excerto de Pátria, escrito por Guerra Junqueiro há mais de 100 anos (1896):²

“Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, […] um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; […] Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública […] Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País. A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas. Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar.”

Como se vê, a crítica aos partidos que mina a nossa democracia, não mudou muito em 120 anos, o que me leva a pensar que o problema não está nos políticos mas nos eleitores. Para transformar Portugal, é imperioso que as pessoas acomodadas se transformem em cidadãos incomodados. Só assim é possível alterar a política como “arte do possível” para a política como “arte do impossível”, aumentando a exigência da governação e o bem-estar do povo.

Rui Brites 1

Publicado na Revista [Sem]Equívocos, nº3, Verão 2017: 10-11


1 Sociólogo e professor universitário (rui.brites@outlook.com)

2 Embora pareça tão actual. A crítica aos partidos, que mina a nossa democracia, não mudou muito em 100 anos.