Entrevista ao Hospital do Futuro
1. Relativamente ao percurso da AAGI, na área do envelhecimento em Portugal, quais foram as principais actividades desenvolvidas até à data para tentar atenuar os problemas da grande idade?
A Associação Amigos da Grande Idade – Inovação e Desenvolvimento (AAGI-ID) nasceu com o objectivo de influenciar e contribuir para a mudança da imagem da sociedade em relação às pessoas com mais de 65 anos de idade. Neste sentido, foram eleitas quatro áreas de intervenção: ao nível da formação e influência de decisores técnicos e presidentes das organizações de prestação de cuidados a pessoas com mais de 65 anos de idade; da investigação; ao nível da reflexão do conhecimento; e ao nível da influência das políticas futuras para o envelhecimento em Portugal.
No nosso País, existe uma ideia enraizada de desenvolvimento de cuidados caritativos a pessoas com mais de 65 anos de idade, que têm impedido o desenvolvimento na maioria dos casos de serviços de excelência ao nível dos Cuidados de Longa Duração (lares de idosos, unidades de cuidados continuados, misericórdias, IPSS, cuidados domiciliários e lares para pessoas autónomas e independentes).
Assim, a AAGI-ID tem desenvolvido formação específica ao nível dos decisores das organizações de Cuidados de Longa Duração (lares de idosos, unidades de cuidados continuados, misericórdias e IPSS), com o objectivo de fomentar as melhores práticas organizativas e da gestão avançada. Contamos já com cerca de 250 formandos distribuídos por vários cursos de várias tipologias, o curso de Gestão Organizacional de Lares e Casas de Repouso para decisores técnicos, gerentes e donos de lares de idosos, a Pós-Graduação em Gestão de Equipamentos destinados a Pessoas Idosas destinada a licenciados com funções técnicas, o Curso de Executivos em Gestão de Equipamentos destinados a Pessoas Idosas para dirigentes de topo de Misericórdias, IPSS e organizações privadas. Num outro nível tem vindo a desenvolver formação creditada para ajudantes e auxiliares de lares e cuidados continuados, como sendo, o curso de Atendimento – Elevar competências, potenciar o sucesso, e Auxiliares p/Equipamentos destinados a Pessoas Idosas.
Ao nível da investigação a associação tem apoiado vários projectos dos quais salientamos três Teses de Mestrado (quality indicators for sensitive care in nursing homes for elderly/ indicadores de calidad sensibles á la práctica de enfermaria, Indicadores de Qualidade em Saúde para Instituições de Cuidados de Longa Duração destinadas às pessoas Idosas, Elderly Falls Prevention in Nursing Home Context e Lares de Idosos em altura, uma perspectiva da Arquitectura) e vários trabalhos de Pós Licenciatura (Lar de idosos: cuidados directos e seu impacto na gestão de recursos humanos; Instrumentos de medida que tipificam e orientem a intervenção ao nível da actividade ocupacional do idoso; Não à solidão! Vou participar…; Lavandaria: como gerir este mal necessário no contexto dos lares de idosos). No seguimento deste intenso trabalho o projecto Model of Organisational Management for Residential and other Care Homes for the Elderly, foi reconhecido internacionalmente pela European Public Health Association (EUPHA) e que pode ser acedido em http://pt.ihealthbank.eu/tabid/64/Default.aspx?projectId=82.
Na área da reflexão do conhecimento tem desenvolvido e participado em vários Seminários e workshops de abrangência internacional. Desses podemos destacar: A influência do envelhecimento na sustentabilidade das organizações, Lisboa; Reflectir os modelos de cuidados para um envelhecimento feliz, Seiça; A Influência do envelhecimento na sustentabilidade das organizações, Porto; Panorama geral de envelhecimento em Portugal e no mundo, Mangualde; Direitos e decisões das pessoas idosas, Lisboa; As cidades e o envelhecimento: a mudança do paradigma actual, Lisboa; Sustentabilidade económica e indicadores de qualidade das IPSS, Loures; Envelhecimento e qualidade das organizações, Faro; Sustentabilidade económica e indicadores de qualidade: em centros gerontologicos, Porto; Experiência Prática em Lares de Idosos no Brasil.
No que concerne na influência das políticas futuras do envelhecimento para Portugal, editou as “5 Medidas para um Envelhecimento de Futuro e com Futuro para Portugal”, onde faz um conjunto de sugestões de alteração e reformulação de legislação existente, como sendo a constituição de Grupo de Trabalho/Unidade para avaliar os graus de dependência e necessidades das pessoas idosas em Portugal, a criação da Rede Nacional de Cuidados e Serviços para as Pessoas Idosas, a aprovação de legislação, com reformulação da actual, sobre o funcionamento de ofertas para as pessoas idosas, a alteração do modelo de comparticipação de cuidados e a introdução de novos modelos de financiamento, em paralelo com legislação adequada sobre representação jurídica das pessoas idosas. Mais recentemente criou o “Plano Nacional de intervenção para a Grande Idade”, de onde se destaca a proposta de monitorização da condição de saúde das pessoas com mais de 65 anos de idade a partir dos centros de saúde, com a introdução da consulta do envelhecimento em Portugal. Estas e outras propostas foram levadas em reuniões a todos os Grupos Parlamentares com acento na Assembleia da Republica, que quiseram receber e discutir com os membros da Direcção da AAGI-ID. Apenas o grupo Parlamentar do CDS – PP, não respondeu à nossa solicitação. Também ao longo do ano de 2011 discutimos estas propostas com vários grupos de peritos e em sessões privadas e publicas de onde resultaram um sucessivo refinamento e disponibilização pública no site da AAGI-ID.
2. A rápida transição demográfica da população em consequência do envelhecimento é uma realidade da sociedade portuguesa. Que soluções pretendem explorar, no futuro, de modo a combater este fenómeno?
No nosso País, existem especificidades próprias que nos fazem reflectir de forma diferente face aos outros países da Europa 27. Neste sentido em Portugal, a esperança média de vida é de cerca de 79 anos de idade, muito semelhante à Espanha, Alemanha e Reino Unido, no entanto existe em Portugal um factor demolidor e referenciador de grande preocupação que é o facto de o número de anos absolutos que as pessoas com mais de 65 anos de idade vivem com saúde ser menos de metade por exemplo do Reino Unido (Tabela 1).
Tabela 1 – ÍNDICE DE ENVELHECIMENTO – Portugal
| Life expectancy in absolute value at birth – females
|
Life expectancy in absolute value at 65 – females | Healthy life years in absolute value at 65 – females | Life expectancy in absolute value at birth – males | Life expectancy in absolute value at 65 – males | Healthy life years in absolute value at 65 – males | |
| Ano | 2007 | 2007 | 2007 | 2007 | 2007 | 2007 |
| Portugal | 82,2 | 20,2 | 5,3 | 75,9 | 16,8 | 6,8 |
| Spain | 84,3 | 21,9 | 9,9 | 77,8 | 17,8 | 10,3 |
| Germany | 82,7 | 20,7 | 7,5 | 77,4 | 17,4 | 7,7 |
| United Kingdom | 81,9 | 20,2 | 11,5 | 77,7 | 17,5 | 10,3 |
| European Union
(27 countries) |
82,2 | 20,5 | 8,9 | 76,1 | 17,0 | 8,7 |
Fonte: Eurostat. (2010), Eurostat regional yearbook 2010.
Se por outro lado, olharmos para os factores demográficos observamos que entre 2008 e 2060, as pessoas com mais de 65 anos de idade vão aumentar de 1.847.358 pessoas em 2008 para 3.480885 pessoas em 2060 (Eurostat, 2009, 2010). Se considerarmos apenas as pessoas com mais de 80 anos de idade o crescimento demográfico neste período é de cerca de 1.000.000 de pessoas. Se considerarmos os rácios de dependência económica observamos que no mesmo período temporal iremos assistir ao aumento de cerca de 24% actualmente para 45% em 2050 (Yoon, J. (2009). Em nossa opinião, Portugal vai atravessar um período dramático de diminuição de recursos ao nível do sector produtivo, pelo efeito combinado do envelhecimento e do aumento dos níveis de dependência económica e consequente diminuição da força de trabalho (Healthcare Report, 2010). A AAGI-ID entende ser necessárias não apenas o refinamento das medidas actuais, como a rápida percepção e preparação do futuro do País ao nível do envelhecimento. Pensamos que são necessárias mais do que medidas avulsas como temos vindo a tomar nas últimas duas décadas é necessário uma estruturação central das políticas do envelhecimento, combinadas com os factores de crescimento económico e reestruturação de alguns sectores do estado. Alguns Países Europeus (França, Inglaterra) e os Países Nórdicos têm sido pioneiros, no entanto apesar de termos importado as suas melhores ideias, legislamos medidas avulsas pouco alinhadas com o nosso tecido cultural, social e económico, o que as torna como que inúteis para os cidadãos, com consequente diminuição dos indicadores de bem estar ao nível por exemplo das pessoas aposentadas. A corroborar esta ideia está o facto de (Tabela 2) a auto percepção das pessoas aposentadas em Portugal, em relação à sua saúde ser referenciada em 49,9% das pessoas inquirida como “má” ou “muito má”, o que contrata com por exemplo o Reino Unido e com a Média dos 27 países da União Europeia.
Tabela 2 – Auto percepção do estado da saúde das pessoas aposentadas
| Self-perceived health by sex, age and activity status (%) – Mau / Muito Mau- Aposentados | |
| Ano | 2008 |
| Portugal | 49,9 |
| Spain | 20,6 |
| United Kingdom | 10,0 |
| European Union (27 countries) | 22,3 |
Fonte: Eurostat. (2010), Eurostat regional yearbook 2010.
3. Quais os factores que elevam a importância da ligação do sistema de saúde nacional com o envelhecimento?
Com base nos números anteriores a ligação entre o envelhecimento e o Sistema Nacional de Saúde tem sido feita de forma pouco estruturada. O que temos hoje em Portugal é um repartir de responsabilidades entre o Ministério da Saúde e do Ministério do trabalho e da Solidariedade Social, o que tem levado à crescente desresponsabilização e dispersão de meios no terreno. A AAGI-ID, entende que não é possível continuarmos com a ideia de que podemos dividir as pessoas com mais de 65 anos de idade entre o sector da saúde e o sector social, as pessoas são únicas e não podemos no futuro continuar a esbanjar recursos económicos e sociais.
Se observarmos os gastos com o envelhecimento em Portugal em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) e os compararmos com outros países da zona euro, observamos um baixo investimento (tabela 3), o que contrasta com os gastos com o PIB com a saúde, em relação aos outros países.
Tabela 3 – Gastos com o Envelhecimento e saúde em relação ao Produto interno Bruto
| Healthcare spending, international comparison
(% of GDP) |
Expenditure on care for elderly.
% of GDP |
|
| Ano | 2009 | 2009 |
| Portugal | 10,3 | 0.25 |
| Spain | 10 | 0.45 |
| United Kingdom | 10,1 | 0.56 |
| European Union (27 countries) | … | 0.42 |
Fonte: Eurostat. (2010), Eurostat regional yearbook 2010.
A AAGI propõe a criação de Unidade de Missão para o Envelhecimento nomeado pelos Ministérios da Saúde e do Trabalho e Solidariedade Social para avaliar os graus de dependência e necessidades das pessoas idosas em Portugal. Com o objectivo de planear as necessidade em equipamentos sociais, apoio domiciliário e de cuidados de saúde, das pessoas com mais de 65 anos de idade a Médio e Longo Prazo. Entendemos que os modelos de gestão de cuidados às pessoas têm de ser alicerçados no conhecimento das reais necessidades do País. Medidas avulsas, em nossa opinião, têm vindo a desagregar os cuidados e consequente perda de recursos, que tem em muito aumentado os níveis de dependência das pessoas com mais de 65 anos de idade no nosso País.
4. Para compreender melhor as questões da grande idade em Portugal, que indicadores de avaliação são utilizados nas vossas discussões e sessões de trabalho?
Quer nas sessões públicas (Workshops, Simpósios, Congressos), quer nas reuniões mais restritas de reflexão, desafiamos os nossos interlocutores para utilizarem dados baseados na melhor evidência científica, em publicações de organizações Europeias ou internacionais, que regularmente sistematizam um conjunto de indicadores e o comparam com um conjunto alargado de Países. Neste sentido os indicadores demográficos do custo dos actos em saúde mais frequentes, a auto percepção das pessoas, os custos dos sistemas de saúde, a percentagem de financiamento dos cuidados continuados, número de Nursing Homes pelos vários países, a tipificação dos indicadores de qualidade em saúde das organizações de prestação de cuidados de longa duração, são exemplos que podem alicerçar este tipo de relatórios, e conhecimento científico que nos permite uma visão alargada e direccionada para projectar e adaptar o futuro do envelhecimento em Portugal. Recentemente lançamos a Revista Envelhecimento & Inovação, que será por certo uma referência em Portugal sobre as matérias do envelhecimento, assim, esperamos uma crescente discussão ao nível científico de medidas pragmáticas do desenvolvimento do envelhecimento.
5. Para acelerar a forma actual de intervenção na problemática do envelhecimento é necessário reforçar as actuais medidas. Que reforço pensa ser fundamental para melhor a qualidade de vida das pessoas idosas em Portugal?
Como se pode perceber na nossa opinião e desculpe a expressão “andamos todos ao contrário em matéria de cuidados ao nível do envelhecimento em Portugal”, assim a AAGI-ID, propõe uma alteração profunda por exemplo ao nível das comparticipações em relação aos cuidados das pessoas com mais de 65 anos de idades. Temos em Portugal um sistema de apoio ao envelhecimento que leva à institucionalização progressiva das pessoas. No nosso país os sistemas comparticipam mais para mantermos as pessoas em lares de idosos, em unidades de cuidados de pequena, média e longa duração da Rede Nacional de Cuidados Continuados, do que comparticipam os cuidados domiciliários. Em pouco mais de quatro décadas vamos ter mais 1.000.000 pessoas com mais de 80 anos de idade, e se cruzarmos este dado com os anos em que as pessoas com mais de 65 anos de idade necessitam de cuidados de saúde em Portugal, “a não se fazerem reformas radicais, teremos em mãos uma bomba relógio a explodir em qualquer altura” (Kofi Anam, 2002). Neste sentido propomos uma alteração profunda e esta passa pela alteração do modelo de comparticipação de cuidados e serviços às pessoas idosas com atribuição directa às famílias e favorecendo a comparticipação dos cuidados domiciliários em relação aos cuidados institucionalizados.
Para tudo isto é necessária a introdução de novos modelos de financiamento, devidamente legislados, que incluam hipotecas inversas, seguros de dependência/vitalícios, fundos financeiros, etc., em paralelo com legislação adequada sobre representação jurídica das pessoas idosas. No sentido de se conferirem às pessoas com mais de 65 anos de idade um conjunto de instrumentos legais que as ajudem a decidir e gerir os patrimónios, como forma de lhes conceder maior dignidade e qualidade de vida.
A AAGI-ID, faz o seu papel de influência de decisores políticos, agente de opinião e a sociedade civil em geral, cumprimos o nosso papel de ajudarmos a cuidar do envelhecimento em Portugal, como forma de melhor qualidade de vida das pessoas com mais de 65 anos de idade.
Associação Amigos da Grande Idade – Inovação e Desenvolvimento
César Fonseca – Vice-presidente
BIBLIOGRAFIA
Eurostat. (2009), Eurostat regional yearbook 2009 . Luxembourg: Publications Office of the European Union, ISBN 978-92-79-11696-4, ISSN 1830-9674, doi: 10.2785/17776, Cat. No: KS-HA-09-001-EN-C.
Eurostat. (2010), Eurostat regional yearbook 2010. Luxembourg: Publications Office of the European Union, 2010, ISBN 978-92-79-14565-0, ISSN 1830-9674, doi:10.2785/40203, Cat. No: KS-HA-10-001-EN-C.
Healthcare Report. (2010). Healthcare Industry Report: Portugal, 9-15. Retrieved from EBSCOhost.
Yoon, J. (2009). Byond the Crisis: Toward a New Horizon. SERI Quarterly, 2(4), 52-61.









