Retratos Gráficos dos Portugueses

Nov 12, 2018

Inicio aqui uma série que intitulei “Retratos Gráficos dos Portugueses”.

As fontes são os dados de inquéritos vários, com destaque especial para o European Social Survey e Eurobarómetro. Os meus comentários serão minimalistas, pois deixo isso ao vosso cuidado.

Os vossos comentários são desejados.

Espero que gostem e vos sejam úteis.

Partilhem e comentem à vontade.

Os primeiros 3 “retratos” mostram como é que os portugueses se avaliam nas respostas ao Inquérito Social Europeu, round 8, 2016 relativamente aos seguintes tópicos:

. Confiança nos outros;
. Honestidade;
. Altruísmo.

Rui Brites 1

¹ Sociólogo e professor universitário (rui.brites@outlook.com)

Ler mais

As notícias sobre o fim da Família são manifestamente exageradas¹

Out 16, 2018

O que se segue depois da família? Muito simplesmente a família! Apenas diferente, mais e melhor: a família negociada, a família alternativa, família múltipla, novos arranjos depois do divórcio, recasamento, novo divórcio, novas combinações dos teus,meus ou nossos filhos, das nossas famílias passadas e presentes

Elizabeth Beck Gernsheim

Contrariando as teses sobre o fim da família, Anália Torres tem demonstrado nos seus estudos que os processos de transformação da família se constituem como importantes lugares de debate entre o público e o privado e se mantém bastante actuais. Como mostram os dados do Inquérito Social Europeu, entre diversos aspectos da vida em sociedade, a família é mesmo o mais valorizado na vida dos europeus, tanto por homens, como por mulheres:

Importância da Família, Amigos, Tempos livres, Política, Trabalho, Religião e Voluntariado, na vida dos europeus, por sexo (médias)

 

Escala: 0=nada importante; 10=extremamente importante
Mostrando a importância e a prevalência que as pessoas dão à família, estes resultados, que não surpreendem os sociólogos desta área, podem constituir alguma surpresa para um público mais vasto. Ecos persistentes da ideia de crise da família parecem, ao menos superficialmente, contradizer esta hierarquia de valores, que permanece ao longo das últimas duas décadas extremamente consistente, como vários inquéritos têm mostrado. Já a escolha dos amigos e do lazer para segundo e terceiro lugar é possível que constituam alguma novidade, pois relativiza e “desimportantiza” a religião, o trabalho voluntário e a política.
No conjunto dos sete aspectos considerados, verifica-se que são mais as semelhanças do que as diferenças entre homens e mulheres. Com efeito, a ordem de importância de cada um deles é a mesma até à quarta posição, surgindo a falta de consenso na religião, último lugar neles e quinto nelas, e na política, onde se verifica o inverso. Eis um resultado que também tende a contrariar o senso comum. Com efeito, é voz corrente que as mulheres valorizam muito mais do que os homens a família e que apostam muito menos do que eles no trabalho, e que em contrapartida os homens hierarquizariam estes aspectos da vida exactamente da maneira oposta: trabalho primeiro, família depois. Ora o que se passa é que a hierarquia é exactamente a mesma para os dois sexos.
Ainda de acordo com os dados do Inquérito Social Europeu, outro indicador da importância da família para os europeus, neste caso da família mais próxima, confirma estes resultados, com 85,7% dos inquiridos a concordarem que a família mais próxima deve ser a prioridade principal na vida das pessoas. Portugal (81,9%) regista valores inferiores à percentagem média. Saliente-se, ainda, que na sua esmagadora maioria, os europeus consideram que o tempo passado em família é agradável e pouco stressante, mais para elas do que para eles.
Ainda de acordo com os dados do Inquérito Social Europeu, outro indicador da importância da família para os europeus, neste caso da família mais próxima, confirma estes resultados, com 85,7% dos inquiridos a concordarem que a família mais próxima deve ser a prioridade principal na vida das pessoas. Portugal (81,9%) regista valores inferiores à percentagem média. Saliente-se, ainda, que na sua esmagadora maioria, os europeus consideram que o tempo passado em família é agradável e pouco stressante, mais para elas do que para eles.
No entanto, quando saímos do plano dos valores e nos centramos nas práticas, a realidade é bem diferente. Tanto na Europa como em Portugal, são as mulheres que gastam mais tempo em tarefas domésticas no dia-a-dia. Entre os que dizem que não gastam “nenhum tempo ou quase nenhum” com tarefas domésticas, os homens são cerca do dobro das mulheres na Europa e o triplo em Portugal. Ou seja, se no capítulo das tarefas domésticas as mulheres na Europa estão claramente sobrecarregadas em relação aos homens, em Portugal estão ainda mais. Dados do Eurobarómetro mostram que as mulheres gastam em média por semana cerca de 24 horas nas tarefas domésticas e a cuidar das crianças e da família, enquanto os homens gastam apenas cerca de 13 horas. O gap entre homens e mulheres é comum a todos os países e desfavorável às mulheres, significando, por conseguinte, que elas trabalham, em média, mais do que os homens em tarefas domésticas e cuidados familiares. A diferença média no conjunto dos países é de 10,7 horas. Portugal está entre os países com o gap mais elevado (13,5 horas). Como nota Anália Torres: “A discriminação e a sobrecarga feminina nos cuidados com os filhos e com a casa não é novidade, num país que remunerou sempre mais a função produtiva do que a reprodutiva”. Não surpreende assim que em todos os países europeus, sejam os homens que mais dizem estarem satisfeitos com a divisão das tarefas domésticas, 87,9% contra 71% de mulheres. É conhecida a célebre proclamação de Mao Tsé-Tung, de que “as mulheres sustentam a metade do céu”, interpretada como um grito pela igualdade de mulheres e homens, não obstante, no que se refere aos papéis familiares, especialmente na Europa do Sul, mais católica e conservadora, as mulheres “sustentam mais de metade do céu”. A desigualdade de papéis familiares é, aliás, produzida e reproduzida no seio da família. Às meninas oferecem-se brinquedos relacionados com os cuidados do lar – cozinhas, bonecas, etc. – e aos rapazes oferecem-se carrinhos bolas.

Rui Brites 2

¹Mais informação em Brites, R., Valores e felicidade no Século XXI: umretrato sociológico dos portugueses em comparação europeia, disponível em https://repositorio.iscte-iul.pt/handle/10071/2948, p.p. 161-171.
² Sociólogo e professor universitário (rui.brites@outlook.com)

Publicado na Revista [Sem]Equívocos, nº7, Verão 2018


Ler mais

Os portugueses gostam da “Geringonça”¹

Jul 17, 2018

Pessoalmente nunca gostei do termo “geringonça” com que a solução governativa foi cunhada de forma infeliz numa crónica de Vasco Pulido Valente. De acordo com o dicionário Priberam³, significa:
“Coisa ou construção improvisada ou com pouca solidez. = CARANGUEJOLA. Aparelho ou mecanismo de construção complexa. = ENGENHOCA. Confundir uma solução governativa legítima contemplada no quadro
constitucional com uma engenhoca,é má fé ou enviesamento ideológico.
Mas os portugueses gostaram manifestamente da solução, como mostram os dados disponibilizados pelo Inquérito Social Europeu⁴. A percepção dos portugueses sobre a sua felicidade, a satisfação com a vida e a satisfação com a forma como o Governo está a governar, atingiu em 2017 valores médios nunca antes registados.
Na satisfação com o Governo, Portugal foi o país europeu onde se registou o maior aumento entre 2014 e 2017, 3,01 e 5,02, respectivamente. Este aumento não tem paralelo com o que se passou entre 2002 e 2014, reflectindo estes valores, sem dúvida, a expectativa positiva com a mudança do governo, pois embora este survey tenha a data de 2016, em Portugal a recolha dos dados ocorreu entre o fim de 2016 e 2017. Ou seja, a opinião dos portugueses sobre a governação está consolidada.
Relativamente à satisfação com a vida e à felicidade, regista-se também um aumento estatisticamente significativo. A posição relativa de Portugal relativamente a estas duas dimensões do bem-estar subjectivo mantém-se relativamente estável desde 2002. Não admira, pois, a percepção do bem-estar subjectivo tem características estruturais e varia pouco ao longo do tempo. No entanto, é de sublinhar o aumento verificado. Note-se ainda que as respostas a questões deste género são muito influenciadas pela idiossincrasia do país. Por norma, os portugueses não respondem nas “pontas da escala”, são moderados nas respostas. Nem se sentem muito mal, nem muito bem, antes assim-assim.
Já a satisfação com o governo é uma dimensão conjuntural, que pode registar um aumento significativo em face de uma situação considerada extraordinária, como é o caso e nada garante que se mantenha se os portugueses se sentirem defraudados nas expectativas que depositaram na mudança de ciclo. Como se sabe, a oposição não ganha eleições, o governo é que as perde. Estes resultados, ao mesmo tempo que traduzem a aprovação da actual solução governativa, traduzem também, uma insatisfação profunda com a situação anterior.
Os quadros seguintes* evidenciam estes resultados:

Rui Brites²

¹Publicado no Diário As Beiras em 13/07/2018. http://www.asbeiras.pt/2018/07/os-portugueses-gostam-da-geringonca/
² Sociólogo e professor universitário (rui.brites@outlook.com)
³https://www.priberam.pt/dlpo/geringon%C3%A7a
http://www.europeansocialsurvey.org .Os dados respeitantes ao round 2016 foram recolhidos em Portugal entre o fim de 2016 e meados 2017.

Ler mais

Os portugueses e a política

Jun 29, 2018

A mesa resplandecia; e as tapeçarias, representando massas de arvoredos, punham em redor como a sombra escura de um retiro silvestre onde, por um capricho, se
tivessem acendido candelabros de prata. Os vinhos saíam da frasqueira preciosa do Ramalhete. De todas as coisas da Terra e do Céu se grulhava com fantasia – menos de «política portuguesa», considerada conversa indecorosa entre pessoas de gosto

Eça de Queiroz (Os Maias)

O interesse pela política é um indicador que funciona como barómetro da preocupação dos cidadãos pela “coisa pública”. Os dados do Inquérito Social Europeu (ESS) 2002-2014, mostram que os portugueses são os europeus que mais dizem que não se interessam por política (38,4%), verificando-se no Algarve o desinteresse mais acentuado (67,6%). Mas, se o desinteresse pela política é um sintoma preocupante, as dificuldades em perceber a política, certamente, não o são menos, pois em concreto pode traduzir-se em tomadas decisão pouco informadas, de que é exemplo o acto de votar. As campanhas eleitorais têm como principal finalidade, como se sabe, convencer os indecisos. O anátema de que os candidatos mentem todos e, quando estão no poder não cumprem as promessas que fizeram, decorre da “impossibilidade” de o fazerem. Mente-se mais quando o público-alvo quer que lhe mintam. Ou seja, um candidato que diga a “verdade” não tem hipóteses de ser eleito, como bem tem demonstrado a ciência política. Advém daí a importância do marketing político que, a exemplo do marketing comercial, pretende “vender” um candidato, exaltando, para o efeito as suas pretensas qualidades, mas escamoteando os seus defeitos. Também neste caso, na Europa é em Portugal que se regista a percentagem mais elevada de inquiridos que dizem que a política lhes parece tão complicada que não percebem verdadeiramente, o que se está a passar (42,8%).
Outro indicador importante para perceber a relação dos cidadãos com a política é a resposta à questão: “De uma forma geral, qual o grau de dificuldade que sente em tomar uma posição acerca de questões políticas?”. Mais uma vez, Portugal regista a percentagem mais elevada dos que dizem que têm dificuldade em tomar uma posição política (52,3%).

É claro que esta relação dos portugueses com a política não pode deixar de produzir efeito na simpatia partidária e no voto. Como notou José Manuel Viegas, ao analisar a abstenção nas eleições legislativas de 2002, a simpatia partidária é um preditor importante e as variáveis com maior peso no acto de votar são: o “interesse pela política”, a “idade”, e a “simpatia partidária”. Os resultados do ESS confirmam aqueles resultados, pois entre os que têm simpatia por um partido apenas 10,7% dizem que não votaram nas últimas eleições nacionais, enquanto nos que não têm, aquele valor ascende a 31,8%.

É assim patente o distanciamento da política por parte dos portugueses. Este distanciamento, como se sabe, condiciona o exercício pleno da cidadania. Alguns autores têm chamado a atenção para o facto de constituir uma ideia adquirida de que a política está em crise, manifestando-se o desinteresse por esta de tal forma, que era possível falar numa tendência para a despolitização, cuja causa mais frequentemente avançada seria o “comportamento dos próprios actores políticos”, nomeadamente, os numerosos escândalos políticos que puseram em causa a sua credibilidade. É o que se pode inferir dos seguintes indicadores de confiança política que, em Portugal, registam os valores médios mais baixos:

Confiança política na Europa*

 

Em suma, os portugueses não se interessam por política, têm dificuldade em descodificar o discurso político e em tomarem decisões políticas. E votam! Como votam? É o que veremos em próximo artigo.

Fonte: European Social Survey 2002-2014 ( www.europeansocialsurvey.org)

Rui Brites 1

Publicado na Revista [Sem]Equívocos, nº6, Primavera 2018


1 Sociólogo e professor universitário (rui.brites@outlook.com)

Ler mais

Simpatia partidária e Autoposicionamento político

Abr 9, 2018

“Um eleitor que declara o seu voto já não é um simples eleitor, começa a tornar-se um simpatizante… a sua confissão traz já em si um elemento de propaganda; ela aproxima-o igualmente dos outros simpatizantes e cria os primeiros laços duma comunidade”

Maurice Duverger

Os valores sociopolíticos, nomeadamente os que se referem ao interesse pela política, autoposicionamento político e participação política, assumem um papel central na esfera da cidadania activa. Inglehart, que propôs uma taxonomia dos valores sociopolíticos distinguindo dois grupos: “materialistas” e “pós-materialistas”. Associa os primeiros à satisfação das necessidades básicas, ao bem-estar económico e à coesão social e os segundos a preocupações sociais e individuais: estéticas, intelectuais, qualidade de vida e envolvimento nos processos de tomada de decisão no trabalho, nas relações de vizinhança e no sistema político. Salientava o facto de as sociedades ocidentais darem uma prevalência cada vez maior aos valores pós-materialistas, notando que quanto maior for o desenvolvimento sociocultural maior será a saliência deste tipo de valores. A socialização política assume, assim, um papel primordial na formação das crenças e valores promotores de uma cidadania activa e participativa. Se a política é a arte do possível, convém que o “possível” seja exigente. Só o será se os cidadãos tomarem consciência do seu papel de agentes transformadores da sociedade, recusando os “determinismos sociais” patentes nos modelos de sociedade com que amiúde são confrontados. As mudanças sociais e de sociedade registadas ao longo do processo histórico da humanidade são bem o exemplo de que o “que tinha que ser assim e não podia ser de outra maneira”, afinal… “podia ser de outra maneira”..

De acordo com os dados disponibilizados pelo Inquérito Social Europeu entre 2002-2012, cerca de metade dos portugueses com capacidade eleitoral declara que tem simpatia por um partido político. Destes, 44,4% dizem que simpatizam com o PSD,37,7% com o PS, 5,2% com o BE, 3,5% com o CDS e 2,3% com o PC.

Como escreveu algures Eduardo Prado Coelho, e cito de memória: quando alguém diz que já não há razão para distinguir a esquerda da direita, é porque é… de direita. Vem isto a propósito da dicotomia esquerda direita no discurso político, por um lado, e do significado que isso pode ter para o cidadão comum, por outro. Com efeito, quando analisamos a resposta à seguinte questão constante do Inquérito Social Europeu: “Em política é costume falar-se de esquerda e direita. Como é que se posiciona nesta escala, em que 0 representa a posição mais à esquerda e 10 a posição mais à direita?”, os resultados parecem algo desconcertantes. Em termos médios, os portugueses que simpatizam com um partido político autoposicionam-se ao centro (4,7). Os simpatizantes do Partido comunista e do Bloco posicionam-se claramente à esquerda (2,4), os do CDS à direita (7,3), os do PSD ao centro (5) e os do PS ao centro-direita (5,8).

O quadro seguinte mostra bem a vocação de “catch all party” do PS e do PSD. Por seu lado, o CDS assume-se como o partido da direita, dando razão ao que disse a sua líder no último congresso. O PCP e o Bloco disputam os simpatizantes que se posicionam claramente à esquerda.

 

 

 

 

 

 

 

Note-se que estes dados se referem a uma série longa – seis edições do Inquérito Social Europeu, 2002, 2004, 2006, 2008, 2010 e 2012 – com várias eleições legislativas e autárquicas pelo meio, o que permite minimizar os efeitos de conjuntura. No próximo artigo veremos as implicações que a simpatia partidária e o autoposicionamento político têm no voto.

Publicado no Diário As Beiras, 29/03/2018, pág 25.

Rui Brites 1


1 Sociólogo e professor universitário (rui.brites@outlook.com)

 

Ler mais

Percepções sobre a Justiça

Mar 21, 2018

“A base da sociedade é a justiça; o julgamento constitui a ordem da sociedade: ora o julgamento é a aplicação da justiça”

Aristóteles

A confiança, como têm sublinhado diversos autores, está intimamente ligada ao “capital social” e tem implicações no dia-a-dia das pessoas, reflectindo-se nas atitudes sobre o pagamento de impostos, o envolvimento comunitário, a participação eleitora, etc. Já a falta de confiança produz anomia social, teorizada por Durkheim como ausência de normas sociais e morais que sirvam de “guia” para a sociedade. Quanto menos os cidadãos confiarem nos seus governantes e nas instituições políticas, menos eficiente se tornará o governo e maior será a probabilidade de os cidadãos verem pouca credibilidade no seu sistema político. Para Giddens, a confiança pode definir-se como a segurança na credibilidade de uma pessoa ou na fiabilidade de um sistema. As sociedades mais confiantes são também as mais tolerantes e solidárias. A falta de confiança, também designada na linguagem comum por desconfiança, torna-se assim um elemento constrangedor da cidadania e, por consequência, do desenvolvimento económico e social. Como notou Maquiavel: “os homens são tão simples e tão obedientes às necessidades do momento, que quem engana encontra sempre quem se deixe enganar”.

Entre as instituições democráticas, o Sistema Judicial e o funcionamento da justiça é um dos pilares fundamentais da democracia. É por isso que os dados disponibilizados pelo Inquérito Social Europeu não nos devem deixar descansados, pois os portugueses contam-se entre os europeus que menos confiança têm na justiça. Certamente que estes resultados serão, em grande parte, influenciados pela mediatização da justiça e pela percepção que os portugueses têm de que a justiça é fraca com os fortes e forte com os fracos. Um exemplo: Portugal está classificado no 29º lugar no Índice de Percepção da Corrupção, no entanto, contam-se pelos dedos das mãos os “corruptos” presos.

As penas controversas aplicadas pelos tribunais, que contribuem para a percepção de que a justiça é injusta, também podem explicar a pouca confiança na Justiça. Os casos de violência doméstica que
foram amplamente mediatizadas, também contribuem para isso. Este excerto do famoso acórdão do Tribunal da Relação do Porto: «o adultério da mulher é uma conduta que a sociedade sempre condenou (são as mulheres honestas as primeiras a estigmatizar as adúlteras), e por isso [a sociedade] vê com alguma compreensão a violência exercida pelo homem traído, vexado e humilhado pela mulher». Não surpreende assim que o Presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público tenha afirmado recentemente numa entrevista que “o Ministério Público não está preparado para lidar com a violência doméstica. Lê-se e custa a acreditar.

Os recentes casos de fogo posto, como esta notícia da TVI do passado mês de Julho: «Pena suspensa para incendiário que ateou nove fogos. Arguido estava com pulseira eletrónica e confessou os
factos em tribunal. Justificou-se dizendo que “andava descontrolado” com a separação da mulher. Juízes decidiram dar-lhe “um voto de confiança”», são incompreensíveis para a opinião pública.

Não surpreende assim que cerca de 80% dos portugueses concordem que «Geralmente, os tribunais protegem mais os interesses dos ricos e poderosos e menos os das pessoas comuns» e que «As decisões e acções dos tribunais são indevidamente influenciadas por pressões de partidos e figuras políticas»2. A figura seguinte deve preocupar-nos a todos, salientando-se o facto de que os países que mais confiam na justiça são, também, os que estão melhor posicionados no Índice de corrupção3.

Fonte: European Social Survey 2002-2014 ( www.europeansocialsurvey.org)

Rui Brites 1

Publicado na Revista [Sem]Equívocos, nº5, Inverno 2018: 8 e 9


1 Sociólogo e professor universitário (rui.brites@outlook.com)

2 Dados do European Social Survey, 2010.
3https://www.transparency.org/news/feature/corruption_perceptions_index_2016#table

Ler mais

Governar deve ser a Arte do Impossível

Out 17, 2017

“A política é a arte do possível. Toda a vida é política”

 Cesar Pavese

Se a política fosse a arte do possível, como disse Pavese, e antes dele Bismark, bastaria eleger o Ministro das Finanças. Mas não é e não posso estar mais em desacordo. A verdadeira política não se pode circunscrever ao possível e deve almejar o impossível. A distinção entre a política como “arte do possível” ou como “arte do impossível” é a mesma que existe entre políticos e estadistas. Os primeiros limitam-se a cumprir o mandato, os segundos mudam a história. Relativamente aos primeiros, Eça, com a sua acutilância verrinosa e desiludido com a política portuguesa, observou que “políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos pelo mesmo motivo”. A limitação de mandatos terá aqui, certamente, um argumento de peso. No entanto, as recandidaturas de alguns “dinossauros” às próximas eleições autárquicas, com base em que têm o dever de continuar a obra que foi interrompida por imperativos legais e não por vontade dos cidadãos, leva-me a pensar que os seus potenciais eleitores discordam da interrupção e, desiludidos com o substituto que elegeram, votarão no candidato que melhor serve os seus interesses. Resta saber de que interesses falamos.
De acordo com o nº 3 do Art. XXI da Declaração Universal dos Direitos do Homem: “A vontade do povo será a base de autoridade do governo; esta vontade será expressa em eleições periódicas e legítimas, por sufrágio universal, por voto secreto ou processo equivalente que assegure a liberdade de voto”. Ou seja, se a política for a arte do possível, convém que o “possível” seja exigente e só o será se os cidadãos tomarem consciência do seu papel de agentes transformadores da sociedade, recusando os “determinismos sociais” patentes nos modelos de sociedade com que amiúde são confrontados. As mudanças sociais e de sociedade registadas ao longo do processo histórico da humanidade são bem o exemplo de que o “que tinha que ser assim e não podia ser de outra maneira”, afinal… “podia ser de outra maneira”. Mas sendo o interesse pela política um indicador que funciona como barómetro da preocupação dos cidadãos pela “coisa pública”, os dados disponibilizados pelo Inquérito Social Europeu no período compreendido entre 2002 e 2014, são bastante preocupantes, uma vez que na Europa os portugueses são os que mais dizem que não têm nenhum interesse pela política 38,4%, o dobro da percentagem média na Europa (19,1%). Na Dinamarca, considerado o país “mais feliz” do mundo, apenas 5,1% dos dinamarqueses dizem que não se interessam pela política. Se juntarmos a isto o facto de os portugueses se situarem entre os europeus que menos confiança têm nos políticos e que mais estão insatisfeitos com a governação, podemos considerar que serão pouco cuidadosos na escolha dos políticos que elegem. Dito de outro modo, se em democracia “a vontade do povo é a base de autoridade do governo”, o governo, bom ou mau, é a expressão do voto dos eleitores. A imagem seguinte mostra a relação entre a confiança nos políticos e a satisfação com a governação:

Fonte: European Social Survey 2002-2014 ( www.europeansocialsurvey.org)

 

A conclusão parece evidente: existe uma relação virtuosa entre o interesse pela política, a confiança nos políticos e a satisfação com a governação. Os portugueses
ficam muito mal posicionados neste conjunto de indicadores. Queixam-se dos políticos, de quem desconfiam mas que elegeram; estão insatisfeitos com a governação que emana das suas escolhas eleitorais e consideram-se apenas moderadamente felizes. José Gil em Portugal, Hoje – O Medo de Existir traça o retrato desta situação singular. Será um atavismo dos portugueses ou é meramente conjuntural? O “mal” parece antigo, a fazer fé neste excerto de Pátria, escrito por Guerra Junqueiro há mais de 100 anos (1896):²

“Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, […] um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; […] Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública […] Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País. A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas. Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar.”

Como se vê, a crítica aos partidos que mina a nossa democracia, não mudou muito em 120 anos, o que me leva a pensar que o problema não está nos políticos mas nos eleitores. Para transformar Portugal, é imperioso que as pessoas acomodadas se transformem em cidadãos incomodados. Só assim é possível alterar a política como “arte do possível” para a política como “arte do impossível”, aumentando a exigência da governação e o bem-estar do povo.

Rui Brites 1

Publicado na Revista [Sem]Equívocos, nº3, Verão 2017: 10-11


1 Sociólogo e professor universitário (rui.brites@outlook.com)

2 Embora pareça tão actual. A crítica aos partidos, que mina a nossa democracia, não mudou muito em 100 anos.

Ler mais